Por que paramos de desenhar? E por que não podemos parar?

Quando somos crianças, naturalmente desenhamos. Por impulso, observamos o resultado de nosso gesto gravado na superfície e com o tempo buscamos controlar esse gesto. Nossa aptidão para a linguagem cria conexões entre o significado que os outros seres humanos ao nosso redor manifestam a respeito daquilo que fazemos e produzimos e nossas sensações e sentimentos, formando um repertório de símbolos.

A linguagem gráfica, antes da escrita, é tão fundamental quanto a fala, mas o desenvolvimento e o refinamento dessa linguagem não segue, na maioria dos casos, o mesmo caminho: em algum momento da adolescência paramos de desenhar. O processo é assim: por volta dos dois anos o que desenhamos são apenas rabiscos, estamos suprindo uma necessidade motora. Entre os três e seis anos, passamos a dominar a linguagem simbólica com formas como o círculo e o triângulo, representando a figura humana. Mais ou menos, aos seis anos chegamos a um formato e o repetimos porque gostamos dele. Dos oito aos dez anos, já sentimos que o modelo esquemático não serve para representar a realidade, então desenhamos por cima de outros desenhos, usando a régua e obsessivamente a borracha para detalharmos mais e mais. Depois disso, vem a puberdade e a crise.

idades

Perto dos doze anos desenhar já não é uma atividade espontânea. Já vemos o resultado como um “produto”. Nosso senso de julgamento aumenta e buscamos soluções como luz e sombra, perspectiva, movimento, mas a frustração com o resultado pode nos afastar dos desenhos. Entre os quatorze e os dezesseis anos desenhar é uma decisão consciente. Nosso senso crítico, capacidade de observação e comparação nos inibem e a maioria, dos que chegam até aqui, desistem.

A comparação entre nossa própria produção e o que outras pessoas fazem e o julgamento externo, super estimulado em nossa cultura competitiva, nos inibem e nos fazem desistir. Mas eles são alimentados pela falta de referências. A história da ARTE e do DESIGN são repletos de soluções, traços e abordagens, e quanto mais a conhecermos, maior é a naturalidade com que olhamos para a nossa própria produção, sem cair em análises rasas de certo e errado.

As idades e o percurso descrito acima são uma generalização. Pessoas diferentes farão esse caminho no seu próprio tempo, mas essa não é a única variável. Culturas diferentes estabelecem uma relação diversa com a linguagem gráfica. No Japão, por exemplo, a linguagem escrita (ideograma) é uma representação estilizada de signos gráficos complexos (por isso o mesmo símbolo tem muitos significados), algo totalmente diferente da representação de sons (fonética) da escrita ocidental. Isso faz com que o desenho, ou a representação gráfica, seja, para os japoneses, como uma segunda pele.

Hoje, o design, ou melhor, o conceito norteador do design, é cada vez mais uma ferramenta para a gestão de todo o tipo de negócio, para testar e aperfeiçoar produtos, desenhar a experiência de interação entre o consumidor e diversas interfaces, sofisticar a prestação de serviço. A organização de ideias através de desenhos, símbolos e conceitos é um tipo de comunicação universal, que comporta uma grande complexidade de forma direta e elegante.

Algumas práticas podem ampliar nossa relação com a representação gráfica. A mais importante delas é não delimitar regras e técnicas que inibam a exploração natural dessa linguagem na infância e na juventude. As regras servirão mais tarde para avançarmos, mas, sem tolher a criatividade. Outro caminho é explicar através de desenhos. Em um mundo onde os estudantes tiram fotos da lousa, o ato de grafar (escrever ou desenhar), que aprofunda nossa relação com o assunto tratado, está se perdendo. Construir resumos e explicações esquemáticas e gráficas são um caminho interessante para retomarmos esse fundamental passo cognitivo.

No vídeo abaixo Roman Mars fala sobre o design de bandeiras, mas no fundo ele está falando sobre a importância do conceito de design. Simples, coerente, sintética, a linguagem gráfica comunica de forma direta e profunda, afetando tudo e todos que toca. Num mundo de imagens, nossa educação deve nos capacitar para navegar por este universo de signos, e é por isso que não podemos parar de desenhar.

*no site do TED dá para assistir com legendas em espanhol

Mauricio Zanolini

2 thoughts on “Por que paramos de desenhar? E por que não podemos parar?

  1. Pois é, quando estava na escola queria muito aprender a desenhar. Adquirir os macetes, traços elegantes, mais realistas, a maneira dos desenhistas dos quadrinhos que admirava. Todavia, com o advento da arte educação, do construtivismo e demais modismos pedagógicos, tudo ficou emperrado. Professor de arte ensinar alguma técnica, apresentar e comparar diversos estilos, proporcionar algo mais elaborado ao aluno tornou-se uma barbaridade… Qualquer coisa é aceitável, como se a “criatividade” surgisse do vazio. Não deve haver orientação, crítica alguma. Quantos talentos se perdem nas mãos dos pedabobos e suas teorias caricatas…

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    1. Oi Molina. Arte educação, construtivismo, e outras abordagens pedagógicas podem ser usadas de forma positiva se o profissional tiver uma formação aprofundada. Infelizmente no Brasil a educação como um todo é feita de forma rasa. O resultado disso são coisas como essa que você citou de se esperar a criatividade brotar do nada. Recomendo que você assista a esse documentário que prova que é sim possível fazer educação pública de qualidade no Brasil – https://www.youtube.com/watch?v=xudWVB0OQBs. Abs!

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