Sobre vulnerabilidade

A primeira coisa que você precisa saber ao deixar os seus olhos pousarem sobre esse texto é que a minha intenção era escrever algumas poucas linhas sobre vulnerabilidade. Apenas isso e nada mais. Algo mais formal, com algumas referências bibliográficas e com finalidade essencialmente didática. Pesquisei alguns artigos, escrevi e reescrevi parágrafos e em determinado ponto do caminho percebi que não faria o menor sentido colocar-me fora desse texto, com a imparcialidade de quem se propõe apenas a escrever, quando na verdade estou descobrindo e vivenciando muitos sentidos para a palavra vulnerabilidade no último ano (sentidos positivos, é bom que eu já adiante). E foi então que esse deixou de ser um artigo para ser um compartilhar de um momento da minha história.

take_risks_and_conquer_your_fears

Tudo começou com um encontro voltado para Educadores, facilitado por mim e realizado no ano passado, em uma casa colaborativa no Rio de Janeiro.

A proposta era fazer uma roda de conversas, permeada por algumas atividades e com um objetivo bem definido: conversarmos sobre nossas inquietações educacionais a fim de traçarmos, juntos, um plano de ação para agirmos amorosamente sobre elas, encontrando caminhos para impactarmos a Educação de nosso país.

Preparei todo o material com bastante carinho, cuidado e antecedência. Agendei a sala. Inscrevi os interessados. Confirmei participações. E o dia do evento chegou. Quando cheguei ao local para arrumá-lo, houve um problema e ele estava ocupado por outra pessoa. Tive que pensar rapidamente num plano B, que sequer me agradava muito e que não garantia que os participantes ficassem bem acomodados. Uma hora antes de iniciarmos, uma chuva terrível fez metade dos inscritos chegarem ensopados e a outra metade sequer aparecer.

A atividade inicial que preparei exigia alguma concentração e silêncio e foi impossível alcançar os resultados que eu gostaria com os atrasados chegando e se juntando a nós em momentos diferentes.

Concluímos a atividade de forma atrapalhada e corrida e passamos para a segunda metade do encontro, a roda de conversas. E ela girou em torno das muitas frustrações e do estresse causado por nos importamos com a sociedade, mas termos dificuldade de promover as mudanças em que acreditamos. Estresse, cansaço, insatisfação profissional e com resultados de sua própria atuação, sensação de falta de apoio, baixa autoestima, problemas de saúde física e psicológica e dores emocionais foram temas recorrentes nas falas. Mas nas poucas falas, é bom que se diga. Porque restou tão pouco tempo para esse momento e as inquietações eram tantas, que os participantes não conseguiram dividir o tempo de forma a dar espaço para outros falarem e eu, já atordoada e sem controle nenhum da situação (até porque uma das participantes não concordava com absolutamente nada do que eu dizia e foi um pouco hostil ao comunicar pensamentos), não ajudei em nada na facilitação do diálogo.

Voltei para casa envergonhada e frustrada. Eu havia encerrado um ciclo profissional para começar outro pouco tempo antes, e facilitar aquele encontro para mim funcionava como um teste, como um primeiro passo importante desse meu novo vir a ser. No dicionário, a definição de vulnerabilidade é “algo ou alguém que está suscetível a ser ferido, ofendido ou tocado. Vulnerável significa uma pessoa frágil e incapaz de algum ato”. E foi assim que eu me senti. E pensei em voltar para a minha zona de conforto, afinal de contas eu não precisava me expor assim.

Até que começaram a me perguntar como tinha sido o encontro e eu colocava um sorriso no rosto, mas respondia: “Foi péssimo. A pior coisa que eu já fiz na vida”. E as pessoas ficavam surpresas. Mas se conectavam com a minha frustração. É que a vulnerabilidade cria conexões. E diálogos riquíssimos se abriram depois disso, todos tendo como objetivo me ajudar a ressignificar aquela experiência, não deixar que ela me paralisasse, e poder seguir em frente. E com tanto estímulo, foi o que fiz.

Coletei algumas opiniões, analisei e percebi, então, que antes de traçar um plano de ação para mudarmos algo, necessário se fazia reservar um momento para cuidar daquele que deseja promover uma mudança e dar-lhe instrumentos para que se conheça melhor em suas qualidades e limitações, descubra suas potencialidades e missão no mundo e esteja bem consigo mesmo para somente desse ponto em diante pensar em cuidar do outro, oferecendo-lhe o que tiver de melhor.

Percebi também que uma das grandes causas de frustração de quem se predispõe a fazer algo pelo outro é levar a sua energia e o seu projeto para o lugar errado. Ou seja, para onde não há interesse ou espaço para a sua força de trabalho, para a sua ação. Ou pior: dar ao outro algo que se julga que ele deseja, mas que não é o que, de fato, ele quer e/ou precisa.

Somado a esses fatores, identifiquei também a necessidade de uma análise sobre o contexto em que estamos inseridos e sobre o entorno. São tantos os que querem atuar positivamente sobre o mundo, mas não conhecem os problemas do seu próprio condomínio, por exemplo. E mesmo quando agimos somente sobre um indivíduo, precisamos considerar que essa pessoa faz parte de uma rede e que impacta diretamente muitas pessoas por diversos fatores, entre eles por pura e simplesmente relacionar-se com elas.

Concluí que somente ao darmos conta desses aspectos – conhecermos a nós mesmos, o outro e o mundo – podemos promover o que quisermos, de forma positiva e saudável desde que nos preparemos para isso.

E foi a partir daí que surgiu o foco central do meu trabalho na Universidade Livre Pampédia, que encontrei o tom para atuar com projetos de desenvolvimento humano de uma equipe que sempre respeitei e admirei. E também o embrião de um projeto que visa contribuir para a promoção de microrrevoluções no mundo, ou seja de múltiplas revoluções silenciosas, que transformem o mundo de forma lenta, gradual e positiva.

E passei a concordar com Brene Brown , quando diz que a vulnerabilidade é o berço da inovação, da criatividade e da mudança. E lamentei todas as vezes que me paralisei diante do medo de não dar certo, que fingi que não doía para não demonstrar fraqueza, que deixei de pedir ajuda para algo, que deixei de fazer alguma coisa por vergonha.

E passei a acreditar que necessário se faz nos enchermos constantemente de coragem, mas não aquela do:

“Caiu e se quebrou todo? Chora não, coragem!”

Nem do…

“Não demonstre fraqueza, coragem!”

Muito menos do…

“Você não vai errar, coragem!”.

Mas sim da libertadora e amorosa coragem da forma como ainda Brene Brown nos apresenta, quando nos relembra que a sua definição original quando veio para a língua inglesa — é da palavra latina cor, que significa coração — e a definição original era “contar a história de quem você é com todo o seu coração”.

É também Brene Brown quem diz que estar vulnerável é estar em risco emocional, exposto, rodeado por incertezas. Ou seja, estamos todos nós vulneráveis, não? Quem é que consegue amar, ter amigos, fazer algo que se orgulhe no trabalho, criar filhos, realizar um sonho, vencer uma crise sem estar em risco emocional, exposto e rodeado de incertezas?

Aceitemos a vulnerabilidade, então! E tenhamos a coragem genuína de ser quem somos.

Viviane Ribeiro

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