Ainda sobre Empatia. E também sobre Autotranscedência e Educação

Segundo o psicólogo mexicano Guillermo Pareja Herrera, o grande drama do contexto contemporâneo diz respeito à questão da convivência. Vivemos, andamos pelo mundo, desconectados uns dos outros, alardeando nossas próprias necessidades, sem entusiasmo pelas causas sociais.

Comportamo-nos como seres independentes, com tendência ao individualismo, ao materialismo e ao consumismo, como atesta o sociólogo polonês Zigmunt Bauman.

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Entretanto, todo ser humano, consciente ou inconscientemente, afirmava Viktor Frankl – criador da Logoterapia – carrega em si uma dimensão intuitiva, que se assemelha a uma bússola divina, cujo norte aponta para a autotranscendência.

Quando atentos para os chamados deste instrumento que nos impulsiona ao positivo, percebemos que nossa harmonia íntima está intimamente ligada com os aspectos amorosos do Ser. Somente nos acalmamos, nos pacificamos ou nos curamos quando nos ligamos ao outro, pelas vias da empatia, vivendo e existindo para questões que ultrapassam o foro íntimo, desembocando nos portões que nos levam às necessidades de toda a humanidade.

Nosso destino é, portanto, ser e existir para os demais. Intuímos esta finalidade última de que nossos conhecimentos, nosso desenvolvimento individual estariam, então, ligados às necessidades do coletivo.

Dentro desta perspectiva, provoca-nos Herrera: “Tudo o que existe no mundo, existe para algo, sendo assim, mesmo a vida tem um propósito último, portanto precisamos, com urgência, nos questionar sobre as motivações para nossa própria existência. Vivemos para quê?”

Somente quando nos damos conta do nosso sentido existencial podemos, por fim, enfrentar nossos desafios individuais e coletivos com força e determinação, além de relativa harmonia.

Enquanto nos mantemos dentro de uma experiência corrosiva, porque dentro da acidez e aridez do individualismo, nos inquietamos sem nos darmos conta dos motivos de tal inquietação.

Portanto, o que temos visto, de modo geral, é um descompasso existencial, que nos faz adoecer.

Sabemos que o capitalismo está na base de muitos dos dramas que enfrentamos, porque promove uma desumanização, tornando o ser humano ao mesmo tempo consumidor e objeto. Porém devemos entender que o sistema que nos abraça nasce de um movimento humano, onde o indivíduo é influenciado, mas também influencia para que o todo se mantenha.

E, onde entra a educação nisso tudo?

Só ela pode mudar esta realidade!

A educação atual se põe a serviço do sistema. As estratégias educacionais da contemporaneidade forçam aquele que frequenta suas atividades, a se desconectar de suas própria essência, tornando-se alienado. O indivíduo é formatado para uma vida isolada, pautada num darwinismo econômico, visando o ganho material pró consumo, para, no final do processo, gerar lucro para alguns, mesmo que isso custe [e sempre custa] a total miséria de muitos.

Uma educação diferenciada do que temos visto até aqui é, portanto, algo que rompe totalmente com o sistema em vigência, que não admite mais em seus porões este réptil voraz, que se alimenta daquilo que nos afasta de nós mesmos.

Participando do VII Congresso de Logoterapia e Análise Existencial e IV Congresso Latino-Americano Humanístico-Existencial: Logoterapia, que ocorreu na cidade de Porto Alegre, neste mês de novembro, pudemos conferir os apelos dos humanistas para que, na área da educação um novo paradigma fosse instituído, como uma medida profilática, até.

Dentre vários outros conferencistas, o psicólogo colombiano Alejandro Barbieri Sabatino, foi enfático ao afirmar aos colegas de profissão: “Se nossos consultórios estão cheios de pacientes, é sinal que falhamos enquanto humanos, mas também enquanto profissionais. Precisamos fornecer às pessoas, inclusive aos docentes, meios de tomarem consciência do sentido de suas próprias vidas, para que possam alterar o dramático quadro que temos visto na atualidade”.

Concordamos com ele e, dentro desta linha de pensamento, escrevemos um artigo para este congresso, apresentando nele e também aos participantes do evento, nossos ideais e disposição de mudança, através da atuação junto a adolescentes e docentes, com dois projetos, respectivamente denominados “Pedagogia Terapêutica” [para os adolescentes] e “Terapia Pedagógica”[para educadores].

No projeto “Pedagogia Terapêutica” ou “Educação para a Vida”, visamos instrumentalizá-los [os adolescentes] para os desafios da vida, através de dez passos que contemplam questões subjetivas e objetivas, relações, construções e desconstruções, através de imputs positivos que proporcionem o despertamento desta dimensão transcendente, citada pelos educadores e psicólogos humanistas nos quais nos inspiramos: Pestalozzi, Rousseau, Comenius, Viktor Frankl e Carl Rogers.

Os mesmos pensadores nos norteiam no projeto “Terapia Pedagógica”, junto aos educadores, que, também através de dez passos, busca fornecer aos adultos meios de ressignificarem as próprias aprendizagens e vivências, dando novo sentido às suas experiências, para que consigam alterar suas ações no mundo. Isso porque temos percebido o bloqueio existente nestes educadores que, apesar de receberem informações e conhecimentos acerca destes assuntos acima descritos, além de tantos outros, não demonstram condições emocionais para romperem com os padrões previamente aprendidos na infância. Reproduzem, assim, o padrão aprendido. Nessa reprodução, se desestruturam e se frustram, chegando ao drama de desenvolverem síndrome de burnout (exaustão no ambiente de trabalho, que pode levar à depressão e à incapacitação profissional).

Estes esforços aqui relatados, que nascem do casamento entre Psicologia e Pedagogia, estão intimamente ligados à formação da Universidade Livre Pampédia, pois estão de braços dados com uma nova forma de ser e pensar a educação, a vida, o mundo, visando a autonomia, o crescimento e, por fim, a autotranscendência do Ser.

 Claudia Gelernter

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