A ciência como antídoto contra a barbárie.

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Vivemos num mundo hiperconectado, no tempo da pós-verdade, no qual a história e outras ciências são questionadas e tratadas como pontos de vista apenas, onde as narrativas e a propaganda são mais relevantes na formação da visão de mundo das pessoas do que a criticidade e o método. Nesse contexto, a barbárie avança e segue desmontando os marcos civilizatórios que haviam sido o resultado do esforço de gerações. Como podemos parar esse processo de destruição e recuperar os valores humanos que herdamos dos nossos antepassados, aliando a isso a crítica necessária para avançarmos para o futuro? A resposta é mais simples do que se imagina – precisamos estimular a curiosidade humana!

Para entendermos como a curiosidade humana é poderosa vou aqui descrever o caso do show Finding Your Roots (encontrando suas raizes). Há 5 anos, o canal de TV educativo norte americano PBS apresenta esse programa que se dedica a desenhar a árvore genealógica de pessoas famosas. Além da pesquisa de registros históricos em cartórios e páginas de jornais nos Estados Unidos e ao redor do mundo, o convidado faz um mapeamento genético que é comparado com os dados de mapeamentos genéticos feitos em diferentes países. As duas investigações somadas desenham um quadro bastante rico e revelador (muitas vezes surpreendente).

Na última temporada, o programa promoveu um acampamento de férias para crianças entre 10 e 13 anos de idade. O objetivo do acampamento era conduzir as crianças pelo mesmo processo que os convidados do programa experimentam, mas não de forma passiva. Ao longo dos dias em que ficaram juntas elas aprenderam a separar o material genético de diferentes células, criaram hipóteses e fizeram experimentos sobre as variações características da evolução das espécies, se debruçaram sobre documentos históricos e desenharam suas próprias árvores genealógicas. Por fim, seus mapeamentos genéticos mostraram a diversidade de povos e lugares que somados resultaram na existência delas.

 

 

Os trabalhos do acampamento foram conduzidos a partir de duas premissas. A primeira é que a maior das curiosidades de uma criança é sobre ela mesma, portanto estudar suas próprias células e sua própria história seriam estímulos irresistíveis. A segunda premissa é que a curiosidade é o motor da ciência, e que portanto a formulação e o teste de hipóteses (alimentados nesse caso pela autodescoberta), seriam o caminho natural das atividades propostas. Nos depoimentos dos educadores que desenharam o acampamento, fica claro que o método científico não deveria ser algo dado, mas sim inferido a partir do motor da curiosidade (o vídeo acima tem todos os mini episódios).

Por fim, as crianças apresentaram para seus pais e cuidadores suas descobertas. Além de terem aprendido muito sobre suas heranças e suas conexões com diversos lugares do planeta, desmontaram preconceitos como a ideia de raça. Mais ainda, compreenderam a profunda ligação dos seres humanos com os ciclos e processos da natureza. Compreenderam a importância do questionamento, da hipótese, da investigação. Se sentiram como cientistas navegando pela aventura da construção do conhecimento.

No mesmo planeta em que pessoas se reunem para defenderem teorias como a Terra plana, o criacionismo contrário ao evolucionismo, o marxismo cultural, a superioridade racial, entre outras ideias irracionais, temos iniciativas como essa do acampamento. Temos tecnologia para fazer uma revolução na educação. Podemos, se assim quisermos, começar um mundo novo onde todos serão cientistas, terão uma visão crítica da realidade, e se sentirão agentes da transformação. Só assim o futuro e a utopia poderão existir.

 

Para mais informações sobre o projeto do acampamento Finding Your Roots – https://www.pbslearningmedia.org/collection/finding-your-roots-the-seedlings/#.We-UEGhSyUk

4 respostas para ‘A ciência como antídoto contra a barbárie.

  1. Bom artigo. A curiosidade incentiva o método científico. Congratulações. Todavia a família do sangue é uma intersecção da família espiritual (universal). Somos espiritualistas. Abraços. Euler Neiva.

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