Como a metáfora determina nossa compreensão do mundo

rene690

Numa recente entrevista, a comediante, atriz, roteirista, produtora e uma das figuras mais talentosas da indústria do entretenimento – Tina Fey – relatou uma história interessante sobre a incompreensão de um texto de humor. Ela foi a primeira mulher a escrever roteiros para o SNL (Saturday Night Live), um dos mais importantes e longevos programas de humor da TV norte-americana. Quando ela foi contratada, a sala dos roteiristas era um ambiente totalmente masculino.

Nessa sala, todos os escritores apresentavam ideias e votavam nas melhores até fecharem o roteiro final para o programa da semana. Uma outra roteirista apresentou uma paródia de comerciais que (naquela época) trabalhavam a ideia de um saudosismo de tempos mais simples, oferecendo produtos como Coca-Cola Clássica, Nike Clássico, etc. A piada apresentada era um Absorvente Feminino Clássico, que parecia um tijolo e não absorvia nada, mas que seria vendido no comercial como um produto nostálgico. Na votação, esse roteiro foi descartado pela grande maioria dos homens da sala. Eles simplesmente não acharam a piada engraçada. Tina Fey brigou para que a piada fosse incluída no programa e ganhou a briga.

Esse exemplo ilustra a importância da linguagem em nossa formação e consequentemente, em nossa percepção da realidade. Num ambiente só de homens não se costuma falar de absorvente feminino, menstruação, gravidez, ou se esses assuntos são temas de conversas, o ponto de vista é tendencioso. Dizer, por exemplo, que quando a mulher está no período menstrual, ela está “bloqueada” é uma metáfora. Essa associação entre a indisponibilidade para o sexo e o período menstrual é uma leitura masculina da realidade. Num ambiente majoritariamente masculino essa metáfora é hegemônica e por isso passa a ser a verdade absoluta. Qualquer outra narrativa que questione essa metáfora será descreditada, a não ser que exista um equilíbrio na representatividade de diferentes pontos de vista neste dado ambiente (não apenas numérica, mas com o mesmo grau de liberdade de expressão, de respeito, etc).

A colunista Martá Rebón que escreve para o jornal El Pais, falando sobre a influência da metáfora na construção da nossa percepção da realidade, cita um estudo de pesquisadores da Universidade de Stanford sobre políticas contra a criminalidade. Quando o assunto era comparado a um predador que devora a sociedade, a tendência da opinião pública era apoiar leis mais severas. Quando a metáfora era associar a criminalidade a um vírus que infectava a cidade, a soluções eram mais educação e mais combate à desigualdade.

O escritor James Geary, nessa palestra (abaixo) fala sobre como pensar em metáforas é essencial para entendermos nós mesmos, os outros, a forma como nos comunicamos, aprendemos, descobrimos e inventamos.

Um dos exemplos que ele dá sobre como o uso de metáforas determina nossa leitura do mundo, são as manchetes sobre o mercado financeiro. Quando o valor de determinadas ações aumentam, a tendência do noticiário é associar essa alta a um movimento de subida ou escalada. Esses movimentos (de subir ou escalar) são geralmente atribuídos a seres vivos, e isso tem implicações na forma como vemos o mercado. Ações que sobem estão “vivas”, e além disso tendem a continuar escalando, já que existe uma associação implícita entre vida e movimento. Quando as ações perdem valor elas afundam como pedras ou caem como tijolos (sink like a rock, fall like a brick, na expressão inglesa), associando o movimento a um objeto sem vida.

O professor Steven Pinker, que estuda a mente e a linguagem humana, nos fala nessa palestra (abaixo) sobre como as palavras que escolhemos comunicam muito mais do que o significado essencial das palavras. Ele explica tecnicamente como todas as línguas se estruturam em metáforas para expandir suas possibilidades da comunicação. Um exemplo disso é o uso da palavra “força” (que em seu sentido original significa a relação entre massa e movimento). No significado original podemos dizer que “ele forçou a porta”, mas usando o uso metafórico podemos dizer que “ele forçou sua mãe a deixar o emprego”, ou ainda que “ele se forçou a ir na festa”.

Esse uso duplo (literal e não literal) abre a possibilidade de empilharmos camadas de significados que não são óbvias. Podemos assim falar a mesma coisa de formas diferentes, mas formas diferentes de dizer tem implicações obrigatoriamente diferentes, ainda que falem basicamente a mesma coisa. Pinkler exemplifica essa diferença emparelhando frases como “interrompendo a gravidez” e “matando um feto”, ou “invadindo o Iraque” e “libertando o Iraque”, ou ainda “redistribuindo a riqueza” e “confiscando ganhos”.

As metáforas são parte essencial das línguas e portanto são as peças que usamos para nos expressar, pensar, construir argumentos. Elas podem ser usadas de forma automática ou propositada, assim como podem ser recebidas com ou sem consciência. Nesse mundo saturado de comunicação instantânea sem fronteiras, as metáforas de um grupo serão recebidas e provavelmente mal interpretadas por outros grupos. Pessoas com pouca ou nenhuma familiaridade com os mecanismos da língua (ou das línguas), terão menos condições de entender as camadas de significado menos óbvias dessa comunicação. A educação que se pretende libertadora precisa ser um mergulho nas estruturas de diversas formas de expressão, e claramente estamos longe disso na realidade das salas de aula pelo mundo.

Uma resposta para “Como a metáfora determina nossa compreensão do mundo

  1. Fantástico o texto!! Ainda não conseguimos perceber o quão somos responsáveis por aquilo que falamos ou escrevemos. Repensar o uso das palavras que usávamos há algum tempo e atentar p. Sua repercussão no discurso nosso do dia a dia é urgente e mais que necessário à nossa evolução. Parabéns, era tudo o que eu queria ler nesse exato momento!

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