Infância – sabedoria ou desrespeito?

Essa é uma discussão que sempre retorna. A índole inata dos seres humanos é tema constante de debates ao longo da história humana. De Thomas Hobbes a Jean Jacques Rousseau, que tinham visões opostas sobre a natureza humana, até diferentes interpretações do cristianismo, que ora colocam as crianças como herdeiras imediatas do reino dos céus e ora identificam nelas a marca nefasta do pecado original; a balança pende de um lado para o outro. Mas para além dos argumentos filosóficos e teológicos pendulares, no mundo concreto das relações cotidianas, a balança tende para uma leitura negativa do comportamento do outro, por que nossa leitura do mundo é embalada por uma cultura que reforça a competição, enaltece o individualismo e justifica as diferenças.

krampus-mainNessa cultura, alguns conceitos são tão arraigados, que mesmo quando já temos consciência de que a realidade é mais ampla e complexa, nos pegamos repetindo frases, reagindo emocionalmente e no fim reforçamos aquilo mesmo que nossa razão nega. A incoerência emerge no dia a dia, nos momentos em que a prática engole a teoria, e por isso é preciso repetir e repetir, afinal um novo comportamento não se solidifica sem insistência, e isso significa um certo desconforto.

Alguns dos mecanismos que usamos na tentativa de justificar nossa resposta emocional nos levam a criar conceitos falsos. Um exemplo clássico desse mecanismo é a ideia de RESPEITO que ensinamos para as crianças. É muito comum ouvir pais dizendo para seus filhos – “Eu exijo respeito! Eu sou seu pai!”. Outra variação desse mesmo raciocínio é a ideia/certeza de que os alunos da nova geração não respeitam os professores. Em geral, essas duas afirmações se ancoram na comparação. Olhamos para as gerações passadas e enxergamos um professor respeitado pelos alunos e um filho obediente e submisso.

É preciso dissecar um pouco todos esses elementos para se encontrar a essência. Se buscamos RESPEITO dentro de uma relação de poder, como no caso do pai em relação ao filho, ou do professor em relação ao aluno, do adulto perante a criança, do forte diante do fraco, daquele que sabe ante aquele que não sabe, estamos trilhando o caminho da imposição. A relação entre as partes já é desigual. A imposição, seja social como no caso dos professores e pais de outrora, seja pela força como no caso daquele que exije ser respeitado, vai contra o conceito de RESPEITO, criando assim uma incoerência. Imposição social ou violência geram MEDO. Podemos até confundir MEDO com RESPEITO a ponto de muitos acreditarem que são a mesma coisa. Mas o fato é que não são.

RESPEITO é apreço, consideração, deferência. É um sentimento que inspira e pode levar a parceria e cooperação, em oposição ao MEDO que leva o outro a se submeter contra a própria vontade. Esse sentimento nos impede de ter atitudes desumanas em relação ao outro, mas para ser objeto desse RESPEITO é preciso também tê-lo em relação aos outros. Para receber respeito é preciso saber respeitar.

No vídeo abaixo vemos o menino jogar sem julgar. Ainda não é apreço, consideração ou deferência pelo outro com quem ele interage, mas só pela ausência da comparação paralisante que nós adultos já temos encerrada em nossas emoções, a criança nos ensina  sobre o que é, ou o que pode ser o RESPEITO. Por não ter medo do outro o menino, o vê como um igual, coopera com ele porque entende o trabalho como uma atividade lúdica. A inocência da infância ainda não é sabedoria, mas seu olhar sem filtros é a porta de um mundo mais humano. A balança que oscila entre o bem e o mal é mais um desses conceitos arraigados que usamos para simplificar a explicação sobre nossas vidas. A infância é sim o espaço das possibilidades.

 

Mauricio Zanolini

 

2 thoughts on “Infância – sabedoria ou desrespeito?

  1. Otimo texto ! Tudo o q. gera medo é repressão .Nascemos livres , até q. num determinado momento começamos a perder nossa inocencia e liberdade. Aqueles adultos q. eram protetores e bonzinhos vão se tornando severos , nos impondo regras e moral e assim vamos sentindo o peso de viver num mundo q. dita como devemos ser, se comportar , enfim a nossa criança feliz começa a morrer …

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