Conflito entre liberdade de expressão e humor- o que é corrupção e o que é honestidade?

LaughterO humor pode nos ajudar a enfrentar situações desconfortáveis e até dores profundas porque ele nos proporciona alívio. Fazer humor (ou ter senso de humor) é uma habilidade social desejada e reconhecida exatamente por esse motivo. Mas para além do senso comum e dos modelos de humor que reproduzimos, o que exatamente faz algo ser engraçado?

Essa é a pergunta respondida pelo professor Peter McGraw, da Universidade do Colorado nos Estados Unidos. Ele partiu de um estudo com ratos de laboratório. A presença da mão do pesquisador dentro da gaiola das cobaias disparava um sentimento de medo nos ratos (que assim como a raiva, são sentimentos que ratos e humanos tem em comum). Com o tempo a mão do pesquisador que “brincava” e fazia “cócegas” nas cobaias deixou de ser considerada uma ameaça e passou a ser reconhecida com algo desejável. O som que os ratos emitiam ao “brincarem” com o pesquisador, perseguindo sua mão, expressava o prazer que eles sentiam ao mesmo tempo que comunicava para os outros ratos que aquela situação potencialmente perigosa era de fato segura. Os sons eram risadas.

A conclusão da análise de McGraw é que o que nós reconhecemos como humor (que nos faz rir) é um equilíbrio delicado. É uma subversão de algo que consideramos como sério (ou entediante, ou imposto, ou ameaçador), mas ao mesmo tempo não é algo que entendemos como ofensivo (ou perigoso, degradante, invasivo).

Pensando nesse conceito podemos olhar para o debate que temos há alguns anos sobre como o “politicamente correto” tem matado o humor (ou a possibilidade de se fazer humor). Quem entende assim considera o “politicamente correto” como uma imposição moral, uma seriedade entediante, uma ameaça até, e que a função do humor seria subverter isso. Quem defende o “politicamente correto”, entende que isso é uma regra de convivência em um ambiente diverso, onde diferentes pessoas com diferencias vivências e experiências precisam ser consideradas para que nenhuma delas se sinta invadida, degradada ou ameaçada.

Mas existe um outro lado nessa análise do humor. Em uma entrevista para o jornal O Pasquim, o escritor português José Saramago disse que o humor político, indispensável para testar os limites da liberdade sob governos autoritários por exemplo, era, apesar disso, uma tática insuficiente de contestação do poder. Para ele, o riso que busca ridicularizar os detentores do poder acaba por tornar o inimigo tolerável. Como uma tentativa de desconstruir a autoridade do governante, a ridicularização pode causar empatia com aquele que é alvo da piada (pelo menos aos olhos de uma parte do público). De novo existe na mecânica do humor uma linha tênue entre o que degrada e objetifica o outro e o que ilumina seus erros e contradições (como no caso abaixo).

Em geral, diante de qualquer questionamento sobre comentários entendidos como degradação, ameaça ou objetificação feitos por um humorista, ou feitos com a intenção de ser engraçado (é só uma brincadeirinha…), levanta-se a bandeira da liberdade de expressão. As tentativas de coibir ou punir tais comentário são entendidas como censura, como uma afronta ao direito de se dizer o que pensa. Mas precisamos entender se essa ameaça (de censura) é algo real ou apenas uma falácia.

Dizer o que se pensa não é obrigatoriamente dizer a verdade. Apesar da franqueza ser percebida pelo senso comum como um sinal de honestidade, expressar de forma franca suas opiniões não fazem delas algo honesto no sentido de correto ou justo (e tem que ser justo para todos porque se for só para alguns não é de fato justo). Um humorista que ao invés de subverter um determinado assunto, diminui ou rotula alguém (dando o nome, expondo a foto, etc), é um humorista medíocre, que não se esforça em criar um material humorístico que tenha alguma qualidade.

É compreensível que os humoristas queiram subverter o “politicamente correto” já que, quanto mais diverso é o público alcançado (e hoje a internet atinge uma infinidade de públicos), mais contradições e incoerências vão existir. Mas qualquer simplificação que fale apenas com uma parcela do público, que exponha nominalmente pessoas, que ilumine não as contradições humanas, mas sim a figura do próprio humorista, não é humor. É sadismo, crueldade, doença mental, que ressoa com uma platéia que sofre dos mesmos distúrbio e se identifica.

Não é possível tolerar a intolerância (legitimando um discurso excludente) com a intenção de que todos devem ter voz. Censurar isso é combater um discurso corrompido e que corrompe. O desequilíbrio do xingamento como expressão de uma opinião pode ser uma forma de liberar sentimentos (o que traz alívio para que assim se expressa), mas ao mesmo tempo acirra ódios, contamina, degrada o outro. Esse tipo de humor não constrói nem ilustra nada.

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