Jesus, a história, o mito e a mensagem

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Imagem recebida mediunicamente no Congresso de Metapsíquica de 1923, na Polônia.

Jesus é um tema acadêmico, que cabe discutir numa Universidade Livre, como a nossa? Em que sentido, de que maneira?

Há tantas abordagens possíveis dessa personalidade que mudou o mundo, e ainda exerce influência em nossa cultura e em nossos corações, que cabem aqui algumas reflexões embora rápidas, na semana de Natal.

Pesquisas contemporâneas não têm dúvida da existência histórica de Jesus, pela multiplicidade de fontes independentes que falam de sua vida, incluindo não-cristãos, como o historiador judeu Flávio Josefo.

As investigações históricas, porém, despojam-no de todo o aparato mítico, porque hoje se sabe que os Evangelhos só foram escritos muitas décadas depois de sua morte e não são de autoria de nenhum daqueles primeiros discípulos que conviveram com ele. Todos os Evangelhos foram escritos em grego e os primeiros seguidores, em sua maioria, não falavam grego e nem escrever sabiam. Na verdade, os textos mais antigos do Novo Testamento são as cartas de Paulo de Tarso, que datam da década de 50 e 60 depois de Cristo. Por isso, não é exagero afirmar que a primeira interpretação e versão da mensagem de Jesus passou pela percepção de Paulo. Este teve suas virtudes, como a de propagar a Boa Nova além das fronteiras judaicas, endereçando-a a todos os chamados gentios, mas também teve sua maneira de filtrar esses ensinos, a partir de seu contexto cultural, de sua formação, de sua personalidade forte, combativa, às vezes agressiva, e podemos quase dizer que foi ele que fundou essa nova religião, que iria mudar o mundo, inspirada na vida e na mensagem de Jesus.

Esse despojar a personalidade de Jesus dos aparatos míticos, como a virgindade de Maria, a concepção do Espírito Santo, o nascimento miraculoso etc, passa por uma análise criteriosa da mitologia da época, encontrando-se vários paralelos em outras culturas, de mitificações semelhantes.

As pesquisas em centenas de manuscritos antigos, mas nenhum da época de Jesus (sempre posteriores a seu nascimento pelo menos 150 anos) nos revelam que há muitas contradições nas narrativas de que dispomos. Bart Ehrman (da Universidade da Carolina do Norte, EUA), um dos maiores e mais minuciosos pesquisadores do assunto (e para ser um pesquisador de fato nessa área, é preciso saber pelo menos umas três ou quatro línguas mortas, como grego antigo, aramaico, coopta e latim) tem livros interessantíssimos, mostrando como os escritos sobre Jesus, incluindo os quatro Evangelhos, aceitos pela tradição das Igrejas cristãs, são na verdade interpretações sobre a mensagem e a personalidade de Jesus. Essas interpretações representam as diferentes correntes do cristianismo primitivo, que estava muito longe da unidade, que depois a Igreja Católica tentaria formatar a ferro e fogo.

O processo de catolicização do cristianismo (ou seja, o caminho para a fixação dos dogmas que até hoje compõem a ortodoxia da Igreja – e que as Igrejas protestantes herdaram em suas grandes linhas), demorou pelo menos 4 séculos para se firmar. Nesse desenrolar histórico, hoje sabemos detalhadamente como se deu o processo de divinização de Jesus.

Dois livros brilhantes e de sérios pesquisadores, um do mesmo Bart Ehrman, Como Jesus se tornou Deus e outro de Richard Rubinstein, Quando Jesus se tornou Deus, descrevem detalhadamente essa história, mostrando como o dogma da trindade foi construído de forma coercitiva e violenta, expulsando e eliminando posições contrárias, que eram muitas, aliás.

A divinização do Cristo levou a figura de Jesus durante todos esses séculos para longe da Filosofia, da Ciência, da História, porque ficou enclausurada no dogmatismo religioso. Houve, porém, autores, primeiro no Renascimento, com Erasmo, Thomas Morus, e depois, a partir do Iluminismo, que tomaram Jesus, como figura inspiradora de uma Ética Universal e Mestre de uma educação para o pleno desenvolvimento do ser humano. Estão entre esses, Comenius, no Renascimento; Rousseau, no Iluminismo, e Pestalozzi, na transição do Iluminismo para o Romantismo.

Como herdeiro dessa tradição, no século XIX, Kardec fará uma interpretação de Jesus, muito diferenciada, criticando o processo de divinização (embora esse texto seu só apareça em Obras Póstumas, intitulado Estudo sobre a natureza do Cristo, demonstra que ele já conhecia na época algo do que hoje é descrito nos livros acima mencionados, do processo de divinização de Jesus, da corrente de Arius, do Concílio de Niceia etc.). Ao mesmo tempo, Kardec não incorre no engano de banalizar a figura de Jesus, como fez seu contemporâneo Ernest Renan, ou como fariam alguns autores atuais, a exemplo de Nikos Kazantzakis, na Última tentação de Cristo. Ou seja, Kardec descontrói o dogma da divindade (no século XX também desconstruído por Erich Fromm, em O Dogma de Cristo), mas conserva a percepção da superioridade de Jesus.

O que a partir de Rousseau, vinha sendo feito, e foi belamente exposto por Kardec no Evangelho segundo o Espiritismo, é centralizar a mensagem de Jesus em sua Ética, que é o que nos importa até hoje. Se tivéssemos seguido seus ensinos de amor e fraternidade, de compaixão e bondade, o Ocidente hoje teria outra forma de Civilização, muito mais centrada no ser humano, muito menos predatória, exploradora e agressiva dos seres vivos, incluindo as criaturas humanas. Pertencemos, porém, a uma cultura de herança cristã, que se proclama herdeira desse mestre, a ponto de convencionar a divisão do tempo entre Antes de Cristo e Depois de Cristo, mas que pratica muito pouco a essência de sua mensagem, a verdade profunda de seus ensinos.

É lamentável, por exemplo, que um intelectual do porte de Bart Ehrman, debruçando-se cientificamente sobre as fontes do Novo Testamento, tenha conseguido sair do fundamentalismo da ortodoxia (de onde veio, como protestante radical), para um ateísmo, com o qual não é capaz de entender que o principal que Jesus quis ensinar foi um caminho de aperfeiçoamento moral da criatura humana. Ehrman considera Jesus um profeta milenarista. Isso quer dizer que, para ele, Jesus estava interessado em anunciar um Reino, que logo viria à Terra, num milagre messiânico. Não entende em Jesus um mestre de nossa história. Atribui-lhe uma ingenuidade incompatível com sua grandeza.

Um ateu mais preparado, porque mais habilitado em Filosofia (algo que sempre faz falta em autores norte-americanos), é André Comte-Sponville, que reconhece o caráter humanista, civilizatório, que a mensagem de Jesus imprimiu em nossa história. Conceitos como igualdade entre todos os seres humanos, fraternidade, direito dos mais fracos, valorização de setores marginalizados da sociedade, são heranças de Jesus.

Como se vê, há muito o que se discutir academicamente sobre ele, com os instrumentos da História, das Ciências Humanas, da Filosofia…

Mas, há que se reconhecer, com os grandes espíritos que se inspiraram nele, tais como Francisco de Assis, Gandhi, Albert Schweitzer, Teresa de Calcutá, Eurípedes Barsanulfo e tantos outros, que é preciso acima de tudo viver Jesus, com seus ensinos, com seus exemplos, com seu amor por toda a humanidade.

4 thoughts on “Jesus, a história, o mito e a mensagem

  1. Jesus , um ser humano sabio q. tentou revoluncionar a humanidade , para q. a mesma se harmonizasse com todos os seres vivos e consigo mesma de forma profunda , construindo um mundo justo e de igualdade , onde o Amor seria a base de tudo .Infelizmente foi mal interpretado + mesmo assim mtos procuraram e, procuram se beneficiar dos seus ensinamentos em beneficio proprio ate nos dias atuais.

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  2. OS MAIORES LEGADOS DE JESUS FORAM ,A COERÊNCIA ,A GENEROSIDADE E CORAGEM . COERENTE COM O QUE PREGAVA . GENEROSO AO DIVULGAR PENSAMENTOS DE FILÓSOFOS,QUE SÓ DOUTORES TINHAM ACESSO.POIS SABIA QUE O CONHECIMENTO ERA TRANSFORMADOR. EM VEZ DE JULGAR E DISCRIMINAR ,ELE EMPODERAVA O POVO EXCLUÍDO,REJEITADO,ESTIGMATIZADOS DA ÉPOCA . E. FOI CORAJOSO POR NÃO SE IMPORTAR COM O QUE A SOCIEDADE DIRIA .
    HOJE MUITOS DIZEM SER HOMENS DE BEM E DIZEM “SENHOR ,SENHOR” DA BOCA PARA FORA ,MAS POSSUEM O CORAÇÃO CHEIO DE RAPINAS . POIS É CONFORTÁVEL O TRABALHO ASSISTENCIALISTA,VERTICAL,DE CIMA PARA BAIXO QUE EXALTA O EGO E NADA MUDA EFETIVAMENTE NA VIDA DO NECESSITADO . MAS SE INDIGNAR E LUTAR CONTRA AS INJUSTIÇAS DO PODER QUE LEVAM UNS A CONDIÇÃO DE NECESSITADOS,ISSO NÃO. É MELHOR ENTREGAR ISSO NAS MÃOS DE DEUS,E FICARMOS COM ORANDO PASSIVAMENTE EM NOSSAS REUNIÕES ,AFINAL,SOMOS ESPÍRITOS ELEVADO. E QUEM ESTA EM TAL CONDIÇÃO DEVE SIMPLESMENTE A LEI DA AÇÃO E REAÇÃO. OU NÃO GOSTA DE TRABALHAR .

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