Sebastião Salgado – 500 anos em 13 minutos de entrevista

O mar de lama tóxica que destruiu uma bacia hidrográfica do tamanho de Portugal é o retrato em branco e preto mais fiel do Brasil e da sua história. O Rio Doce e todo o complexo ecossistema que inclui flora, fauna, população ribeirinha, povos indígenas e cidades, algumas históricas, vai levar 20 anos para ser recuperado. E isso é verdade tanto para o rio quanto para o país.

SS

Sebastião Salgado, fotógrafo reconhecido mundialmente, co-fundador e vice-presidente do Instituto Terra, nascido e criado à beira do Rio Doce, é um dos poucos, que consegue olhar para o problema sem filtros. Em entrevista a Milton Jung da rádio CBN, ele nos conta que tem um projeto para recuperar toda a complexidade da bacia do Rio Doce. Notem bem, nenhuma instância do governo, nem as empresas mineradoras responsáveis pela catástrofe têm a mínima ideia de por onde começar. Apenas uma organização da sociedade civil tem a experiência e metodologia e, podemos dizer, a intenção clara, para fazer isso. O plano do Instituto Terra tem 5 anos e começou a ser desenhado porque a bacia do Rio Doce estava morrendo, assim como o Rio São Francisco e outros rios importantes, por causa do desmatamento.

O fotógrafo deixa claro que, antes de qualquer coisa: é preciso fazer o saneamento básico de todas as cidades e vilarejos que despejavam seu esgoto naquele rio, já que agora não existe mais rio pra absorver tanta sujeira. Depois, é preciso reflorestar todas as áreas de nascentes que formam o Rio Doce e, finalmente, replantar as matas ciliares para que elas filtrem a água do rio que assim, aos poucos, voltará à vida.

Desde a tragédia, o Instituto Terra vem abrigando reuniões com representantes da população local desabrigada, da população ribeirinha e indígena, prefeitos das cidades afetadas, governador e representantes das empresas responsáveis, para refinar esse planejamento de longo prazo e buscar soluções emergenciais para os problemas de alojamento e desabastecimento que urgem. Mas essa postura pró ativa não é suficiente. Pelas redes sociais, o fotógrafo foi cobrado a se posicionar em relação à mineradora, já que sua ONG recebe recursos da Vale.

O governo, claramente perdido diante das dimensões continentais dos problemas brasileiros, não consegue fiscalizar, não consegue punir, não consegue regulamentar. As multas que serão aplicadas vão para os cofres públicos e servirão para pagar dívidas da União. Sebastião Salgado nos alerta – o dinheiro necessário para trazer o rio de volta à vida virá de um fundo, e os únicos envolvidos capazes de montar, alimentar e gerir esse fundo são as mineradoras. É uma questão de responsabilidade. E devolver a responsabilidade a quem a deve ter é o verdadeiro papel da justiça, e não a festa de habeas corpus preventivo e a industria das liminares que privilegiam os direitos individuais e os interesses corporativos acima do interesse coletivo.

O extrativismo é um conceito fundador da cultura brasileira e o fato dessa catástrofe ter sido protagonizada por mineradoras, apenas deixa claro que nossas heranças de 500 anos ainda estão todas latentes. O governo é tão extrativista quanto as mineradoras e todos nós somos filhos dessa cultura de improviso e escassez. O mar de lama que o Ministério Público descortina e que envolve partidos políticos, empreiteiras e figuras públicas é o espelho da tragédia de Mariana, e por mais que os sentimentos de impunidade, indignação e revolta nos tomem de assalto, precisamos ponderar, planejar e agir se quisermos reconstruir o ecossistema do Brasil, que está morrendo.

Aos responsáveis, e somos todos responsáveis, é imperativo que reconheçam seu erros e se desculpem, mas vamos precisar de todos para que juntos possamos arregaçar as mangas e reconstruir.

Mauricio Zanolini

8 thoughts on “Sebastião Salgado – 500 anos em 13 minutos de entrevista

  1. Tomara que a contribuição de Sebastião Salgado, reconhecido mundialmente por sua arte e em defesa do meio ambiente, especialmente na região do Vale do Rio Doce, seja adotada. Sugiro, para quem ainda não assistiu, o documentário “O Sal da Terra” dirigido por Win Wenders e Juliano Ribeiro Salgado.

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