Quando o trabalho vira jogo: da ferramenta ao aparelho

No livro  Filosofia da Caixa Preta, o filósofo do design e da comunicação Vilém Flusser divide nossa relação com o trabalho em três categorias de relação: com os instrumentos/ferramentas, com as máquinas e com os aparelhos.

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Instrumentos/ferramentas são prolongações do corpo. O martelo potencializa o punho alcançando mais longe e mais fundo a natureza. Nessa relação homem/instrumento o que o trabalho produz é resultado da ação do homem. Os instrumentos são substituíveis, o homem é essencial, por isso a imagem mais representativa dessa relação é a oficina do artesão: um homem cercado de ferramentas.

Máquinas são ferramentas complexas que substituem o homem, mas precisam dele para serem operadas. Nessa relação, a máquina é essencial e os homens substituíveis. O foco da produção é a quantidade e a velocidade. A imagem que ilustra essa relação é a máquina que não pára nunca, cercada por homens que a operam em turnos, até a exaustão física (revolução industrial).

O aparelho é uma máquina complexa.  Eles têm um corpo (hardware) e uma programação (software), que delimitam sua função, mas permitem que o ser humano crie. Uma máquina fotográfica, por exemplo, é uma câmera escura (hardware), com alguns controles mecânicos (hoje digitais e mecânicos), que permitem certas variações (software), e o resultado dessa relação é lúdico. O foco do aparelho não é a quantidade e a velocidade (embora essa seja a consequência como no exemplo da máquina fotográfica digital se comparada à máquina fotográfica analógica). O que caracteriza a interação aparelho/homem é a livre expressão da criatividade. A imagem que descreve essa relação é a de uma criança brincando com blocos aleatórios de montar. Os blocos são peças físicas (hardware) que seguem um determinado padrão de encaixe (software), mas o resultado produzido depende do mergulho lúdico daquele que opera o aparelho.

Para Flusser, a relação entre homem e instrumento e entre homem e máquina definem o que chamamos de trabalho. O aparelho transforma o trabalho em jogo, onde o foco não é mais o domínio da natureza ou a velocidade do resultado.  O objeto produzido só passa a ter valor se for criativo. A fotografia mais uma vez serve de exemplo: com as máquinas digitais (espalhadas por telefones, laptops e relógios), qualquer pessoa pode produzir fotos com qualidade. O “trabalho” de um fotógrafo não é produzir fotos, esse é o trabalho do aparelho. O fotógrafo cria.

Em nosso mundo, vivemos essas três relações ao mesmo tempo, mas nos aprofundamos no jogo lúdico dos aparelhos que nos cercam e que cada vez mais se interconectam por uma rede invisível de dados. É um novo Renascimento, um novo paradigma. Precisamos abrir nossos olhos e abraçar o futuro que já chegou, para que ele possa ser para todos!

Mauricio Zanolini

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