Quadrinhos – interdisciplinaridade e as possibilidades da narrativa

Comece por qualquer lugar e você vai achar uma trilha que vai te levar até as estrelas…

No dia 17 de janeiro, no Espaço Pampédia, um grupo dedicado à leitura aprofundada de histórias em quadrinhos – os Quadrinheiros – conduziu uma oficina de sete horas sobre o tema. Com foco nas histórias em quadrinhos do mercado norte-americano que trabalham a temática dos super-heróis, o grupo contextualizou o momento histórico das diferentes fases (conhecidas como Eras) pelas quais passou essa forma de narrativa, desenhando a evolução de uma linguagem barata, perseguida e censurada até a atual influência na produção cultural de massa.

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Mas por que uma oficina sobre quadrinhos num espaço que está se tornando uma Universidade Livre? Talvez você esteja se perguntando.

Uma das respostas possíveis é: por conta da interdisciplinaridade e pela possibilidade que ela nos traz de abordar múltiplos temas partindo de algo concreto, que permeou – e para alguns ainda permeia – boa parte da vida das pessoas que se interessam por quadrinhos.

A interdisciplinaridade é um dos pilares da Educação que defendemos e praticamos porque ela amplia enormemente a visão sobre qualquer tema. Observar os aspectos políticos e econômicos, como a reforma que se seguiu à crise de 1929 (New Deal), explica o Super Homem como o messias proletário que combate assaltantes de banco e os políticos corruptos em suas primeiras histórias.

O papel de baixa qualidade e a impressão colorida cheia de falhas ampliavam a sensação de submundo que as histórias retratavam. Do romantismo heroico dos anos 1930 aos heróis torturados e agonizantes dos anos 1980, o uso político (perseguição aos comunistas dos anos 1950) e a efervescência social das duas décadas seguintes, as histórias em quadrinhos dialogaram com o mundo, por vezes de forma velada e em outras abertamente, servindo de espelho para as mudanças da sociedade e de voz solitária de vanguarda.

Uma linguagem que integra imagem e texto, com uma forma de leitura muito particular, permite a apreensão da passagem do tempo que quebra a linearidade da narrativa – afinal, abrir uma página de quadrinhos é olhar para o passado (o primeiro quadro da página), o presente (qualquer um dos quadros que seja o foco dos olhos naquele momento), e o futuro (o último quadro da página), ao mesmo tempo. Isso não é possível em outras linguagens como o cinema e literatura, por exemplo.

A interdisciplinaridade faz com que qualquer ponto de partida escale ao infinito. A educação que tem como bandeira a interdisciplinaridade não precisa de seriação, currículo padrão, livros didáticos, carteiras, lousa, lição de casa. Ela precisa de um educador tão curioso quanto seus jovens pupilos, disposto a navegar pelas possibilidades de narrativa que vão se apresentando a ele no caminho. O educador não precisa de um GPS, de um mapa detalhado e um único plano de ação. Ele precisa confiar em sua bússola interna.

Mauricio Zanolini

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