Qual a importância da arte no Brasil em colapso?

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Imagem de Cacá Bernardes/Divulgação

A primeira coisa que podemos dizer, em resposta à pergunta formulada, é que nosso país está em colapso por falta de arte, isto é, por falta de sensibilidade. Ao contrário dos artistas, que se tensionam, se recriam, se educam, que conhecem o poder da palavra e a usam com tanto cuidado, que sentem o corpo de modo visceral e vivem a bela dialética entre corpo e espírito, as classes que dirigem o país estão embotadas na imaginação estreita, colocam carros na sala de estar e precisam contratar a Ivete Sangalo para fazer um show para comprovar que (eles) amam suas mulheres. 

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O empresário Eike Batista em sua casa. Ao fundo, a Lamborghini ‘decorativa’

 Os artistas brasileiros amam a arte, sacrificam-se por ela, enquanto nossas elites políticas e econômicas não defendem – e até mesmo desprezam – um projeto democrático e igualitário de país. Pelo aguçamento da sensibilidade, nossos artistas abraçam a empatia e a perspectiva dos excluídos, dos explorados e subalternos dos direitos, da economia, da história. Resgatam, por exemplo, a história das grandes mulheres apagadas pela memória brasileira, como fizeram lindamente na peça Matriarcado de Pindorama, que não está mais em cartaz.

Também movidos pela profunda identificação humana com o outro, a Cia. Livre e a Cia Oito Nova Dança trazem a perspectiva das lutas dos povos ameríndios no Brasil contemporâneo na peça Os Um E Os Outros. O retrato é feito com tão profundos respeito e reverência que sentimos, no fim das contas, que o outro já não é tão outro assim. Que o outro é um tanto eu, um tanto nós. E isso é especialmente verdade em nosso país, no qual muitos de nós possuem mulheres indígenas em sua ancestralidade, raízes manchadas pelo estupro e a subjugação.

Em Os Um e os Outros sentimos novamente, pensamos novamente, vivemos novamente essa mesma vida histórica do Brasil no século XXI, mas como arte, com o olhar de estranhamento, de contemplação necessária para captar a verdade das coisas. Como aprendi com a dramaturga Viviane Dias, o teatro surge dos rituais religiosos de tempos imemoriais, e, passando por Os Um E Os Outros, como passei pelo Matriarcado de Pindorama, senti a potência dos rituais para reafirmar as verdades mais profundas da existência que movem todos aqueles que lutam pela transformação da cultura necrófila e individualista que está destruindo o planeta Terra e impedindo a vida de seus múltiplos habitantes.

Explicando Os Um e os Outros, conta a diretora Cibele Forjaz: “Percorrendo a estrutura da peça de Bertolt Brecht, propusemos uma justaposição da luta entre “Horácios” e “Curiáceos” e as múltiplas formas de resistência dos povos indígenas no Brasil contemporâneo: tanto em camada documental, através de depoimentos e registros realizados em uma viagem à região do Rio Xingu, quanto pela transposição dessas estratégias para o corpo dos intérpretes”.

Também nós, espectadores, sentimos no corpo: A humanidade dos artistas que falam sobre si mesmos e sobre sua condição num país que os considera indesejáveis como uma doença, a força da ironia dizendo sobre a raiva que a injustiça produz em nós, os cânticos que, como deuses, enaltecem e alimentam o trabalho árduo de buscar caminhos de existir e resistir nesse tempo histórico de homogeneização e exclusão, e, para mim, o mais comovente de tudo, a palavra e o coro do povo Guarani M’Bya, representando a verdade dos povos indígenas, do outro, da beleza da alteridade, da interdependência e da coletividade. Nosso país está colapsando justamente por ignorar esses valores.

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Imagem de Cacá Bernardes/Divulgação

Conheça o espetáculo:

 Os Um E Os Outros

COM CIA. LIVRE E CIA. OITO NOVA DANÇA

De 5 a 22 de Setembro de 2019

De quinta a sábado, 21h

Domingos e Feriados, 18h

SESC POMPEIA – São Paulo/SP

 

Ficha Técnica: 

Livre recriação de “Os Horácios e Curiácios”, de Bertolt Brecht

Cocriação da Cia. Livre e da Cia. Oito Nova Dança

Jogadorxs: Adriano Salhab, Cibele Forjaz, Fernanda Haucke, Fredy Allan, Gisele Calazans, Lu Favoreto, Lucia Romano, Marcos Damigo, Roberto Alencar e Vanessa Medeiros

Contraregra em cena: Jack Santos

Músicos em cena: Gabriel Máximo e Ivan Garro

Composições de trilha original, direção musical e arranjos: Adriano Salhab e Guilherme Calzavara

Desenho de som e sonoplastia: Ivan Garro

Direção de arte: Cla Mor, Marília de Oliveira Cavalheiro e Valentina Soares

Arquitetura cênica e objetos: Marília de Oliveira Cavalheiro

Figurino e objetos: Valentina Soares

Vídeo: Annick Matalon, Cla Mor, Fábio Riff, Lucas Brandão e Mariana Caldas

Operação de vídeo: Cla Mor

Câmera em cena: Annick Matalon

Vídeo mapping: Fábio Riff e Mariana Caldas | Vapor 324

Luz: Cibele Forjaz e Matheus Brant

Operação de luz: Matheus Brant e Nara Zocher

Identidade visual e projeto gráfico: Julia Valiengo

Assistência de direção: Gabriel Máximo e Jack Santos

Preparação e direção vocal: Lucia Gayotto

Preparação corporal e direção de movimento: Lu Favoreto

Assessoria de imprensa: Márcia Marques | Canal Aberto

Produção: Iza Marie Miceli e Bia Fonseca | Nós 2 Produtoras Associadas

Direção geral e encenação: Cibele Forjaz

Coro convidado do povo Guarani M’Bya [em revezamento]: Jerá Poty Miri, Jerá Guarani, Tatarndy Germano, Karai Negão, Karai Tiago, Poty Priscila e Karai Tataendy Ricardo

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