O extermínio da juventude e fim do debate

09dez2014---uma-policial-caminha-entre-cruzes-plantadas-pela-ong-rio-de-paz-na-praia-de-copacabana-na-memoria-de-policiais-mortos-no-rio-de-janeiro-1418136437124_615x300Para um país que sempre se cantou pelos quatro cantos do mundo como hospitaleiro, de povo alegre, gente de bem, a reportagem do Portal UOL (de 05 de JAN de 2018)*, é um choque de realidade!Os autores da reportagem (Carlos Madeiro, Carolina Farias e Larissa Baroni que contaram com apoio do Portal UOL em suas pesquisas), levantaram dados das mortes de jovens entre 1996 e 2015. Constataram que morreram cerca de 2,7 milhões de pessoas antes de completarem 40 anos de vida, sendo que deste total 750 mil devido a agressões e 382 mil em acidentes de trânsito. Em 20 anos são aproximadamente 1,1 milhão de jovens mortos em circunstâncias, com grande certeza, evitáveis.

Em tempo de debates sobre flexibilizar ou não o acesso à armas de fogo para cidadãos comuns, discussão sobre a maioridade penal, o sistema carcerário e outras coisas, vale recorrer à imagem dos icebergs, que analogicamente ilustram os problemas dessas pretensas polêmicas. A flutuação do iceberg mostra acima da superfície da água uma pequena parte de sua massa, e somente descendo nas águas profundas que é possível ter noção exata da dimensão desses assombros da natureza.

Percepções são leituras da realidade que podem ser prejudicadas pela falta de informações sobre o assunto, pelo viés cultural de quem faz a analisa e até por variáveis ligadas à saúde mental e física desses indivíduos, seus interesses  financeiros. Na maioria das vezes, tanto indivíduos quanto instituições apenas se atêm ao que está acima da superfície.

Ler a realidade é questão básica para a elaboração de políticas públicas. Se de um lado o tema do que é real é uma das investigações mais complexas e controversas da filosofia, de outro a vida cotidiana nos traz certezas com as quais temos que lidar. O desafio é equilibrar direitos e deveres do indivíduo/cidadão e do Estado, ciente de que as regras que criamos hoje, considerando as condições de vida de uma comunidade, cidade e país, vão se alterar com o passar do tempo e as medidas que faziam efeito vão ficar ultrapassadas.

Pois bem, se em 20 anos tivemos a morte de 1,1 milhão de jovens (média de 152 pessoas por dia) em acidentes de carro e mortes por agressão, há um grave problema de política pública mal conduzida. Jovens plenos de suas capacidades estão simplesmente desaparecendo dia a dia, com impactos sociológicos muito além das estatísticas e impactos pessoais irreparáveis à comunidades de pessoas do entorno imediato desses mortos.

Se é preciso sair da superfície e se aprofundar nos assuntos que nos cercam, é necessário pensar em como nos tornamos seres ativos em uma sociedade, o que nos leva inevitavelmente ao campo da educação.

O modelo educacional brasileiro está capenga. O ensino público está sucateado em instalações, equipamentos e formação e valorização dos professores. Já o ensino particular atende duas linhas distintas. A primeira, que é uma opção possível só para a parte da sociedade brasileira que entende as deficiências do atual sistema educacional público e busca oferecer aos filhos uma melhor formação, porém entende que os diferenciais são poucos, mais ligados à estrutura da escola e certa formação e, principalmente, controle dos professores. A segunda linha é o ensino destinado a uma pequena parcela da sociedade, elitista e de alto custo, inclusive com escolas que são opostas ao modelo tecnicista e utilitário vigentes majoritariamente no país.

Não é à toa que temos um país desigual, onde as variáveis de realidade das classes mais abastadas são profundamente diferentes das menos favorecidas, inclusive com total desconhecimento ou empatia dos mais abastados em relação ao modo possível de viver dos desfavorecidos. Nossa sociedade não está coesa, há um abismo entre as pessoas e a visão de harmonia entre os cidadãos rumo ao desenvolvimento mútuo está caolha.

Não temos políticas públicas que busquem melhorar a vida de todos, nem educação que amplie a visão de mundo das pessoas para além da visão definida pelo sua condição econômica. Isso transforma o ser humano em uma mera ferramenta ou, pior, uma mera engrenagem do sistema econômico que gere o mundo.

Voltando ao problema das incompreensíveis 1,1 milhão de mortes evitáveis, será que não vale a pena, frente a essa realidade que não pode ser relativizada, uma reflexão de todos nós do que queremos de nossa vida, de nosso futuro, das condições de vida que queremos dar aos nossos filhos? Será que esses sinais de doença de nossa sociedade não são suficientes para entendermos que há algo de muito errado conosco, como indivíduos e como sociedade?

Educação para formar pessoas melhores e mais conscientes, sem sombra de dúvida, levará a debates para além das percepções e achismos que temos hoje. Só isso nos dará políticas públicas que congreguem o que há de melhor para todos nós e não essa série de decisões avoadas, apressadas e viesadas por interesses, que não alcançam o bem de todos e que tem nos castigado por longo tempo.

Alexandre Mota

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