Utopias – como fazer a meritocracia ser algo real

 

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A doutora em política Frances Ryan, colunista do jornal The Guardian, acredita que no mundo de hoje já está claro que a meritocracia é um mito. Mas ela entende que essa clareza escancarada pelos fatos, não anda de mãos dadas com a percepção que as pessoas têm sobre o tema. A idéia de que algumas pessoas naturalmente nasceram para ter sucesso, enquanto outras são inevitavelmente destinadas à pobreza, ainda persiste e serve como um poderoso mecanismo para desencorajar ações que possam nivelar as oportunidades. 

O ponto principal para Frances é que a percepção das pessoas é individualista, mas o valor que o indivíduo dá às oportunidades que tem na vida não consegue ir além da escolha que todos nós como sociedade fazemos sobre as estruturas que nos oferecem essas oportunidades (como o sistema educacional, por exemplo). Para ela não se trata de uma questão ideológica (esquerda X direita), mas sim do entendimento comum de como as oportunidades e recompensas deveriam funcionar quando buscamos uma maneira melhor de organizar a sociedade.

Se no Reino Unido as habilidades de leitura das crianças pobres estão quase três anos atrasadas se comparadas às habilidades das crianças ricas, e se os alunos de escolas privadas têm chances duas vezes e meia maiores de entrar em uma universidade de ponta do que os adolescentes da escola pública, existe aí um problema básico de justiça. Um sistema que agrupa de um lado alunos pobres e de outro alunos ricos já indica sua limitação.

Essa limitação / segregação imposta pela forma como organizamos a sociedade alimenta sentimentos que nos levam a querer dar para a nossa família alguma vantagem. Seja comprando uma educação melhor para nossos filhos, ou não votando por mais habitação social se não precisarmos nós mesmos disso. Mas, como sociedade, depende de nós decidir o equilíbrio entre esse impulso de autoproteção e o desejo de uma vida mais justa.

Outro argumento que é estruturado na percepção individual das pessoas é o do esforço pessoal. Os políticos de diferentes espectros sempre citam casos (exceções) de pessoas que vieram do nada e “venceram” economicamente, como se tais exemplos fossem provas irrefutáveis do esforço como motor único da meritocracia. É sem dúvida louvável reconhecer o  esforço daqueles que superaram obstáculos imensos, mas é preciso reconhecer a enorme injustiça se compararmos tal esforço ao pequeno esforço que uma pessoa privilegiada faz para chegar no mesmo resultado. Um país que trate a igualdade de oportunidades de forma genuína tem que reavaliar as múltiplas outras áreas que criam e promovem a desigualdade: tudo, desde habitação, saúde e ligações de transporte até salários e oferta de condições de trabalho.

 

Seria fácil descartar a mudança social em larga escala com o medo habitual de que seria “muito caro” resolver todos esse problemas para nos aproximarmos dessa igualdade utópica, mas precisamos nos lembrar que a pobreza tem um alto custo. Lidar com seus efeitos tira dos cofres públicos £ 78 bilhões por ano (£ 1.200 para cada pessoa por ano), em despesas com saúde, receitas fiscais perdidas, etc. Se queremos um sistema menos custoso, precisamos investir em estruturas – habitação, escolas, saúde – em vez de empurrar os problemas para mais tarde.

Então qual é a melhor maneira de organizar uma sociedade? O que devemos fazer para criar equidade genuína? Podemos decidir que existem certos caminhos que não queremos trilhar, que algumas medidas não são adequadas, que outras são preferíveis. Mas, como todas as tentativas de encontrar a melhor maneira de vivermos juntos, a chave, segundo Frances, é começar a questionar e, a partir desse questionamento, decidir quais são as mudanças de que precisamos. No que diz respeito a como as coisas são hoje, os filhos da Grã-Bretanha nascem com suas chances de vida já manipuladas. Isso não é algo que podemos simplesmente ignorar.

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