Utopias – consertando a democracia

O jornal inglês The Guardian tem uma coluna dedicada a ideias utópicas. O objetivo da coluna é apresentar novas ideias para as mais desafiadoras questões de nosso tempo. Vamos comentar aqui no blog da Universidade Livre Pampédia alguns desses artigos para arejarmos o debate e ampliarmos o olhar sobre temas como participação política, terrorismo, educação, entre outros. Hoje, a colunista Zoe Williams nos fala sobre como a introdução de júris de cidadãos pode nos reconectar com os políticos, trazendo de volta o otimismo com a política.

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Ela nos diz que vivemos num tempo onde uma grande quantidade de ideias estão começando a aparecer como soluções para múltiplas crises simultâneas –   energia renovável de produção local, renda mínima para todos os cidadãos, entre outras – mas que para que elas sejam implementadas, é necessária pressão democrática constante, o que em si não é possível a menos que nos reconectemos com a nossa democracia.

Por outro lado há um amplo consenso – estamos cansados ​​dos políticos. Uma enxurrada crescente de revelações sobre crimes e desvios de função vem minando nossa fé não nas pessoas apenas, mas de modo mais amplo, na democracia. Ela cita uma estatística do Fórum Econômico Mundial que mostra que 70% das pessoas nascidas na década de 1930 viam a democracia como essencial. Já para as pessoas nascidas na década de 1980 apenas 25% dão essa importância para a democracia. E Zoe atribui isso a pura amnésia.

Para as gerações que viveram mais próximas dos horrores do fascismo, do colonialismo e das ditaduras, qualquer alternativa à democracia não é aceitável. Já para os jovens que estão frustrados com a burocracia, a falta de sinceridade e de responsabilidade dos políticos, fica um gosto amargo de que o governo não os compreende. Nesse contexto, qualquer alternativa à democracia parece plausível, especialmente se essa alternativa apresenta uma estratégia simples e rápida – destruir um inimigo externo que é responsável por todos os problemas.

A questão portanto não é a democracia, mas o grau de participação que ela permite. Precisamos criar um senso de participação e inclusão que renove a vontade das pessoas de se engajarem positivamente na construção coletiva da vida em sociedade. Para ilustrar as possibilidades de avanço da representação na democracia, Zoe nos lembra que, em 2012 na Itália, economistas e cientistas políticos organizaram a escolha aleatória de alguns membros do parlamento (como é feito na composição de um juri popular que julga e decide o destino de um réu num tribunal). O resultado foi um parlamento mais eficiente, que buscou soluções para ampliar o bem-estar social com mais diversidade e representatividade.

Essa participação aleatória de cidadãos não filiados a partidos ou que militam por determinadas ideologias, pode arejar o debate democrático, mas mais importante do que isso, pode barrar os vícios do sistema atual. Para que se construam alianças e consensos nesse modelo, com participação popular aleatória, o debate precisará ser conduzido pela exposição dos vários pontos de vista sobre um dado assunto, suas causas e consequências, seus objetivos e impactos para as gerações futuras, etc. Hoje, no modelo de representação democrática exclusivamente partidária que temos, os debates se dão norteados por interesses de grupos, lobbys, ideologias, interesses imediatos e, acima de tudo isso, interesses pessoais.

As eleições portanto não seriam mais o ponto alto da participação democrática, mas sim uma parte de uma atuação contínua da sociedade na escolha de caminhos para todos. Como diz Zoe William no final de seu artigo: o pessimismo é anestesiante e o fatalismo é confortável; o otimismo deixa você vulnerável a cada rajada de decepção, mas é o primeiro dos nossos deveres cívicos.

Acrescento que se quisermos ter esse grau de maturidade democrática, precisamos  de educação. Uma participação ativa dos cidadãos na construção coletiva da organização da sociedade exige um grau de compreensão dos problemas complexos que nos rodeiam e uma capacidade de ponderar e refletir que a história da educação no Brasil ainda não foi capaz de construir. Infelizmente teremos que fazer as duas coisas (aprofundar a democracia e formar cidadãos) ao mesmo tempo. A conseqüência disso é a grande dificuldade de nos comunicarmos uns com os outros, e esse é um grande desafio para todos nós pelas próximas décadas.

 

 

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