A vida contemporânea e a sabotagem a nós mesmos.

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O que realmente se discute quando falamos de alimentação saudável?

Em recente entrevista à Radio USP (93,7 FM – São Paulo), o pesquisador Sebastião Almeida falou sobre o problema da obesidade infantil. O tema foi abordado sob dois pontos de vistas, (1) a influência das propagandas na alimentação infantil, e (2) os hábitos culturais das famílias.

Segundo Sebastião Almeida, por meio de pesquisa realizada em 2002 e repetida agora, cerca de 60% da propaganda de alimentos ao público infantil nos três principais canais de televisão aberta e fechados são inadequados. A inadequação se liga à lista de ingredientes e suas quantidades, com destaque para sal, açúcar e gordura.

Além disso, abordando os hábitos comportamentais das famílias, percebe-se que os responsáveis pela educação alimentar das crianças não possuem, por si, hábitos saudáveis, não por desconhecimento, pois as noções de alimentação saudável estão bem disseminadas, mas por escolha, seja de ordem financeira, prática, gosto, e/ou todas as anteriores.

A comida altamente processada e ultra-processada são as vilãs de nossa alimentação: não há alimento que venha numa lata ou vidro, que não contenha um produto químico ou um processo anterior à embalagem, processo que, em escala industrial, necessita de um mínimo de aditivo, pelo menos, de conservantes.

As pesquisas de Sebastião Almeida levam a interessantes reflexões, pois se há consciência da importância da boa alimentação, por que as próprias famílias se sabotam?

A resposta não é fácil, a vida contemporânea nos leva a uma correria insana para que as 24 horas do dia caibam em nosso dia, problema que em grandes metrópoles ganha dimensão épica, pelos problemas de mobilidade.

A comida processada é oferecida por ótimas propagandas, embalagens reluzentes, preço convidativo e a promessa de menos tempo na cozinha. Como recusar tantos benefícios juntos? Se pensarmos no curto prazo, a recusa nunca será uma opção; ela se torna relevante se pensarmos a longo prazo, quando colocamos a saúde na perspectiva da análise de nossas escolhas.

Assim, o ritmo da vida contemporânea fica em cheque se queremos parar de nos sabotar. Até que ponto esse ritmo tornou-se senhor de nós e estamos irremediavelmente imersos nesse conceito de tempo e obrigações vorazes? Até que ponto podemos ditar nosso ritmo e não sermos dragados pela própria velocidade de nossas vidas?

A visão de longo prazo, por mais difícil que pareça, seja na alimentação, seja nas decisões pessoais, de trabalho e estudo precisa ganhar espaço em nossa vida. As poucas horas do dia exigem uma série de escolhas, de planejamento, de definir o que é importante; todas essas escolhas só podem acontecer se há objetivos a serem atingidos, caso contrário, é possível que os dias fiquem cada vez mais curtos pela falta de planejamento, de ordem, mas com o bom e velho hábito de querer abraçar o mundo.

A alimentação saudável, então, não diz respeito só a querer comer bem, é uma escolha complexa em que a pessoa, que por isso optar, terá que mudar muita coisa em sua vida. Como alterar toda sua rotina e tempo: as prioridades serão questionadas, a organização do cotidiano, o valor dado aos amigos.

Sob a perspectiva acima, pode-se entender os motivos de sabotarmos a escolha/conhecimento sobre a alimentação saudável, mesmo que coloquemos em risco a qualidade de vida de nossos filhos. No mesmo balaio podemos colocar nossos estudos, nossa dedicação aos tratamentos médicos de longo prazo, o exercício que nos pode tirar da zona de sedentarismo, nossos hábitos no trabalho, etc.

A vida contemporânea deve ser, assim, domada de certa forma e há um longo caminho que se deve percorrer para tanto. Claro que há situações que são entraves para a pessoa a tomar as rédeas da própria vida. Porém, em algum ponto é importante, mesmo dentro das limitações, que isso aconteça, pois fortalece a psique da pessoa, melhora o entendimento de mundo, e o sentimento sobre o sentido da vida.

Sob o olhar da educação, assuntos como alimentação saudável, que se apresentam no cotidiano de forma tão batida, que podem parecer embates infrutíferos e uma medição de forças entre grupos de fanáticos que se contrapõem ininterruptamente, são áreas férteis para o educador frente às suas obrigações com seus educandos. Cabe ao educador ampliar os escopos de discussão na busca do entendimento do que é tomar decisões na vida e seus desdobramentos, tanto para as pessoas em si quanto para a sociedade.

Alexandre Mota

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