Duas narrativas e uma escolha

A proposta aqui é nos depararmos com duas narrativas opostas para tentarmos entender as razões que nos fazem aderir a um discurso, e por oposição, demonizar o discurso oposto. Essas duas história foram propostas pelo estudioso de psicologia moral – Jonathan Haidt

Num tempo distante, agricultores cultivavam seu próprio alimento e artesãos criavam produtos com suas próprias mãos. Mas então o capitalismo foi inventado e as trevas de espalharam por aquelas terras, com a fumaça e a fuligem da revolução industrial. Os capitalista se aprimoravam em extrair mais e mais produtividade dos trabalhadores, colocando em seus bolsos o fruto do suor de muitos. Os trabalhadores acabaram se unindo contra essa exploração, se organizando em sindicatos, levando a políticas de proteção, criando assim o Estado de bem estar social. Mas os capitalistas e os conservadores de direita não aceitaram essa insurgência. Em muitos países eles destruiram os sindicatos, acabaram com as leis de proteção e deram para as corporações liberdade para explorar à vontade. Então os ricos ficaram mais ricos, os pobres mais pobres, a democracia era cada vez mais fraca e o nosso planeta rumava para o seu fim. Neste momento grave é dever moral de todas as pessoas de bem lutar contra o capitalismo e as corporações predadoras que se atiram sobre nós e condenam nosso futuro.

dois lados

Num tempo distante, quase todos eram camponeses, escravos e servos. Reis e nobres tomavam quase tudo o que as pessoas produziam, então não  havia razão para se trabalhar mais já que não seria possível aproveitar os frutos desse trabalho duro. Mas então o capitalismo foi inventado e começou a liberdade. Na Inglaterra, na Holanda e nos Estados Unidos, coisas como o direito à propriedade, as leis e o mercado faziam com que as pessoas mudassem de atitude. As pessoas queriam trabalhar mais e mais quando podiam desfrutar do resultado desse esforço. Elas queriam inventar novos produtos, prover para seus filhos e ser úteis para a coletividade. O livre mercado do capitalismo permitiu tudo isso. Mas alguns países adotaram o comunismo e o planejamento centralizado do Estado. O resultado desses regimes era sempre o mesmo – racionamento de tudo – falta de comida e de liberdade. Mas os países que adotaram o capitalismo prosperaram muito em pouco tempo. Mesmo assim, contra todas as evidências históricas, os defensores do pensamento de esquerda são implacáveis, e toda vez que eles chegam ao poder seu primeiro alvo é a liberdade econômica. Os que defendem o pensamento igualitário não querem viver em um mundo onde aqueles que criam valor pra a sociedade possam desfrutar de seus ganhos. Eles querem que todos sejam iguais – igualmente pobres. Neste momento grave é dever de todas as pessoas de bem se unirem para proteger o capitalismo para que suas benesses possam atingir toda a humanidade.

Você pode se identificar mais com uma ou com outra narrativa, pode até olhar de forma crítica para a narrativa com a qual mais se identifica, percebendo nela uma simplificação exagerada, alguma inverdade. Pode inclusive concordar com um ponto ou outro da narrativa oposta, mesmo discordando dela de maneira geral. Mas no fim, cada uma delas nos chama a tomar um posição, e essa posição é inevitavelmente nós contra eles.

Diferente da análise de fatos, as narrativas falam com nossas emoções. Um gráfico não tem personagens com os quais podemos nos identificar, não tem rostos humanos, não gera empatia. Apesar disso, as duas narrativas foram baseadas em fatos, em estatísticas, em análises de dados recolhidos por pessoas diferentes de lugares distintos em momentos históricos diversos, usando várias metodologias.  Os critérios que embasam as duas narrativas em geral são contestados por aqueles que crêem na narrativa oposta, numa tentativa de desacreditar os fatos em que elas se baseiam, mas a força ou a fragilidade dos dados são um fato para ambas as histórias. Na batalha entre as narrativas, não existem ganhadores já que as acusações, que um lado faz ao outro, enfraquecem a fundamentação da própria narrativa, que se percebe como verdadeira.

Os dois caminhos possíveis para esse conflito são o afastamento ou a aproximação. Hoje, o afastamento dá o tom. A radicalização do discurso de ambos os lados polariza o debate, insufla o ódio, abre a oportunidade para totalitarismos, regimes autoritários, repressão, censura. Primeiro se ridiculariza o outro, depois o descreditamos, depois o calamos e por fim o matamos, cada vez nos afastando mais, até que o outro perca sua humanidade.

A outra possibilidade é a aproximação. Escutar a outra narrativa, compreender os fatos que a embasam, buscar pontos de intersecção entre as ideias da outra narrativa e da nossa, buscando soluções complementares que aproveitem o que há de melhor nas duas visões. Trabalho em grupo, olho no olho, empatia, qualidades humanas intrínsecas.

Um caminho leva à guerra e o outro nos promete paz. Não é exatamente uma escolha difícil essa entre guerra e paz, mas precisamos entender que no fundo é essa a decisão que estamos fazendo todos os dias quando estamos mergulhados no cotidiano de nossas vidas humanas.

Mauricio Zanolini

 

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