É possível mudar uma religião?

484412-prayerreligion-1356469632-870-640x480Nesse TED, Chelsea Shields nos conta sua experiência como mórmon e como a primeira mulher de sua família a se formar em uma universidade. Sua vivência no mundo secular e sua formação como antropóloga, além da tendência natural que a levou a essas escolhas, fizeram com que ela questionasse sua própria religião. Os amigos diziam para ela abandonar sua crença, diziam que pessoas religiosas são ignorantes, mas ela pensou em uma solução distinta.

A religião determina a roupa que ela deve usar, com quem ela deve se casar, como ela deve se comportar. Todas as pessoas da sua comunidade doam 10% do que ganham para a igreja e 10% de seu tempo em atividades voluntárias dentro dessa mesma comunidade. Os pais dizem para seus filhos homens que preferem que eles morram ao invés de recebê-los de volta em pecado e sem honra quando partem na missão de dois anos para pregar a palavra. Sua comunidade é o lugar onde adolescentes cometem suicídio por serem homossexuais, onde as mulheres não participam de nenhuma decisão e não têm autoridade espiritual. Mas também é o lugar onde ela se sente acolhida, onde em qualquer lugar do mundo ela recebe amizade e ajuda.

Chelsea se uniu a outros ativistas mórmons para, aos poucos, mudarem a mentalidade de sua religião através de ações pacíficas de resistência. Ela nos diz que as religiões, ao determinarem uma moral, determinam o que é normal. A consequência disso é que a crítica é sempre recebida de forma defensiva e por isso não é o caminho para a mudança. Ela ilustra essa resistência quando nos conta que ela e outras mulheres formaram uma longa fila na porta de uma reunião da comunidade onde só participavam os homens. Uma a uma elas tentavam argumentar e participar da reunião, o que era sempre negado. Para Chelsea, no entanto, os homens (incluindo meninos de 12 anos) que viram e ouviram os argumentos do grupo de mulheres e presenciaram cada negativa foram influenciados por isso.

Hoje, mais de uma década depois de começar esse movimento, sua comunidade incluiu aqui e ali as mulheres em reuniões, antes apenas frequentadas por homens; fotos de mulheres são vistas ao lado de fotos de homens; e a palavra mulher e a palavra sacerdócio podem ser escrita na mesma frase. Parece pouco? Para Chelsea essas são mudanças históricas que vão permitir uma vivência religiosa muito mais igualitária para a sua filha do que a que ela teve.

Numa entrevista para um programa de humor norte-americano, Malala Yousafzai (já falamos dela aqui) nos conta o que pensou e sentiu quando descobriu que ela havia se tornado um alvo do Taliban. Ela imaginou o encontro com seu algoz e sua primeira reação foi buscar algum objeto, como seus sapatos, para atirar contra ele. Depois ela pensou que se fizesse isso estaria se igualando a ele. Imaginou então que conversaria com ele sobre a importância da educação e de como ele mesmo gostaria que seus filhos tivessem um boa educação. Por fim, depois dessa conversa ela diria “agora faça o que você acha que deve fazer”.

Para Chelsea e Malala a experiência religiosa é essencial tanto para sua formação ética quanto para sua identidade, mas isso não significa submissão sem questionamento. Essas duas mulheres acreditam que aumentar a consciência sobre os problemas usando suas vozes, expondo suas ideias, e resistindo pacificamente, é o caminho educativo que leva à mudança de mentalidade, a uma nova moral que por fim transforma as relações entre as pessoas e assim muda o mundo.

Mauricio Zanolini

 

One thought on “É possível mudar uma religião?

  1. cada vez mais estou me tornando um leitor assíduo dos seus comentários e pensamento escritos… muito grato pelo compartilhamento de palavras tão simples que traz uma lucidez tão profunda que impele qualquer raciocínio de injúria a se calar…

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