O insustentável peso do TER e a leveza yorubá

O vídeo no final desse post é de 2012. Fernando Gabeira entrevista Ladislau Dowbour e Eduardo Giannetti da Fonseca, dois economistas que tem uma produção bastante interessante que extrapola a análise econômica e passeia pela filosofia, a sociologia e a política. A entrevista trata dos limites do trabalho e os entrevistados apresentam algumas ideias interessantes para pensarmos a relação entre educação e trabalho.

O principal argumento é que a partir de uma determinada faixa de renda (20 mil dólares anuais) não há ganhos no nível de felicidade subjetiva das pessoas. Ou seja, como diz um velho ditado: dinheiro não traz felicidade. Para estabelecer algum parâmetro no Brasil, a renda per capita está acima dos 10 mil por ano, em Portugal ela passa dos 20 mil e nos Estados Unidos é de 50 mil (valores em dólares).

Yorubá2

Tal constatação aponta por um lado para a insanidade que é o acúmulo de capital, o que reforça os discursos recentes de figuras como o Papa Francisco, que repetidamente nos alerta para os perigos do capitalismo – que ele chama de ditadura sutil – e para as consequências dessa filosofia predatória, como as guerras e o aquecimento global. Por outro lado, fica claro que a maior parte da população do planeta está longe desse nível medido de felicidade, seja por falta de uma conjuntura favorável, pensando dentro da lógica capitalista do empreendedorismo e do livre mercado, seja pela resistência de culturas tradicionais pré-capitalistas, cujo estilo de vida aponta para soluções interessantes ante os mesmos problemas levantados pelo Papa.

No programa Roda Viva que entrevistou Caetano Veloso em 1996, o mesmo Eduardo Giannetti fez uma pergunta sobre a possibilidade do Brasil fazer a síntese entre a ordem civilizada e a alegria yorubá, que é um traço forte da nossa cultura:

Caetano dá uma resposta longa e cheia de volteios argumentativos, seu estilo característico de explicar as coisas, mas deixa claro que, na visão dele, nossa cultura é mais forte que as ideologias e que, portanto, qualquer modelo de implantação de direitos universais vai ser afetado e remodelado por essa cultura, criando uma nova utopia. Essa mesma ideia aparece na entrevista conduzida por Gabeira, e está em Darcy Ribeiro no livro “O Povo Brasileiro”:

“Somos povos novos na luta para nos fazermos a nós mesmos como um gênero humano novo que nunca existiu antes. Tarefa muito mais difícil e penosa, mas também muito mais bela e desafiante. (…) O Brasil é já a maior das nações neolatinas, pela magnitude populacional, e começa a sê-lo também por sua criatividade artística e cultural. Precisa agora sê-lo no domínio da tecnologia da futura civilização, para se fazer uma potência econômica, de progresso auto-sustentado. Estamos nos construindo na luta para florescer amanhã como uma nova civilização, mestiça e tropical, orgulhosa de si mesma. Mais alegre, porque mais sofrida. Melhor, porque incorpora em si mais humanidades. Mais generosa, porque aberta à convivência com todas as raças e todas as culturas e porque assentada na mais bela e luminosa província da Terra.”

De volta à entrevista de Gabeira, Ladislau Dowbour diz que uma economia densa em conhecimento libera as pessoas para explorar sua criatividade, mas o tempo da criatividade é diferente do tempo do trabalho, como ele é hoje. Cada vez mais o trabalho pedirá outra formação, outras habilidades e isso pede uma nova educação.

A brincadeira, a consciência corporal, o jogo cooperativo, estes são os estímulos à criatividade, que deverá estar presente durante toda a vida do indivíduo. O lado bom disso é que nossa alma yorubá comunga com tudo isso. Casar essa alegria com a pesquisa séria e o aprofundamento teórico é o nosso desafio civilizatório, mas que, segundo todos os citados acima, poderá ser nosso legado para as futuras gerações da Terra.  Alegria e mãos a obra!

Mauricio Zanolini

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