Produtividade da mente, entulhos mentais e educação livre

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Como a Universidade Livre Pampédia pretende trabalhar sobretudo com produções, em que o peregrino do saber, ou pela nomenclatura tradicional, o aluno, vai formando seu portfolio, acho interessante tecer algumas reflexões sobre a produtividade criativa do ser humano e seus possíveis entraves…

Vejo à minha volta muita gente claramente talentosa, que tem dificuldade de produzir. E outras, que nem ainda sabem de seus talentos, com dificuldades ainda maiores, primeiro para fazer desabrochá-los e depois desenvolvê-los produtivamente.

Quando me refiro aqui à produção, podemos pensar num texto, num desenho, numa música, num vídeo, numa pesquisa, num projeto, numa obra qualquer, que tenha significado para a pessoa que o faz, que tenha um acabamento que possa ser compartilhado socialmente, que tenha alguma contribuição a dar no campo da reflexão, da contemplação estética, da ajuda ao próximo, da utilidade social. Não estou falando de produtividade acadêmica (que exige produção em quantidade de artigos, dentro de modelos pré-estabelecidos, para gerar pontuação de órgãos de governo ou internacionais) e nem em produtividade econômica (quando uma ação é medida pelos resultados financeiros, independentemente de sua qualidade, de seu compromisso ético e da realização pessoal de quem a faz). Essa produção a que me refiro pode gerar remuneração financeira, ou pode ser também uma produção acadêmica, mas antes deve preencher os quesitos de sentido, de compromisso ético-social e de realização pessoal.

Mas quantos obstáculos ao fluir livre da criatividade humana… inclusive a própria e desesperada necessidade de sobrevivência, num mercado de trabalho desumanizado. Mas mesmo para sobreviver, é preciso saber produzir com a mente. E cada vez mais isso será necessário. Domenico de Masi, autor de Ócio criativo, que esteve recentemente no Brasil, disse em entrevista à Folha de São Paulo, que hoje “só apenas 33% da atividade produtiva é braçal, o restante é trabalho intelectual”.

Ora, por isso mesmo, precisamos aprender a como trabalhar com a mente, que requer flexibilidade e agilidade, para produzir com beleza, sentido, lucidez e sagacidade. Assim como o corpo pode ser treinado para ser rápido, ágil e ter movimentos elegantes, a mente também precisa de exercícios, que a tornem mais aberta, mais alerta, mais capaz de apreender e fazer, de perceber e atuar.

Como desde a infância, tenho me dedicado a esses exercícios, queria compartilhar algumas experiências e deixar alguns conselhos, que podem, talvez, parecer um tanto severos, mas que têm me sido úteis.

1) Para produzir, é preciso concentração. Concentração é a capacidade de se focar num trabalho, numa leitura, num tema, com plena presença mental, com atenção completa, sem que o pensamento divague por aí, sem que que a inquietação tome conta. A capacidade de concentração é cultivada através de algumas atitudes constantes, que devem se tornar hábitos espontâneos:

  • Analisar as próprias emoções e trabalhar com elas. Nada há mais perturbador para a mente do que a avalanche de nossas emoções. Mágoa, raiva, ciúmes, culpa, tristeza, euforia, paixão – tudo isso nos deixa em estado de ebulição mental, impedindo a mente de agir serena. Não significa isso que jamais tenhamos tais emoções, elas fazem parte de nós e da vida. Só espíritos iluminados não se deixam afetar por elas. Trata-se de não guardá-las além do necessário, trata-se de não cultivá-las e nem de jogá-las para debaixo do tapete. Olhemo-las de frente, trabalhemos com elas e depois deixemo-las ir… Claro que esse é um processo constante, existencial, que muitas vezes exige terapias (dependendo do tamanho das feridas que temos), mas que sempre requer um cuidado terno, um empenho de autoconhecimento. A meditação budista tem interessantes caminhos para lidar com essas emoções. O ensino de Jesus de perdão, de fé, de entrega à Providência Divina também é precioso nesse sentido.
  • Não se deixar distrair. A mente se distrai com coisas fúteis, sem sentido, sem necessidade. Uma dose diária de Rede Globo é como se alimentar todos os dias com aqueles salgadinhos horrorosos, que fazem mal à saúde, que só têm sódio, corante e colesterol. Muito Facebook, muitos filmes sessão pipoca, muito barulho de mau gosto, que hoje chamam de música, ou muita conversa fútil, falação da vida alheia, contação de piadas baixas e sem nexo… tudo isso entope a mente de imagens, palavras e sons, que são como lixo mental, atravancando o fluir livre de ideias elevadas, de criação, de tranquilidade.
  • Alimentar a mente de coisas sólidas: natureza, meditação, prece, leituras boas, música tranquilizadora, reflexões profundas – e também de silêncio, físico e mental. Quem não consegue ficar em silêncio, não sabe fazer silêncio dentro de si. Sem silêncio dentro de si, não se pode cavar as fontes profundas de nossa criatividade. Nossa criatividade é divina e precisa do silêncio das falas do mundo e de nossa própria falação interna, para nascer discreta e pura.

2) Para produzir, é preciso ter repertório. Se escrevo, tenho que ler muito (e muita coisa bem escrita, não livrinhos comerciais ralos). Se vou fazer vídeos, se vou fazer um filme, tenho que assistir aos melhores da arte do cinema. Se vou me dedicar às artes, tenho que me familiarizar com os grandes gênios. Para produzir pesquisa científica, tenho que percorrer o que já foi feito na área, tenho que conhecer a fundo a filosofia da ciência, para discutir os próprios métodos de pesquisa. E também, tudo misturado. Para escrever, faz-me bem a música e a pintura, o cinema e a ciência. Engravidar o espírito de bons e sólidos conteúdos, de forma interdisciplinar, para poder parir algo inovador.

3) Embora o trabalho físico e manual esteja decrescente no mundo, como alerta De Masi, por incrível que pareça, ele pode ser muito útil ao trabalho intelectual. Fazer uma caminhada, dirigir um carro, fazer um almoço, lavar uma louça, bordar ou costurar, produzir um artesanato, plantar e cuidar de uma horta, podem relaxar a mente, descansá-la, e também contribuir para a gestação de ideias. Muitas vezes, enquanto cozinho ou lavo louça, caminho ou dirijo numa estrada, vou pensando toda a estrutura de um texto, de uma poesia ou de um livro. E quando me sento para escrever, essas coisas nascem, já inteiras, porque foram gestadas antes.

4) Diz o ditado popular que “o ótimo é inimigo do bom”. O criador, o artista, o produtor de conhecimento deve procurar em tudo a perfeição. O que não chega ao fim, o que sai apenas meia boca é filho do relaxamento e da preguiça. Sou particularmente exigente nesse quesito. Mas, por outro lado, não podemos ter um perfeccionismo que nos paralise. Daí resultam gênios de poucas obras ou nenhuma obra, assim se veem talentos infecundos. Por excesso de exigência, perde-se o senso de praticidade e o timing da produtividade. Obras perfeitas, mas inexistentes. Geralmente, isso é mais falta de agilidade do que apenas busca da perfeição. Produzir bem com maior rapidez é fruto de muito treino, de muita produção.

Isso tudo, estou falando para pessoas adultas, que são filhas de uma educação que não lhes ensinou nada disso, que lhes sufocou a criatividade, que lhes gerou a insegurança e o medo de se exporem.

Por isso mesmo, antes de tudo, precisamos mudar radicalmente a educação. Observemos uma criança de 3 ou 4 anos, que ainda não foi danificada pela escola, desenhando algo. Profunda concentração, tremenda paz de espírito, muita autodisciplina mental. A nossa escola acaba com isso, impondo uma disciplina externa, com temas, atividades, ritmos e exigências que não fazem sentido àquele pequeno gênio que começou a vida cheio de talentos e vai sair da escola cheio de frustrações.

Mas para que deixemos as crianças seguirem seu rumo de produtividade criativa, é preciso que os adultos à sua volta tenham pelo menos em parte, rompido seus bloqueios, busquem melhores alimentos mentais e possam ser mais eficazes em suas produções. Esse é um dos objetivos da Universidade Livre Pampédia.

Caminhada no lago

Silêncio

Se a mente se desenlaça

Da avalanche de palavras,

Brota a palavra certa

aberta,

que aquieta.

Se a mente se desembaraça

Da multidão das imagens.

Desenha-se o quadro perfeito

direito

escorreito.

Se a mente se nutre acima

E o coração se sublima,

A paz se instala

e exala

nunca mais rala.

Se a mente se mira em Deus

Espelho dos dotes seus.

Em luz se recria

e cria

harmonia.

Dora Incontri

3 thoughts on “Produtividade da mente, entulhos mentais e educação livre

  1. Boa tarde! Excelente texto!
    Penso que demorei muito tempo até entender que a produção de um bom texto levava tempo. Muitas angústias por me deparar com uma folha em branco, horas e horas, e nada conseguir escrever. Mente tumultuada e poluída por tanto coisa inútil, mas, só o tempo e a maturidade me permitiram perceber que “o mundo moderno” preocupado mais com o ter do que com o ser, em nada me complementou, quando o assunto, foi “perder” tempo para pensar os novos espaços e tempos tão exigidos por esse modelo de mundo humano que já nasceu desgastado.
    Felizes realmente são as crianças que quando conseguem ser escutadas nos mostram a magia do mundo de suas aprendizagens através das interações e brincadeiras, junto a seus pares e suas culturas infantis. Uma vez que, estão a gritar de forma ensurdecedora, pela vida, pela alegria, pela amizade, pelo brincar e pelo amor. Gritam…em busca de alguém que as escute e reconheçam que os saberes da infância são significativas ao processo formativo de crianças e principalmente de adultos.
    Que dias melhores surjam em que os saberes infantis façam parte do dia a dia dos adultos. Talvez sejamos mais felizes e talvez possamos escrever textos mais leves.
    Abraços

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