Uma aventura inter-religiosa na Universidade Livre Pampédia

17321209926_a58ec4db17O filósofo francês René Descartes começa assim o seu Discurso do Método: “O bom senso é a coisa do mundo mais bem distribuída: todos pensamos tê-lo em tal medida que até os mais difíceis de contentar nas outras coisas não costumam desejar mais bom senso do que aquele que têm”.

No mesmo parágrafo, ele sentencia: “e, assim sendo, (isso é uma prova) de que a diversidade de nossas opiniões não se origina do fato de serem alguns mais racionais que outros, mas apenas de dirigirmos nossos pensamentos por caminhos diferentes e não considerarmos as mesmas coisas”.

Evoquei especialmente Descartes não por acaso, visto ser ele considerado um dos nomes mais destacados da revolução científica, que no século seguinte, XVIII, seria encabeçada pelos iluministas. E porque esse simples e inicial pensamento é de uma atualidade fantástica nesse nada simples início de século XXI, em tempos de redes sociais que amplificam opiniões e mostram ainda mais claramente o quanto nossas mentes andam por caminhos diversos, de fato.

É tanta diversidade de opinião que a minha, sendo mais uma, só tem mesmo o valor de mostrar o caminho que tenho construído, singular, sem a intenção de ser melhor ou servir de referência a qualquer outra pessoa, mas valioso por isso mesmo. As variáveis que o compõem, em pelo menos uma das direções, dizem respeito à busca por encontrar sentido na espiritualidade. Como vou saber se há ou não esse sentido, se aceitar tacitamente que ele existe, ou simplesmente se acreditar no que me dizem alguns filósofos: “não há sentido algum que não esteja preso a esta realidade”?

Em meio à angústia de ter que lidar diariamente com escolhas e caminhos, muitas vezes gostaríamos de ter uma luz externa a nos dar um norte, mas em determinado ponto percebi que essa luz teria que ser lançada por minha própria angústia, encarada aqui no melhor dos sentidos, pois tento, na medida do possível, fazer dela uma angústia construtiva. Primeiro: há certezas absolutas? Posso sentar-me no trono da verdade e ali descansar por, enfim, tê-la encontrado?

Sempre à cata dessas respostas, atiro-me a uma viagem por pensamentos filosóficos, científicos e religiosos que são uma grande aventura, uma bela forma de viver a vida, a meu ver. Uma aventura dividida em capítulos. Um deles encheu-me de êxtase, no início deste ano, por ter sido uma viagem a mexer com a mente, vários sentidos e sentimentos.

A 10ª turma da pós-graduação em Pedagogia Espírita estava tendo seu primeiro encontro presencial mensal na nova sede da Universidade Livre Pampédia, instalada recentemente numa belíssima chácara nas proximidades de Bragança Paulista. Não escolhi esse final de semana de aulas para estar ali, simplesmente aconteceu. Agradecendo o consentimento da direção, aproveitei para participar das atividades, mesmo sem estar vinculada ao programa. Era, não apenas a coisa mais instigante a se fazer naquela bela paisagem, mas vinha ao encontro da minha busca.

As exposições filosóficas

Ale

O módulo tratava de Educação e Espiritualidade e começou com uma exposição do mestre em História da Educação pela Unicamp, professor de Ética e Filosofia, Alessandro Bigheto. Em algumas horas, ele lançou o olhar científico e filosófico sobre o fenômeno religioso, demorando-se na hegemonia do pensamento materialista que hoje reduz a dimensão religiosa humana a uma primeira (e frustrada) tentativa de explicação do mundo por parte do homem.

Em seguida, evocando um artigo apresentado por ele e a pós-doutora em Filosofia da Educação pela USP, Dora Incontri, no 1º Congresso Internacional de Educação e Espiritualidade, ocorrido em 2010, Alessandro falou sobre o que eles chamam de “Olhar de fora” das religiões, lembrando figuras que lideraram, de certo modo, o pensamento ocidental a esse respeito.

Dentro dessa visão, há aqueles que tendem a esvaziar a experiência religiosa como algo danoso ou inútil (caso de Ludwig Feuerbach, Karl Marx e Sigmund Freud) e há a tendência utilitarista, que vê na religião um fenômeno rico, que não deve ser negado e sim estudado (caso de Émile Durkheim e William James, por exemplo).

No “olhar de dentro”, opondo-se ao exposto acima, vem uma tendência exclusivista, em que há séculos a maioria das religiões perdura, considerando os outros pensamentos religiosos como heréticos, rivais, infiéis, tendo em vista o discurso de que “só minha religião salva”.

O fechamento veio com um “olhar de síntese”, aula do dia seguinte, com a exposição da professora Dora Incontri, onde a espiritualidade deixa o domínio estrito das religiões e das instituições para transitar num plano mais abstrato, o da experiência íntima e pessoal, distanciada de toda rigidez e sectarismo de uma liderança que exerça coerção externa sobre o indivíduo.

Dora lembrou, sustentando essa tendência, autores como J. H. Pestalozzi, Allan Kardec e Erich Fromm. O primeiro, em seu livro Minhas indagações sobre a marcha da natureza no desenvolvimento da espécie humana, desenvolve a interessante teoria dos três estados: o estado natural, o estado social e o estado moral. Para Pestalozzi, não somos apenas seres biológicos e sociais, somos capazes de transcender o instinto e superar a coerção das leis para vivermos num plano superior: o da autonomia moral.

“Divina é a religião para cada ser humano somente na medida em que ela seja obra de si mesmo, pois enquanto for apenas obra de sua corrupção animal e social, ela será apenas ritualística e mais estritamente misturada com minhas inclinações materiais e com meus desejos animais”, diz o pedagogo suíço.

Vai ao encontro desse olhar de síntese e de uma espiritualidade destituída de instituições o pensamento do pedagogo francês, Allan Kardec, fundador do Espiritismo, ao defender a necessidade de conciliar fé e razão, buscando as verdades essenciais presentes em todas as religiões, como o princípio da fraternidade universal. Avesso a qualquer tipo de exclusivismo religioso ou salvacionismo, para ele, não pode ser racional uma fé que leve à destruição de si ou do próximo.

Na mesma linha caminha o psicanalista alemão Erich Fromm ao defender que a religião, filha da psique humana, abriga em si aspectos de autoritarismo e humanismo, uma tensão que pode resultar em conflitos entre uma fé racional (fundada na experiência e na própria atividade produtiva do ser humano) e uma fé irracional (convicção fanática baseada em um líder).

O contato inter-religioso

Mas nenhuma busca pode ser tida como algo que honre esse nome se não sairmos da zona de conforto (nesse caso, já indesejada). O pensamento filosófico sempre foi um velho companheiro, às vezes surpreendente, às vezes desconhecido, mas sempre no meu campo de visão. Já as experiências com outras práticas religiosas, para além dos preconceitos de um contato estereotipado pelos meios de comunicação de massa, ainda era terreno pouco explorado.

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Assim sendo, que deleite foi a experiência com a monja Heishin Gandra, discípula da monja Cohen – primaz fundadora da Comunidade Zen Budista no Brasil. Começamos com uma prática de alongamento e respiração que explorou o gramado ao redor da chácara, no qual pudemos nos conscientizar do nosso corpo e de tudo que nos cercava: verde, ar puro, mata e céu de brigadeiro.

Além dessa consciência de estar no mundo, ao longo da tarde, desbravamos a compreensão do ser, a partir da visão budista sobre três aspectos: religião, filosofia e psicologia. Diferente da tradição ocidental, o aspecto religioso não se encarcera no dualismo sagrado e profano. Trata-se antes de conhecer a mente, limpá-la de impurezas e perturbações através do cultivo de qualidades. Deus, explicou a monja, simplesmente, não foi objeto de atenção por parte de Buda, não esteve no campo das suas preocupações, muito mais voltadas para o homem e sua atuação num mundo impermanente, onde a mudança é a constante.

Embora tendo sido apenas uma tarde e seja impossível apreender em tão pouco tempo a riqueza do pensamento budista, ainda mais tendo ele várias correntes, essa aproximação me abriu pontes, como pensar sobre essa impermanência presente nos escritos sobre o sofrimento. Um dos requisitos para apascentar a mente, pelo que entendi do Budismo, é a compreensão de que a consciência precisa estar desperta para a impermanência do mundo, focada nas causas e efeitos das nossas ações, em sua interdependência.

Em outras palavras, o sofrimento decorre de querermos estabilidade onde o que existe é a mudança. Esse pensamento dialoga com Heráclito, filósofo pré-socrático que viveu 2,5 mil anos atrás, precursor da dialética, defensor da ideia de que só a mudança e o movimento são reais e de que a identidade das coisas é ilusória. Ou seja, para Heráclito, tudo flui, como um rio.

Na aula seguinte, sobre Judaísmo, esse conceito foi sinergicamente confirmado. Explico por quê.

Nunca visitei uma sinagoga, jamais participei de qualquer ritual judeu, e ter contato mais direto com aquela cultura me despertou a curiosidade, especialmente ao saber quem daria a aula. Tinha interesse em conhecer o rabino Alexandre Leone pela sua fama em defender a convivência pacífica entre judeus e palestinos. E também porque sabia que, sendo ele um dos mais eminentes pesquisadores do Centro de Estudos Judaicos da USP, tinha escrito e apresentado no 1º Congresso Internacional de Educação e Espiritualidade um artigo sobre a experiência mística em Abraham J. Heschel, filósofo judeu polonês de quem eu já havia lido algo e por quem também tinha um particular interesse por ser uma voz insurgente na academia, defendendo a metafísica, quando a Filosofia, em geral, tem-na rejeitado.

Independente disso, Leone falou-nos da origem do seu povo, que remete há cerca de 4 mil anos; do contexto do mundo de então e de como os escritos que temos hoje em mãos, a Bíblia, nada mais são do que uma narrativa que, conquanto traga marcas dessa história, é em parte mitológica e em parte lendária, e assim deve ser lida e interpretada.

Falou-nos do povo que se auto-intitulou “os que lutam por El” – IsraEL, na língua de então – El era um entre outros deuses do panteão fenício; de como esse povo que escolheu um deus veio a tornar-se monoteísta com o tempo; falou-nos da circuncisão e seu sentido; do significado de ser um rabino; que a Torá oral, o Talmud, tem mais de 30 tratados, entre outras particularidades que eram desconhecidas para mim.

Mas, sobretudo – e isso nos remete ao zen budismo e a Heráclito, Alexandre Leone explicou de que forma a ideia de Deus evoluiu no pensamento judeu, passando de uma figura da qual o homem era imagem e semelhança, portanto, corporificada, para uma visão cada vez mais abstrata. Tão abstrata a ponto de algumas correntes do Judaísmo, segundo ele, interpretarem Deus como um conceito provisório para expressar o âmago da natureza, uma visão quase panteísta.

Espiritualidade versus religião

17347635745_ea154f8f91_cEssa imersão toda me tornou zen budista? Tornou-me judia? Tornou-me mais cristã? Com todo respeito a essas instituições e suas tradições, não é exatamente a instituição que me interessa e sim a sua espiritualidade, seu recorte, seu olhar sobre o transcendente. Eu diria, portanto, que essa aproximação tornou-me mais compreensiva acerca da diversidade de caminhos de que fala Descartes e da fluidez com que nossa compreensão atinge as questões metafísicas.

E quando a professora Dora Incontri nos emocionou ao ler um poema sufi de Al Rumi se referindo a Deus como “o amado”, eu também quis conhecer o jeito mulçumano de crer. Não estritamente aquela religião ou apenas a sua tradição e organização institucional ou hierárquica, mas conhecer amplamente aquela espiritualidade.

Quantas variáveis que concernem ao pensamento do outro nos fogem? Por que não tentar, empaticamente, compreender? Medo de perder um pouco mais da nossa ignorância?

Quanto ao fundamentalismo religioso, ao fanatismo de que trata aquela fé irracional descrita por Fromm e tantos outros pensadores, que continua matando milhares de pessoas todos os dias, é para isso existe o estado social de Pestalozzi, com suas leis a coibirem os abusos do estado natural ainda presente em nós através dos instintos. Transcendê-los a ambos e atingir o estado moral, de autogoverno, inclusive e especialmente no que diz respeito à nossa relação com o transcendente, é que nos dará condições de responder àquela incômoda pergunta: qual o sentido da espiritualidade na minha vida?

Só posso ficar imensamente grata à Universidade Livre Pampédia por enriquecer essa discussão e fazer dessa aventura algo ainda mais prazeroso, pois o mergulho nessas questões introspectivas não podem prescindir da empatia, da perspectiva e do olhar do outro, sob pena de matar o pensador de tédio e de solidão.

Nildene Mineiro – Jornalista (Piauí)

*Saiba mais sobre as atividades da Universidade Livre Pampédia aqui!

One thought on “Uma aventura inter-religiosa na Universidade Livre Pampédia

  1. Excelente, Nildrne! Essa , a tendência do seçulo XXI, o século da espiritualidade, mais do que das religioes e/ou instituições religiosas, neste século ou haverá espiritualidade ou não haverá século . Parabéns!

    Luiz Vieira Marques

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