Por uma universidade aberta aos pais

Jan Amos Comenius, no século XVII, em sua bela obra Pampédia, defendia que a vida inteira é uma grande escola. Que cada fase de nossa existência proporciona diferentes possibilidades de aprendizado:

comenius2Do mesmo modo que o mundo inteiro é uma escola para todo o gênero humano, desde o começo até o fim dos tempos, assim também, para cada homem, cada idade da sua vida é uma escola, desde o berço até o túmulo(…). Será, portanto, muito fácil fazer com que a vida inteira seja uma escola. Basta simplesmente dar a fazer a cada idade apenas aquilo que ela é apta, e, imediatamente, durante toda a vida, o homem terá qualquer coisa que aprender, e qualquer coisa que fazer, e qualquer coisa para progredir e de onde colher os frutos da vida. (Comenius, Pampédia)

Essa ideia de Comenius talvez seja algo complicado de entender para muitas pessoas hoje em dia pois não foi isso que nos ensinaram ao longo da vida. Pelo contrário, fomos educados no paradigma da escassez desses frutos, no paradigma da competição, da fragmentação, do individualismo.

Vivemos numa época em que o tempo é acelerado, em que as prioridades materiais superam todas as outras. Em que a educação é buscada com o objetivo de ampliar o próprio consumo. Nos tornamos cada vez mais insensíveis, anestesiados, e ao mesmo tempo presos à filosofia do “salve-se quem puder”, do “garanta seu lugar ao sol”.

Mas Comenius defendia que todos têm sim o “seu lugar ao sol”, pois essa iluminação cabe para “qualquer um cujo destino é ter nascido ser humano”. Porém, só há um caminho para isso: a educação.

E que educação é essa? Não é a educação que vemos por aí nas escolas e instituições de ensino, mas a educação que desabrocha potencialidades, que liberta, que emancipa, que conecta o eu a si mesmo, ao mundo e às relações. E isso é um processo sem fim, como Comenius tão bem defendeu. É a essência da vida, faz parte da nossa natureza, é algo inato que nos impele para a frente, para o avanço.

A natureza humana, porque é toda ela ativa, para qualquer lado para onde se volte, aí se difunde toda; por conseguinte, é capaz de ser educada. Isto é evidente porque ela faz parte de uma natureza comum, a qual não pode permanecer inativa, o que se demonstra por indução observando todas as atividades naturais. A água corre pelos declives, na direção em que lhe for dado um sulco; se nenhum sulco se for oferecido, ela própria o encontrará e provocará uma inundação. Um raio de sol, apreendido por um espelho, reflete-se na direção que se quiser; mas, se lhe não põe diante um espelho, ele próprio, ou incidindo sobre as águas, refletirá em todas as direções, ou, difundindo-se sobre a terra, as florestas, os edifícios, as nuvens, etc., projetará a sua luz. É assim que acontece com todas as outras coisas. (Comenius, Pampédia).

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Justifica-se então porque cada fase da nossa existência nesse mundo é tão rica em possibilidades de crescimento. E o que falar do momento em que nos tornamos mães e pais, em que assumimos o compromisso de gestar, de criar, de educar?

Comenius dizia que a nossa primeira escola era a “escola da formação pré-natal”, ou seja, é a escola do ventre materno. Nela, o feto, a criança, já começa a aprender com a mãe a partir de tudo o que ela vive, desde o alimento que ela consome, até as mais profundas emoções e pensamentos.

Com efeito, a criança encerrada no ventre materno comporta-se como um circulo menor num circulo maior, os quais tem o mesmo centro e uma perfeita correspondência em todas as suas partes. (Comenius, 2014, p.159)

E como se não bastasse, Comenius propunha também uma “escola de pais”, defendendo que a tarefa de ser mãe, de ser pai, exige um preparo, uma educação específica.

E hoje? Estamos prontos para ser pais? Nossa sociedade nos prepara para isso? Presenciamos uma enorme quantidade de adultos delegando a terceiros (seja a televisão, a babá, a escola, o pediatra, o psicólogo, etc., ou tudo isso junto) quase a total responsabilidade da educação de seus filhos. E o que isso significa? Qual o impacto disso na vida das nossas crianças e de nós mesmos? E também quais as consequências sociais disso?

Significa que estamos perdendo a oportunidade de aprender a receber e a preparar uma vida para viver neste mundo, significa que estamos deixando de nos conectar mais com os nossos filhos, e significa, em termos sociais, o comprometimento do nosso próprio futuro, visto que sabemos o quanto a qualidade afetiva, cognitiva, cultural, social, proporcionada na primeira infância é decisiva na formação dos adultos que vão compor as novas gerações.

Podemos aprender muito com a maternidade e paternidade, a partir do interesse pelo conhecimento que envolve o preparo físico e emocional quando se decide ter um filho. Fora as ressignificações de vida, de ideal. Mas é claro, isso só vai acontecer se for uma vontade nossa e se encarado de uma maneira lúcida e profunda.

Precisamos nos emancipar do status quo vigente. Romper paradigmas que foram construídos sem contemplar as necessidades vitais do ser humano, paradigmas que roubam o tempo com nossos filhos, que nos alienam de nós mesmos. E podemos fazer isso pois temos todos instrumentos, como nos disse Comenius:

Os instrumentos da cultura são dados a todos os homens, e não apenas a todos em uma determinada nação, mas a todos em todo o mundo. Entendo por instrumentos da cultura todos os sentidos externos e internos, com todos os objetos dos sentidos; a mente, plenamente equipada com o mobiliário do conhecimento, dos instintos e das faculdades comuns; o coração, sede dos sentimentos e dos desejos do bem supremo; a língua, que serve para a comunicação de todas as coisas; as mãos que servem para fazer de modo semelhante todas as coisas que são semelhantes; a lentidão do crescimento, para que haja tempo suficiente para realizar tudo aquilo que se deve realizar. Neste aspecto, não há qualquer diferença de povo para povo, em qualquer parte do mundo. E todos esses instrumentos são dados, não apenas a todos os povos, mas todos os indivíduos de cada povo, dada a identidade universal da natureza humana. (Comenius, Pampédia)

Esse otimismo com a natureza humana, característico desse grande educador, faz parte da nossa visão enquanto universidade. E aí é que entra um dos nossos grandes sonhos, que é o de oferecer essa oportunidade de autoeducação aos pais. Estamos trabalhando, também, para isso.

Uma verdadeira “Escola de Pais”. A universidade abre suas portas e se transforma num espaço de apoio intelectual e moral, de diálogo, de trocas a fim de que todos encontrem, através de suas histórias e vivências, os melhores caminhos na desafiadora tarefa de educar. E educar de verdade, com participação, envolvimento, persistência, lucidez e afeto. Dessa forma, nossa intenção é que cada mãe e cada pai se perceba também como aprendiz, como agente transformador.

Por enquanto é sonho, como muitos outros que ainda estamos construindo para esse novo modelo de universidade. E sem dúvida, este será um grande e delicioso desafio e por isso convidaremos, quando for o momento, todos os pais e mães que partilham do nosso ideal a construírem esse projeto conosco, reforçando um dos nossos grandes pilares, que é o aprendizado livre, mas em rede, com autonomia e ajuda mútua.

Danielle Morais Feitosa

4 thoughts on “Por uma universidade aberta aos pais

  1. Precisamos progredir intelectualmente com certeza, porém sem a educação efetiva como mencionada por “Comenius” continuaremos como nossos medos, incertezas, angústias.

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  2. Ainda fico admirada como a espiritualidade comunga as mesmas idéias em nossas mentes quando nos colocamos a serviço da construção do bem que breve se materialize para auxilio de nossa evolução planetaria que assim seja

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  3. Aguardarei ansiosa mais informações sobre esse projeto. A necessidade de troca e apoio mútuo é evidente, que possamos nos unir para que isso aconteça. Abraços Janaina

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