Era uma vez uma Universidade que virou fábrica?

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Durante uma aula magna na USP, a professora Marilena Chiauí disse que a Universidade brasileira se submeteu à ideologia neoliberal e a USP (e suas congêneres) “transformou-se numa fábrica de produzir diplomas e teses, tendo como parâmetros os critérios de produtividade: quantidade, tempo e custo.” (saiba mais aqui).

Nesse momento histórico, a produção de conhecimento está submetida a critérios de produtividade acadêmica que pretendem reduzir a pesquisa, o debate filosófico e a ação social à mecânica produção de artigos.

Docentes e pesquisadores são avaliados como se fossem operários cuja produtividade tem que ser medida anualmente. Nesse contexto, a liberdade de pesquisar e construir fica engessada por parâmetros em que a avaliação da CAPES entra como fator de coerção de toda a pesquisa.

Ao mesmo tempo, a crítica que podemos fazer à universidade contemporânea, cujo modelo é importado dos Estados Unidos é que ela tem nas últimas décadas feito um jogo muito perigoso de conluio e submissão ao financiamento das grandes corporações. Noam Chomski tem alertado para a “corporativização das universidades” e da educação em geral.

Por outro lado, a Universidade, essa velha instituição que tem mil anos de idade, apesar de seus poderes hierarquizados e seus conservadorismos, prestou sim grande serviço à humanidade, gerando conhecimentos, abrigando pesquisa de ponta, fazendo nascer mesmo em seu seio rebeldias filosóficas que mudaram a face do planeta.

A primeira reunião formal de equipe que fizemos tendo como tema a construção de um projeto que pretende implantar uma Universidade Livre no Brasil partiu dessas reflexões. Entendemos que o nosso objetivo não é simplesmente matar a universidade, mas fazê-la renascer em outro formato, mais livre, mais autônoma, mais aberta, mais democrática.

A abertura que pretendemos é a que permite um itinerário de formação e pesquisa mais individualizado, que promova uma desierarquização institucional, que trabalhe num sentido de interdisciplinaridade e que permita a inclusão de temáticas e de formas de expressão por ora marginalizadas na Universidade tradicional.

Mas essa abertura não pode fazer tábula rasa dos métodos de pesquisa desenvolvidos nos últimos séculos, não pode desprezar a racionalidade e a consistência do conhecimento: ou seja, não pode simplesmente favorecer um niilismo epistemológico, adotando um vale-tudo caótico, que poderia nos fazer mergulhar num obscurantismo mágico, reconduzindo-nos à Alta Idade Média, justamente antes da fundação das universidades e que foi um período de analfabetismo generalizado e de declínio cultural.

Já alertamos num artigo dos riscos que corremos de uma volta à Idade Média, no que ela teve de pior. Várias características já nos ameaçam o horizonte nesse sentido como a superficialização da informação, o aviltamento da linguagem, as tendências irracionalistas e fundamentalistas.

Assim, a criação de uma Universidade livre tem que ser um passo adiante e não um passo para trás. Por isso, recorremos à inspiração dos clássicos da Educação, sobretudo Comenius, que tinha um projeto muito bem alinhavado de “ensinar tudo a todos” (Pampédia), de constituir o conhecimento como “algo integral e integrado” (Pansofia).

Na verdade, já estamos constituindo essa Universidade Livre Pampédia há vários anos, com a produção de livros, com o curso de pós-graduação, com outros cursos e workshops livres, com projetos de aplicação, com congressos nacionais e internacionais.

A Universidade Livre Pampédia é a concatenação de todas as nossas ações, para integrar um só projeto. O que você pensa sobre isso?

Equipe Universidade Livre Pampédia

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