O que é, e pra que serve a não-violência?

non-violenceA primeira coisa que percebemos quando falamos de não-violência é que a palavra composta que engloba ideias como a resistência pacífica e a desobediência civil é uma negação. Definir algo por aquilo que esse algo não é pode parecer evasivo, mas nesse caso, especialmente porque a violência é parte do nosso instinto de sobrevivência, o termo não-violência define a opção por resistir a esse impulso, por colocar a defesa daquilo que é comum acima daquilo que é individual (a sobrevivência).

Existe na ideia de resistência ao impulso (instinto) uma leitura religiosa (especialmente da igreja cristã), que entende o homem como um pecador que precisa de penitência para se purificar. A não-violência nasce de uma ruptura com essa interpretação. Pessoas em diferentes contextos e lugares reinterpretaram os Evangelhos, entendendo que a resistência ao impulso não deveria vir de fora (como lei imposta pela igreja ou pelo Estado), mas sim de dentro (autodisciplina). Estes são os principais personagens da história e seus contextos que desenvolveram e avançaram o conceito de não-violência:

Henry Thoreau (1817 – 1862), o trancendentalista norte-americano é o autor do livro A Desobediência Civil, escrito enquanto ele estava preso por ter se negado a pagar impostos que ele considerava injustos. Viveu num contexto social e religioso de ruptura com o puritanismo unitarista. Influenciados pela espiritualidade hinduísta e budista, os transcendentalistas propunham uma espiritualidade mais livre (a ideia de que Deus está e em todas as coisas e que nós somos também Deus). Essa crítica ao conservadorismo religioso também se expressava nas causas apoiadas por eles, como a abolição da escravatura e do sufrágio universal (liderado pelo movimento feminista).

Liev Tolstói (1828 – 1910), o maior escritor russo, considerado um santo em seu país, abandonou uma vida de aristocrata famoso, para viver de forma ascética (a partir de sua leitura de Arthur Schopenhauer). Inspirado pelo budismo, por Francisco de Assis e pelo Sermão da Montanha, Tolstói criticou a interpretação que a igreja fazia dos ensinamentos morais de Jesus. Ele entendeu a ideia de oferecer a outra face como a resistência ao mal pela não-violência. Essa visão fez com que Tolstói criticasse o Estado e desenvolvesse uma experiência de vida comunitária em sua propriedade rural Yasnaya Polyana. Para ele o anarquismo não violento era a única solução para o problema social.

Mohandas Gandhi (1869 – 1948), o lider indiano que libertou a India dos colonizadores ingleses, se envolveu ainda muito jovem com o movimento pelos direitos civis na África do Sul. Influenciado pelas ideias de Tolstoi, Thoreau, pelo budismo e o cristianismo, ele desenvolveu uma estratégia de resistência pacifica para desafiar o poder estabelecido do Império Britânico sobre a Índia. O líder indiano se alinhava com a escola Advaitist Hindu que compreende que a alma individual e a realidade metafísica são uma coisa só (em contraposição a escolas como a Dvaita Vedanta que tem uma leitura dualista, que separa Deus de um lado e os homens de outro).

Martin Luther King Jr. (1929 – 1968), o pastor que liderou o movimento pelos direitos civis nos Estados Unidos. Ele usou a estratégia de organizar protestos não-violentos para expor a injustiça das leis segregacionistas (Jim Crow), aproveitando a cobertura das imagens televisionadas que mobilizaram a opinião pública. Foi criticado por outras frentes do movimento negro que discordavam da ideia de integração racial pregada por King. Seus discursos/pregações faziam paralelos entre a causa dos direitos civis e os valores cristãos essenciais – “Consideramos essas verdades como evidentes: que todos os homens são criados iguais” (I have a dream).

Nelson Mandela (1918 – 2013), líder revolucionário, que lutou contra a hegemonia branca em um pais de maioria negra. Em 1952 ele e outros membros do Congresso Nacional Africano (movimento pró população negra), fazem manifestações de desobediência civil, usando espaços reservados aos brancos como banheiros públicos e correios. O CNA é proibido, Mandela vai para a clandestinidade, abraça táticas de guerrilha e é preso em 1963. Sai da prisão em 1990 (27 anos encarcerado), depois de negociar o fim dos conflitos entre negros e brancos. É eleito presidente da Africa do Sul sob a bandeira do perdão e da reconciliação entre brancos e negros. 

É interessante notar os cruzamentos entre esses personagens. Tolstoi trocou cartas com os quakers norte americanos adeptos das ideias transcendentalistas. O hinduísmo (especialmente o Bhagavad Gita) inspirou tanto Thoreau quanto Tolstói e o hindu Gandhi leu os escritos de ambos os autores. Gandhi se envolveu com o inicio da luta pelos direitos civis na Africa do Sul, o mesmo movimento que mais tarde teria a participação de Mandela. O fundo que financiou as ações de desobediência civil lideradas pelo Dr. King nas cidades de Albany, Birmingham e Selma, recebeu o nome de Gandhi Society for Human Rights (Sociedade Gandhi para os Direitos Humanos).

rosenberg.jpgNa segunda metade do século XX, as ideias existencialistas (que centrou a filosofia na existência do indivíduo), e a psicanálise (que mergulhou no inconsciente e nas forças invisíveis que nos movem), abriram outras possibilidades para a não-violência. O psicólogo Marshall Rosenberg (que fôra aluno do pai da psicologia humanista – Carl Rogers), percebeu que a linguagem humana era carregada de violência. Ele desenvolveu uma técnica de observação e desconstrução da linguagem e criou a comunicação não-violenta (CNV).

A CNV é ao mesmo tempo uma terapia (um olhar para si mesmo) e uma forma de educação (dos sentimentos). Para Marshall a linguagem humana se formou em um contexto de avaliação de ameaças (julgamento), essencial para a sobrevivência da espécie humana em um ambiente inóspito, e portanto não foi desenhada para comunicar sentimentos. Hoje na realidade urbana, cercada de confortos e em busca de uma felicidade imaterial, nossa linguagem nos atrapalha e cria ruídos na comunicação.

Os passos da CNV desenhados por Marshall são:

  • Observação (sem avaliação / julgamento) – pode ser a observação de nossa própria forma de falarmos, ou da forma como o outro fala conosco. Por exemplo quando falamos para alguém – Você não tem jeito mesmo! – existe algo por trás dessa frase que não foi comunicado de forma clara.
  • Sentimento – é preciso descobrir qual o sentimento que está motivando a fala. No caso da nossa própria fala, essa investigação é interna. No caso da fala do nosso interlocutor, precisamos ajuda-lo a encontrar esse sentimento essencial, reformulado sua fala para que ele mesmo ouça o que está querendo dizer. Seguindo o mesmo exemplo podemos dizer – Eu estou desapontado! – que é o sentimento por trás da primeira frase. Importante: o sentimento é sempre responsabilidade de quem o sente, portanto a frase não pode ser – Você me desapontou!
  • Necessidade – sabendo qual o sentimento que motiva nossa fala (ou a fala do outro) precisamos descobrir qual a necessidade que não está sendo atendida e que motivou aquele sentimento. Ainda no mesmo exemplo, a necessidade tem que ser algo pontual (não genérico como – você não presta atenção em nada que eu digo).
  • Pedido – sabendo qual a necessidade que não está sendo atendida, temos que comunicar de forma clara e direta que gostaríamos de ter essa necessidade atendida. No exemplo devemos ir direto ao ponto – Eu gostaria que você parasse de beber.

Para Marshall todas as coisas que dizemos podem se resumidas em duas frases: “Por favor!” e “Obrigado!”. Ele entende que nossa comunicação violenta é apenas uma máscara e que no fundo queremos comunicar nossa necessidade de afeto / presença / compreensão e nossa gratidão por todas essas coisas. Mas para chegar a esse conceito ele partiu de uma ideia específica sobre o que é o ser humano.

Gandhi acreditava que os soldados britânicos parariam a agressão aos cidadãos indianos quando vissem que estes não estavam revidando, nem sequer se defendendo. Dr. King sabia que a opinião pública ficaria do lado dos negros quando vissem os jatos d’água, os cães e as agressões contra pessoas pacíficas e desprotegidas. A empatia, a essência humana naturalmente boa, cooperativa e gregária é a premissa da não-violência em todas as suas manifestações. A igualdade entre todos os homens e, mais ainda, a noção de que somos parte de um todo comum (que podemos chamar de Deus), é a base desse conceito que tanto agitou o século passado e que tem muito a contribuir para a construção de uma identidade planetária sustentável e de paz.

 

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