Guerra cultural – como inventar inimigos e manipular pessoas

inbound-vs-outbound-marketing-does-it-really-have-to-be-a-battle-833x352O escritor George Orwell, pouco antes do final da II Guerra Mundial, criou uma fábula para contar a revolução bolchevique que implantou um comunismo na Rússia e seus desdobramentos. No livro A Revolução dos Bichos somos apresentados aos animais da Granja do Solar, que cansados da exploração dos humanos, fazem uma revolução proletária, que começa romântica, igualitária e fraterna, e vai ficando cada vez mais sombria, autoritária e violenta.

O mote principal da narrativa é mostrar a receita do totalitarismo (que funciona para qualquer ideologia política). Elege-se um inimigo externo (os humanos, no caso da fábula), inventa-se um inimigo interno (um animal traidor do movimento), pela causa se incentiva que todos os cidadãos se vigiem e se denunciem mutuamente, elege-se uma casta de líderes defensores dos valores da causa e cria-se uma força policial (a KGB no mundo real) que pune rigorosamente todos aqueles que se opuserem ao regime (mesmo sem provas, já que basta a delação do vizinho ou a convicção do juiz). O medo de ser injustamente denunciado, o terror de não saber o que é verdade e o que é mentira, faz com que todos se agarrem a um fanatismo que os transforma em massa de manobra.

Essa mesma receita foi usada pelo nazismo (que aliás se opunha ao comunismo e o combatia). Também um inimigo externo (judeus que na verdade eram internos e externos ao mesmo tempo), só que aqui com um viés nacionalista (povo alemão = raça pura). Uma força policial (SS), uma política de extermínio (limpeza étnica), tudo baseado em notícias e narrativas falsas. Ao longo do século XX, a “receita” foi se aperfeiçoando, se infiltrando na cultura (que agora é globalizada), e hoje aparece em teorias conspiratórias que servem de estratégia para as guerras culturais do século XXI.

A teoria da conspiração segue a cartilha de sistema fechado do totalitarismo, mas com características peculiares – o inimigo é invisível (um grupo que trabalha nas sombras manipulando as massas ou os acontecimentos históricos). Qualquer fato que prove que a conspiração é uma mentira é imediatamente usado para reafirmar a teoria que se retroalimenta e  passa a ser um ato de fé daqueles que a seguem. Funciona assim – se eu afirmo que forças ocultas estão controlando um determinado assunto e eu digo que vou expor essa manipulação, qualquer coisa que venha a dar errado nessa minha tentativa de expor a verdade será vista como resultado da ação sabotadora dessas forças ocultas (e não resultado da inexistência de uma conspiração). Se existe uma sabotagem deliberada, existe a conspiração. Minha tentativa frustrada de provar que a conspiração é real é a prova da realidade dela. Isso faz com que seja impossível provar a teoria da conspiração, ou então que seja impossível descartá-la. Os fatos que negam a teoria passam a ser vistos não como fatos mas como uma outra teoria que usa as mesmas estratégias de dissimulação e relativização da verdade.

Usando essa tática de guerrilha de ideias já se tentou negar o Holocausto (assistam ao filme Negação para saber mais), já se atribuiu o controle do sistema financeiro mundial aos Templários / Maçonaria / Iluminatti que, além de tudo, desenvolvem patologias em laboratório para exterminar parte da população. O livro Os Protocolos dos Sábio do Sião foi uma dessas histórias fabricadas que serviu como “prova” para a escolha dos judeus como inimigos pelos nazistas. Hoje com a ascensão do conservadorismo político, a narrativa conspiratória é a que diz que a Escola de Frankfurt (de intelectuais na maioria judeus, que fugiram do nazismo e desenvolveram suas ideias nos Estados Unidos), juntou ideias marxistas com psicanálise e psicologia para doutrinar as massas e destruir o capitalismo ocidental. É dessa teoria da conspiração que derivam a “ideologia de gênero” que quer destruir a família tradicional burguesa, a doutrinação marxista que quer destruir os valores morais cristãos da sociedade (aqui entra a Escola sem Partido). E ainda tem as que falam de raças alienígenas infiltradas, URSAL, crianças índigo, data limite, etc.

Por mais que pareça complexo, a estrutura por trás desses sistemas fechados é bastante simples – eu sou bom e o outro é mau. A polarização é tamanha que é muito comum o “bem” começar o argumento contra o inimigo dizendo que antes de tudo é preciso ficar atento porque os maus vão acusar os bons de serem maus, e que essa acusação é a prova de que eles são maus (só que se por um instante você imaginar que quem está dizendo isso é na verdade alguém mau, é impossível saber a verdade).

Mas então como não inventar inimigos e enganar pessoas? Como não comprar uma narrativa fechada que se fortalece com as críticas e trata seus adeptos como fiéis de uma crença religiosa? A resposta é trabalhosa – precisamos entender que as coisas são complexas. Todas as teorias da conspiração, totalitarismos e fake news se baseiam em verdades para construir uma base crível para seus vôos delirantes. Separar o que é fato do que é ficção não é tarefa rápida, mas é possível para qualquer pessoa. Hoje, o acesso à informação, que causa tanta desinformação, também nos abre para um mundo de conhecimentos sólidos e bastante aprofundados.

Esse vídeo, por exemplo, do canal Leitura ObrigaHistória, que mostra com detalhes as diferenças e as nuances entre os conceitos de Esquerda e Direita, deixa claro que o debate raso e emocional das redes sociais não tem sentido nem verdade. No whatsapp, o mesmo jornal um dia é de esquerda e no outro é de direita, ao vento dos humores de quem escreve e vitaliza o meme. Vejam como o Icles Rodrigues nos apresenta o assunto:

O mesmo George Orwell escreveu poucos anos depois de A Revolução dos Bichos, seu magistral livro – 1984. Nele, o autor imagina o futuro do totalitarismo, onde câmeras e telas controlariam cada gesto cada pensamento de seus cidadãos. Na sequência de abertura de uma adaptação para o cinema (que foi feito no mesmo ano do nome do filme), vemos o uso do patriotismo (hino, bandeira) para criar a sensação de pertencimento, nomeia-se o inimigo externo (Eurásia) e a guerra (inventada), incentiva-se o ódio ao inimigo interno (Goldstein – não por acaso um nome judaico), terminando com a imagem do grande líder (o Grande Irmão – Big Brother), que olha por todos, que faz o papel de pai para aquela massa de adultos infantilizados.

Na história a novalíngua (conjunto reduzido de vocabulário imposto pelo grande irmão para restringir o pensamento das pessoas), expressa o lema do partido – Guerra é Paz! Liberdade é Escravidão! Ignorância é Força! A profunda contradição é a marca do sistema fechado do totalitarismo. E nós nos entregamos de corpo e alma porque somos guiados pela irracional necessidade de pertencimento, pela busca por um pai que nos dê aprovação. Entregamo-nos às sombras com as melhores e mais puras intenções. Já passou da hora de amadurecermos.

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