Pode o macho alfa mudar o mundo?

xtiao.jpg.pagespeed.ic.DCj_Xc2TgJO estudo do comportamento de chimpanzés, babuínos, bonobos e outros primatas, forjou o conceito de macho alfa. Já o uso que nós seres humanos fazemos desse conceito é bem diferente da ideia original. O biólogo evolucionista Frans de Waal, responsável pela popularização do termo “macho alfa”, nos fala nesse TED (abaixo) sobre a real dimensão desse comportamento. Quando simplificamos o conceito, matamos nossa essência.

A internet e as livrarias estão cheias de vídeos e títulos sobre lições de como ser um alfa. O objetivo desses conteúdos vai da conquista sexual à liderança no mundo dos negócios, sempre enfatizando a prosperidade e a consequente felicidade como resultados inescapáveis para aqueles que conseguirem esse status. Essa simplificação do senso comum que associa a ideia de alfa a um comportamento agressivo, impositivo, predatório, tóxico, provedor, protetor e superior, não lida com os custos dessa posição.

Para Frans de Waal são duas as características principais do macho alfa (dessas que o nosso senso comum negligencia). A primeira delas é a incumbência de trazer paz para o grupo. As condições que levam um indivíduo a posição de alfa variam e por isso não é obrigatoriamente o mais forte e mais agressivo que chega a esse posto. Muitas vezes o alfa é alguém que construiu relações que garantem sua posição, que é constantemente ameaçada por mudanças nas alianças. O estresse resultante da posição sempre alerta para desmontar conluios e agradar aliados é o fardo pesado. O alfa vive um ciclo constante de conspirações, batalhas pela posição, restauração da ordem, manutenção da paz e novamente prenúncios de guerra.

A outra é a empatia, que entre os símios é uma atividade essencialmente das fêmeas. É papel do macho alfa separar as brigas e ser justo (defender o lado mais fraco), independente das relações, parentescos e alianças políticas que ele tenha estabelecido no grupo. Outra obrigação é estar presente nas tragédias e acolher os que sofrem (que apanharam, que perderam parentes ou amigos).

O educador Jackson Katz trabalha com homens com temas como violência doméstica e abuso sexual (que em geral são tratados como assuntos que afetam o gênero feminino). Ele nos mostra como a linguagem humana camufla a responsabilidades de grupos privilegiados e passa a associar a vítima com a própria violência.

No seu TED (acima) ele mostra como a frase “João bateu em Maria” vai se transformando em “Maria apanhou de João”, depois em “Maria foi agredida” até chegar em “Maria é uma mulher que sofreu agressão”. O homem que no início é o protagonista da ação, desaparece da cena e sobra apenas Maria, não mais uma pessoa, mas uma vítima (“mulher que sofreu agressão” passa a ser o rótulo que colamos nela). É essa mesma linguagem que reinterpreta o termo “macho alfa” e apaga dele características essenciais como “acolhedor”, “conciliador” e “justo”.

Para Katz, o comportamento dos homens tem que ser debatido e ressignificado pelos próprios homens. É obrigação dos chefes das instituições, dos treinadores dos times, dos lideres religiosos (que fazem o papel equivalente aos indivíduos alfa dos grupos de primatas), trazer esse debate para seus membros. Especialmente diante de meninas e meninos que estão crescendo e buscam modelos de comportamento para se espelharem, a liderança alfa (no sentido correto do termo), tem que fazer seu trabalho primordial de defesa do mais fraco, de acolhimento das dores e inseguranças e de busca de conciliação e paz. O papel do homem pode ser nobre e transformador, mas para isso temos que nos responsabilizar. Se somos o sujeito da frase temos que nos fazer presentes.

 

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