A estupidez humana moldando a história segundo Yuval Noah Harari

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O historiador israelense Yuval Noah Harari, autor dos livros Sapiens: uma breve história da humanidade, e Homo Deus: uma breve história do amanhã, junta ciência, história e filosofia para nos falar de nosso passado, nosso presente e possível futuro. Nesse TED de 2018, ele fala sobre o que é exatamente o fascismo e como ele se apresenta no nosso mundo hoje.

Yuval começa com uma distinção importante entre nacionalismo e fascismo: “o nacionalismo me diz que minha nação é a única e que tenho obrigações especiais com ela. Já o fascismo me diz que minha nação é suprema e que tenho obrigações exclusivas com ela”. No mundo globalizado e ultra conectado em que vivemos, tanto o nacionalismo quanto o fascismo são problemáticos, já que os indivíduos se identificam (e portanto compõem sua identidade) com ideias e valores que transcendem fronteiras físicas, como a religião, por exemplo, ou a música, a sexualidade, etc.

Mas ainda que nacionalismo e fascismo sejam problemáticos, o nacionalismo tem consequências positivas (sentimento de pertencimento, comunidade) que podem resultar em políticas de maior igualdade de condições para todos os seus cidadãos (claro que quanto menor for a diversidade étnica do país, mais fácil é esse caminho positivo). Já o fascismo é alimentado pelo medo, o ódio ao inimigo e a total submissão dos indivíduos à nação (ou a uma ideia bastante simplória e limitada de nação), rotulando seus próprios cidadãos como “de bem” em oposição aos “vagabundos”. Quanto mais diversidade étnica, mais fronteiras abertas, mais abismo social tem o país, mais tentador é o discurso fascista.

O ponto mais difícil de compreender é que o que chamamos de “mal”, representado como metáfora em figuras como Voldemort (vilão de Harry Potter), não aparece no mundo real como uma imagem amedrontadora. Enquanto no filme o vilão é cruel e desprezível inclusive com seus parceiros de crime, em nosso mundo, aqueles que lideram as massas contra um inimigo fabricado, massageiam o ego de seus seguidores fazendo com que a imagem que eles vêem no espelho seja a mais bela e mais pura de todas.

A análise do psicanalista Christian Duker sobre o discurso de líderes como o candidato à presidencia da República, Jair Bollonado, é bem claro. Já falei aqui sobre o papel do MITO na política. É interessante notar que o candidato é conhecido pelo apelido de “mito”, portanto de alguém que não é nada mais que uma fantasia, uma narrativa construída que fala aos nossos instintos e medos mais básicos.

Mas o ponto mais importante para Yuval é entendermos onde estão as fronteiras hoje. No passado, governos e oligarquias lutavam pelo controle da terra para exercer seu poder. Depois as máquinas (indústria) passaram a ser mais importantes que a terra. Hoje, a informação é mais importante que a terra e que as máquinas. A disputa agora é pelo controle da informação e o seu fluxo, e governos (China, por exemplo) e corporações (Google) concentram o acesso e a circulação de dados.

O perigo dessa nova fronteira é a ameaça que ela representa para a democracia. A concentração (de terra e de máquinas) foi derrotada, ou pelo menos enfraquecida, pela democracia (com a vitória dos países aliados sobre o fascismo dos países do Eixo, na Segunda Guerra Mundial). Mas a concentração da informação, seja pelo monopólio das empresas como Google e Facebook, que determinam o fluxo dos dados através de seus algoritmos, seja pela capacidade da Inteligência Artificial de processar dados e nos entregar verdades prontas muito acima da nossa capacidade crítica, não tem na democracia (pelo menos não nesse modelo de democracia que temos), uma oposição à altura.

Nas palavras de Yuval: ” se algo pode manipular as emoções das pessoas de forma eficiente, a democracia vira um teatro de marionetes”. Nossa fraqueza diante da concentração de poder de governos e oligarquias (para Yuval são as corporações que hoje nos governam efetivamente), é nossa falta de conhecimento sobre nós mesmos e sobre o mundo. Sem autocrítica, sem terapia, sem educação que estimule o questionamento e a investigação, nós estamos entregando nossa liberdade para uma corporação/governo que vai manipular nossas emoções e desejos mais profundos, nos fazendo acreditar que esse ser no espelho é nosso eu autêntico.

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