Distopias – hipersexualização e identidade de gênero

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A sociedade contemporânea não esconde mais nada. Tudo que era hipocritamente sagrado no passado vem caindo por terra no nosso tempo de comunicação instantânea de milhares de vozes nas redes sociais. Mas os comportamentos que foram construídos culturalmente ao longo de milênios são muito difíceis de serem superados. O primeiro passo sempre é reconhece-los, e por isso eu faço a pergunta – existe justiça (não igualdade, mas sim justiça, ou seja, equidade) na maneira como homens e mulheres experimentam a relação e o prazer sexual?

A jornalista Peggy Orenstein publicou em 2017 o livro “Garotas & Sexo” que investiga o contexto vivido por garotas adolescentes norte americanas em relação ao sexo. Em entrevista a Folha de São Paulo, a autora diz que para as garotas não existe uma conversa sobre o prazer. A genitália feminina é, na maioria das vezes, não nomeada pelos pais e responsáveis das meninas na educação em casa, e na escola enquanto se fala sobre ereção e ejaculação em relação a genitália masculina, sobre elas o foco é menstruação e gravidez. Em um trecho de seu livro ela compara essa característica cultural / educacional dos norte americanos com a abordagem dos holandeses:

“As meninas holandesas disseram que as professoras e os médicos falaram francamente com elas sobre sexo, prazer e a importância de uma relação amorosa. Mais que isso, no entanto, havia uma diferença radical em como seus pais abordavam esses assuntos. As mães americanas se concentravam nos riscos e danos potenciais do sexo, enquanto seus pais, quando diziam alguma coisa, ficavam com as piadas sem graça. Os pais holandeses, em contrapartida, falavam com suas filhas desde pequenas sobre as alegrias e responsabilidades da intimidade”

As consequências dessa abordagem são todas problemáticas. As meninas não tem uma auto-imagem positiva, tem uma visão muito crítica sobre a própria genitália e o próprio corpo. A sociedade reforça essa leitura com sabonetes íntimos para mascarar odores, depilação total (para que pareça limpa ou infantil), e até cirurgias plásticas para diminuir, esconder, camuflar. É interessante o paralelo que a autora faz com a depilação de axilas e pernas. Nos anos 1920 esse tipo de depilação ganhou terreno por causa dos trajes de banho que mostravam mais o corpo feminino. Uma vez exposto, o corpo das mulheres passou a ser julgado e regulado culturalmente. Naquele contexto a relação de força entre os gêneros tinha pouco espaço para questionamentos, mas hoje o mundo é outro.

Essa difícil relação das mulheres com seu próprio corpo, construída culturalmente e muito arraigada na sociedade, leva a distorções. Hoje, com a luta pela igualdade entre os gêneros, a hipersexualização das mulheres é vista como uma forma de empoderamento feminino. A sedução deixa de ser uma estratégia de sobrevivência (num mundo masculino opressor) e passa a ser uma forma de afirmação de gênero. O problema da hipersexualização é que os elementos que a estruturam foram todos estabelecidos pela cultura que julga e regula o corpo feminino, determinando padrões e na maioria das vezes negando a natureza desse corpo.  Em outro trecho do livro ela diz:

“Mulheres jovens crescem em uma cultura mercantilizada saturada de pornografia e centrada na imagem, na qual o ‘empoderamento’ é apenas um sentimento, o consumo prevalece sobre a conexão, ser ‘gostosa’ é um imperativo, a fama é a principal conquista e a maneira mais rápida de uma mulher ter sucesso é servir-se de seu corpo antes que alguém o faça.”

A ideia não é abolir maquilagens, tinturas de cabelo, cremes e procedimentos estéticos. O ponto aqui é fazer com isso possibilidades lúdicas de brincar com a aparência e não procedimentos obrigatórios que vão trazer aceitação social e aceitação sexual. A bulimia e outros distúrbios alimentares, o bronzeamento e alisamento do cabelo que colocam a saúde em risco, são alguns dos exemplos de quão tóxica é essa relação distorcida com a própria aparência.

A autora se fixa na questão do direito ao prazer sexual e compara a resposta de meninos e meninas. Para eles o orgasmo é a medida do prazer, para elas a ausência da dor ou o prazer do parceiro determinam o sucesso da experiência. Muito pouco, muito triste. Nas relação homossexuais entre meninas essa desigualdade desaparece. Por que não pode ser assim também entre casais heterossexuais? Não questionar e debater isso é condenar as meninas a uma vida fragmentada.

A abordagem de Peggy Orenstein é sobre identidade de gênero (que é o estudo sobre as influências simultâneas da biologia e da cultura nos papeis de gênero que vivenciamos), e não sobre “ideologia de gênero” (que é uma construção falsa que serve apenas de bandeira para radicalizar o debate sobre sexualidade, de um lado para proibir e de outro para relativizar completamente). Se as nossas próprias travas psicológicas (construídas culturalmente) nos fazem acatar impulsivamente a falácia da “ideologia de gênero”, numa tentativa de protejer nossos filhos, proteger a moral, proteger os valores, acabamos reforçando papéis de gênero que são opressivos e desumanizantes.

Na escola e nas famílias é a identidade de gênero que precisa ser discutida. A internet e toda a informação e padrões de comportamento que desfilam por ela, são apenas um espelho da sociedade. Se quisermos construir um novo mundo temos que fazer a escolha consciente de tratar esses assuntos com abertura, mesmo que essa abertura abra a caixa de pandora de nossos próprios sentimentos de inadequação. Superar o passado não é apenas um processo natural de uma geração depois da outra. É uma escolha ativa. Vamos a ela sem medo!

 

2 respostas para ‘Distopias – hipersexualização e identidade de gênero

  1. Excelente suas provocações, nos faz pensar que a ação de produzir a si próprio, debruçar sobre si mesmo ressignificando-se, demanda um esforço contínuo e complexo para dimensionar o que pode e deve fazer consigo mesmo. Trata-se de uma prática ativa na perspectiva do “cuidado de si”…a problematização da subjetividade humana, através da prática de si. Uma prática de “parrhésia”…que en/laça a questão do conhecimento e do cuidado de si…

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  2. Excelente texto, Maurício – aliás, recorrente. Tema importante e necessário abordado por você de maneira clara e direta. Muito obrigada. É sempre prazeiroso e produtivo ler suas colocações.
    Abraços fraternos, Patrícia

    Curtido por 1 pessoa

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