Karoshi – morte por excesso de trabalho

“Não são cadáveres! São trabalhadores dormindo nas ruas de Tóquio depois de um longo dia de trabalho” É com essa frase e com imagens de homens deitados no chão das ruas e estações de metro de Tóquio que a cineasta e documentarista Allegra Pacheco nos fala sobre o fenômeno do KAROSHI – morte por excesso de trabalho. Recentemente, o suicídio de uma jovem de 24 anos mobilizou a opinião pública e o governo japonês que finalmente tomou medidas oficiais (pouco efetivas) para tentar conter casos como esse. Por ano, mais de 2.000 suicídios são relacionados a excesso de trabalho.

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No Japão e em outros países asiáticos com a China e a Coreia do Sul, a cultura do trabalho em excesso pode ser explicada pela necessidade desses países acelerarem seu desenvolvimento econômico após a Segunda Guerra Mundial, mas também a características culturais como a transferência da figura de autoridade do imperador para a autoridade da empresa. Na reportagem do NOW THIS NEWS, o professor Thomas Looser, da Universidade de Nova York,  nos fala que o milagre econômico japonês entre as décadas de 1960 e 1980, quando o país era a segunda economia do mundo, transformou o Karoshi num problema de saúde púbica.

Na decada de 1990, a bolha econômica japonesa estourou e uma série de recessões marcaram o país. Nesse cenário negativo, o problema se agravou. O desemprego, o aumento da incerteza em relação à carreira, e a crescente substituição de mão de obra por tecnologia, criaram uma mentalidade de ansiedade e de dedicação desesperada ao trabalho. As estatísticas de suicídio, estresse e depressão escalaram. O consumo de álcool, na tentativa de anestesiar o corpo e a mente da pressão do trabalho.

Hoje os números sobre excesso de trabalho no Japão são alarmantes. Aproximadamente 23% dos trabalhadores acumulam mais de 80 horas de trabalho extra por mês. São esses mesmo trabalhadores que têm alto risco de morte, como resultado de ataque cardíaco, estresse, doenças relacionadas ao uso abusivo de álcool, e suicídio. A jovem de 24 anos que pulou de um prédio depois de ter postado nas redes sociais que estava se sentindo fisicamente e mentalmente destruída, havia acumulado 105 horas extras num só mês.

Nos Estados Unidos, 25% dos trabalhadores acumulam mais de 60 horas extras por mês. Ainda que a pressão cultural seja diferente, quando comparamos ocidentais e orientais, as doenças relacionadas ao excesso de trabalho também já afetam uma parte significativa da população mundial (no resto do mundo, o termo para essa condição é BURNOUT). Ainda que o caso japonês seja agudo, as novas modalidades de trabalho no século XXI, como o trabalho intermitente, o home office e o trabalho temporário, são catalisadores de adoecimento mental e físico.

De um lado, baixos salários (especialmente em países que tem na média um grau baixo de escolaridade), não ter a segurança de uma carreira (que em tese garante a continuidade do trabalho e do salário), ou de proteções garantidas pelo Estado como o seguro desemprego, entre outras políticas sociais, fragilizam os trabalhadores. De outro lado, a revolução tecnológica (conhecida como 4.0) que tem substituído a mão de obra humana (principalmente em trabalhos que exigem apenas formação técnica), e permite que o trabalho seja feito a distância, por exemplo, é um contexto global inescapável.

Precisamos encontrar outras formas de estabelecer e nutrir relações de trabalho, para não passarmos por cima de massas de trabalhadores no mundo todo. Grandes nomes ligados ao desenvolvimento de tecnologias que são a base dessa revolução 4.0 vem propondo alternativas para essa nova conjuntura. Bill Gates da Microsoftt propõe que os trabalhos que sejam executados por máquinas sejam taxados (impostos altos), para que  se criem programas de formação e empreendedorismo. Elon Musk da Tesla e Mark Zuckerberg  do Facebook defendem a ideia de uma renda mínima universal para que as necessidades básicas de todas as pessoas sejam atendidas, diminuindo assim a ansiedade e o estresse do desemprego.

Estamos passando por mudanças profundas em duas frentes. Por um lado ampliamos cada vez mais nossa consciência sobre causas e consequências relacionadas à nossa alimentação, estilo de vida, desenvolvimento da personalidade, empatia, resiliência, trauma, etc. Por outro, a tecnologia vem mudando a forma como nos relacionamos com o tempo, com os outros e com nós mesmos. Nunca na história passamos por mudanças tão profundas, ao mesmo tempo em que sabemos tanto. Por tudo isso, a responsabilidade das escolhas que vamos fazer nunca foi tão nossa.

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