Utopias – pobreza é falta de dinheiro

Por que as pessoas pobres fazem tantas escolhas ruins? Elas fazem mais empréstimos, economizam menos, fumam mais, se exercitam menos e bebem mais. Por quê? Com essa pergunta, o historiador e escritor Rutger Bregman nos provoca a pensar que manter as pessoas na pobreza é uma escolha política insustentável, em sua coluna sobre utopias para o jornal inglês The Guardian.

Bregman nos conta que Margaret Thatcher chamou a pobreza de um “defeito de personalidade”. Ele mesmo acreditava nesse tipo de julgamento moral há alguns anos,  quando começou a se debruçar sobre o tema. O resultado de uma pesquisa sobre o QI de agricultores que produzem mais de 60% de sua renda anual em poucas semanas (na venda da colheita), e que portanto passam boa parte de tempo na pobreza e outra na abundância, apontou para o ponto crucial: o contexto. Os mesmos agricultores pontuavam em média 14 pontos de QI a menos antes da colheita (no momento de maior escassez). Esse resultado é comparável ao de pessoas que sofrem de privação de sono ou efeitos do alcoolismo.

A explicação para essa variação na medição do QI dos agricultores, que Bregman discutiu com o professor de ciência comportamental e política pública da Universidade de Princeton, Eldar Shafir, é que as pessoas se comportam de forma diferente quando percebem que uma coisa é escassa, não importando se é dinheiro ou comida. Quando se perde a perspectiva de longo prazo, tomamos decisões ruins porque o contexto nos leva a isso. 

A partir dessa conclusão, soluções como investimentos em educação, oficinas de empreendedorismo e de educação financeira tem pouca efetividade, se o contexto continua sendo o mesmo. Dizemos que não adianta dar o peixe, precisamos ensiná-los a pescar, e depois atiramos os nossos alunos recém formados em pescaria no meio do mar tempestuoso, em suas jangadas frágeis, empunhando uma vara de bambu.

A ideia defendida por Bergman é incrivelmente simples: renda básica universal – um subsídio mensal suficiente para pagar suas necessidades básicas: comida, abrigo, educação, e que é completamente incondicional: não é um favor, mas um direito. Mas essa ideia não é  nova e também não é de “esquerda” ou de “direita”. Thomas More já apontou para essa possibilidade em sua obra UTOPIA, há mais de 500 anos, e sua aplicação já foi defendida pelo ativista dos direitos civis Martin Luther King e pelo economista Milton Friedman, para citar dois exemplos de espectros opostos.

Em sua participação no TED (vídeo acima), Rutger Bergman cita algumas experiências de renda básica que aconteceram ao redor do mundo, especialmente um caso no Canadá, que foi muito bem documentado. Os resultados dessas experiências são sempre positivos e se impõem quando pensamos no impacto negativo (custos médicos, por exemplo) que a manutenção da extrema pobreza gera. A possibilidade de erradicarmos a pobreza tem ressonâncias em outras questões como nossa relação com o trabalho, a ideia de igualdade entre homens e mulheres e a própria democracia.

George Orwell (autor de “1984” e “A Revolução do Bichos”) dizia que a problema da pobreza é que ela destrói o futuro, e que a reação das pessoas em relação àqueles que são pobres é de superioridade moral e intelectual (e isso não é construtivo, é apenas um julgamento que rotula e diferencia). Diante de todas essas constatações e evidências, o caminho que podemos escolher seguir é o da igualdade (de direitos, de condições, de oportunidades), mas só podemos fazer isso coletivamente (como sociedade).

Para Bergman, é o momento de idéias novas e radicais, assim como já foram ideias radicais (fantasias utópicas) o fim da escravidão e a democracia. Meio milênio depois de Thomas More, precisamos atualizar nossa visão de mundo. A pobreza não é falta de caráter. A pobreza é falta de dinheiro.

Mauricio Zanolini

 

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