Mentira como habilidade e verdade como escolha

Kang Lee estuda o desenvolvimento humano, especificamente o processo pelo qual as crianças aprimoram sua capacidade de mentir. A mentira é uma habilidade complexa que envolve autocontrole e a capacidade de saber que a outra pessoa não sabe algo que  eu sei. Nesse sentido, contar bem uma mentira revela antes de tudo o completo domínio da comunicação. Antes de ser uma falha de caráter, é um estágio importante no desenvolvimento social do indivíduo.

As habilidades que desenvolvemos e aprimoramos desde o útero até a morte, são consequências de nossas capacidades biológicas e de nosso contexto social. Mentimos porque podemos, porque temos a capacidade para fazê-lo. Mentimos para imitar o comportamento dos que nos cercam e assim nos sentirmos parte do grupo. Mentimos para nos destacar, para nos proteger, para conquistar, para destruir.

O economista comportamental Dan Ariely nos mostra através da descrição de inúmeras experiências que ele conduziu por anos, que existe uma forte disposição ao autoengano diante das pequenas corrupções cotidianas. A maioria de nós flexibiliza a linha que separa a verdade da mentira em função da oportunidade, da existência ou não de um controle externo, do comportamento daqueles que reconhecemos como iguais a nós e da percepção das consequências de nossas ações.

Talvez o aspecto mais interessante da pesquisa de Ariely seja o que mostra que quando nós somos lembrados de que existem códigos de conduta, sejam regras de uma instituição ou os dez mandamentos da lei mosaica, a linha entre verdade e mentira fica novamente rígida e não ousamos ultrapassá-la. Mesmo que ninguém nos vigie, mesmo que outras pessoas pareçam não se importar e se aproveitem da ocasião, diante de um modelo moral nós paramos e consideramos as opções com mais densidade.

Na Coreia do Sul, o país com a maior taxa de suicídio da OCDE (Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico), sinais luminosos foram colocado ao longo do parapeito de uma ponte que era muito usada por suicidas. As luzes acendem quando as pessoas se aproximam e revelam frases como: “Vá ver as pessoas de quem você sente saudade”, “Os melhores momentos da sua vida ainda estão por vir”, “Como você gostaria de ser lembrado?”. A taxa de suicídios naquela ponte caiu em 85%.

Códigos de ética, leis morais e sinais luminosos são formas diferentes de nos mostrar que não estamos sós, que nossas vidas só têm sentido em relação a outras vidas e que nossa ação no mundo afeta aqueles que nos cercam. Mais do que nosso desejo de pertencer que por vezes nos faz escolher a mentira, a consciência da responsabilidade diante do próximo e portanto diante de nós mesmos, nos inclina a abraçar a verdade.

Mauricio Zanolini

 

 

3 thoughts on “Mentira como habilidade e verdade como escolha

  1. Belo post meu caro Mauricio;

    Permita-me acrescentar o seguinte:

    Ainda há um quê de imaturidade social na mentira. Mentimos porque acreditamos que a verdade não pode ser dita, seja porque porque tememos reprovação seja porque não queremos magoar o outro. E fazemos isto porque não desenvolvemos ainda a plena consciência de cada um pode ser singular. Parte desse comportamento “mentiroso” se deve também ao fato de como as pessoas reagem frente a uma situação de conflito, da informação divergente, entre outras.
    Assim, vejo que buscar sempre a verdade também se relaciona muito com a maturidade.

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