As fronteiras e a necessidade de pertencimento

_101778105_01_portuguese_literal-translation-of-country-names_worldmap.jpgA VOX que se dedica a fazer o que eles chamam de “jornalismo explicativo”, produziu uma série de minidocumentários sobre diferentes fronteiras pelo mundo. Todas as histórias são surpreendentes, ainda que algumas sejam mais debatidas que outras pelos grandes conglomerados de mídia. Mas o que importa aqui é a mentalidade que é comum a todas essas histórias de conflito, de afirmação de identidade e busca por melhores condições de vida – a necessidade de pertencimento.

A série da VOX explora diferentes ângulos dessas relações tensas. No Japão acompanhamos uma população de descendentes de coreanos, cujos ancestrais foram arrancados à força de seu país de origem e escravizados. Com a derrota do Japão na II Guerra Mundial e a polarização da Guerra Fria que dividiu a Coreia em norte e sul, os coreanos residentes no Japão passaram a receber auxílio financeiro da parte comunista de seu país de origem. Isso deu para eles uma identidade (embora a maior parte deles não fosse originalmente do norte da Coreia). Hoje, o governo nacionalista do Japão (que no limite defende o retorno da glória do império japonês) corta financiamento para escolas, hostiliza e persegue essa população, que se agarra à sua identidade norte-coreana, idealizando um país que eles nunca viram.

Em outro episódio, olhamos mais de perto a fronteira entre o Haiti e Santo Domingo, dois países que dividem a ilha onde Cristóvão Colombo primeiro aportou em 1492. Os franceses, que colonizaram o lado que hoje é o Haiti, tratavam seus escravos arrancados da África com mão de ferro e distância (sem miscigenação). Do outro lado, os espanhóis  criaram estruturas políticas e administrativas que incluíam (ainda que essa inclusão seja carregada de injustiças) os nativos e os filhos miscigenados. O resultado dessas e de outras diferenças é um racismo baseado em diferenças de tom de pele mais ou menos escuro, disputa de grau de superioridade entre quem é pobre e quem é miserável, levando à expulsão, perseguição e violência.

Todos os episódios mostram que as fronteiras são limites arbitrários definidos por disputas, acordos e contextos que mudam com o tempo, mas que essencialmente demarcam uma linha que divide o espaço (físico ou psicológico), determinando identidades diferentes para cada lado. A proximidade dos indivíduos a essa linha aumenta a percepção deles sobre as diferenças que ela impõe, acirrando visões extremistas de identidade e de defesa de território que se somam a uma falsa sensação de segurança. A fronteiras são a manifestação física de um conceito abstrato onde todas as fragilidades humanas ficam expostas, de todos os lados.

A necessidade de pertencimento, ou como definiu Abraham Maslow (psicólogo norte americano), a sensação de ser um humano entre seres humanos, é uma condição anterior à necessidade de felicidade individual. O medo da solidão, de não ter essa necessidade de pertencimento atendida, é a base de nosso medo de falar em público assim como é parte do medo de morrer (por deixarmos o convívio com o outro por um isolamento no nada ou no desconhecido).

Quando atendida, a necessidade de pertencimento estimula nossos impulsos de fraternidade, acolhimento e cuidado. Mas esses aspectos positivos são sempre direcionados ao grupo que nos acolheu, ou ao grupo com o qual nos identificamos (times de futebol, ideologias políticas, religiões e identidades nacionais são apenas grupos com os quais nos afiliamos ou nos confrontamos). Ainda estamos longe de construir uma identidade humana que esteja acima dessas subdivisões e das falsas fronteiras que elas criam umas com as outras (temos que superar a divisão em Estados Nacionais, e isso depende de múltiplos fatores).

Mas a corrida espacial, a globalização e o aquecimento global podem ser a janela para a construção dessa identidade global. Estamos todos no mesmo barco, temos a mesma origem genética, dependemos tanto do planeta quanto uns dos outros. A educação é o caminho para forjarmos essa identidade cultural planetária, já que por mais óbvia que seja, ela não é intuitiva. Essa identidade não vai ser naturalmente absorvida por todos nós. Precisamos fazer essa escolha ativa. Temos todos os elementos para isso.

 

Imagem – O mapa do mundo com os nomes literais dos países foi encomendado pela firma Credit Card Compare, feito pela NeoMam Studios

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