Distopias – o terceiro mundo no coração dos Estados Unidos

1231Recentemente circularam pelas redes sociais imagens de partes de cidades como Los Angeles cheias de moradores de rua, sujeira e pobreza. Nada muito estranho para moradores de países “em desenvolvimento”, que eram conhecidos como “terceiro mundo” há pouco tempo. Mas no coração da maior potência mundial? O que aconteceu com os Estados Unidos? Segundo as Nações Unidas hoje são mais de 40 milhões de norte-americanos que vivem na pobreza, dos quais 18,5 milhões na extrema pobreza.

Em grande parte essas imagens são do bairro conhecido como Skid Row em Los Angeles (mas o mesmo acontece em Seattle, San Diego, San José e San Francisco). A história do bairro é peculiar e ilustra o tipo de solução que países que não enxergam a pobreza como consequência de suas políticas econômica e social, adotam para tentar “resolver” o problema. O bairro nasceu ao lado da linha ferroviária no início do século XX. Na década de 1970 a maioria dos moradores do bairro eram pobres, que moravam em apartamentos baratos ou em quartos de hotel. Então a administração da cidade resolveu elaborar um “plano de desenvolvimento” para o bairro (basicamente a ideia era expulsar os moradores e construir casas para um público mais rico). Só que a população de outras áreas da cidade ficou preocupada com o destino dessas pessoas – e se elas ocuparem as calçadas do meu bairro? O valor do meu imóvel vai cair!

Pressões dos moradores de outros bairros e de ativistas que defendiam a permanência dos moradores no bairro de Skid Row (afinal de contas muitas famílias já estavam lá há décadas), levaram à criação de um plano de contenção (literalmente). Estabeleceram limites físicos para o bairro e definiram estratégias para manter os moradores dentro dele. Alguns exemplos – todos os banheiros públicos foram retirados dos arredores do bairro, a iluminação das ruas no limite do bairro passou a ser mais forte, os bancos nas calçadas foram retirados dos arredores do bairro, a polícia fazia rondas periódicas nas ruas que delimitavam o bairro mas não entravam com freqüência em Skid Row. Tudo para desestimular os moradores a deixarem a área delimitada.

Essas medidas e o incentivo para que ONGs atuassem dentro do bairro atraiu um número ainda maior de população pobre para Skid Row. Nos anos 1980, a epidemia de crack, a “guerra contra as drogas” da administração Reagan e os cortes agressivos do governo ao sistema de bem-estar social, fizeram a população dos sem-teto explodir. As tentativas de rever o zoneamento do bairro para dar um novo destino econômico àquela área urbana (gentrificação – que se por um lado renova uma área degradada, por outro expulsa as pessoas que tem suas raízes naquele território), não avançaram. Uma das consequências do “plano de contenção” foi a consolidação do pensamento crítico e do ativismo em relação à pobreza e à falta de moradia naquela população.

Entre as causas atuais para esse aumento da população sem-teto estão novamente o aumento no consumo de drogas como crack e metanfetamina (aumento esse que tem também suas causas), os efeitos de longo prazo da crise econômica (de 2008), a gentrificação no entorno (que tem penalizado inclusive a classe média), e a reforma fiscal do governo Trump que diminuiu a rede de segurança social que o governo oferece. Em Los Angeles, especialmente o clima também é uma das causas, já que no inverno cidades mais frias como Chicago colocam seus moradores de rua em ônibus e os enviam para o clima mais ameno da costa oeste. Para um país que “deu certo”, o gerenciamento de seus bolsões de pobreza deixa a desejar.

A série documental Flint Town (Netflix) é outro exemplo do grau de pobreza que os Estados Unidos tem hoje em seu território. A cidade de Flint (próxima a Detroit, no Estado de Michigan), que há poucos anos sofreu com o fechamento da fabrica da General Motors, que era a responsável pela maioria dos empregos da pequena população da cidade, acumula estatísticas de cidade mais violenta e mais pobre do país. O que chama atenção na história é que o grau de participação democrática da população (que é maior que a nossa), a cobertura da imprensa (que é mais investigativa) e o debate político (que é mais programático), não são suficientes para alimentar decisões e escolhas racionais. Diante de uma situação aguda (de pobreza, de risco de morte, de instabilidade econômica), as decisões das pessoas são individuais, não coletivas. Pouca farinha, meu pirão primeiro.

A população quer ser vista e tratada como uma comunidade, mas não age como uma. A polícia tem uma mentalidade de autoproteção corporativa, mas seus membros não enxergam as diferenças de privilégio entre eles mesmos. Os políticos e os juristas se escondem atrás de regras e ritos, justificando a própria incompetência administrativa nas entrelinhas das petições e dos embargos. Enquanto isso, a cidade está em chamas, os jovens negros morrem como soldados numa guerra perdida, as crianças naturalizam a violência e o abuso, o ressentimento e o ódio crescem e consomem tudo.

E as soluções que vêm da mais alta instância governamental oscilam entre armar ainda mais a população, treinar os professores para matar seus alunos, expulsar estrangeiros e construir muros para reforçar a ideia de que o problema é sempre o outro. E o presidente do país segue cercado de escândalos sexuais, escândalos financeiros e escândalos políticos, e a massa que o idolatra continua fabricando justificativas e procurando valor moral onde só existe mau-caratismo. Quando isso acontece numa ditadura africana ou no bolivarianismo sul-americano, nos parece óbvio o engano, mas nos Estados Unidos soa distópico. O mais triste é que quando acontece por aqui na nossa terra, nós fazemos exatamente igual, nos cercamos de racionalizações sem darmos conta do ridículo, do contra-senso, da falta de humanidade.

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