Distopias – a resistência e a paralisia diante das muitas possibilidades

OPT

O historiador inglês Andrew Keen, autor de livros com previsões acertadas sobre a internet e a tecnologia, e crítico das grandes empresas do Vale do Silício, previu o crescimento das notícias falsas e o fim da privacidade. Em recente entrevista à Folha de São Paulo ele aponta que a eleição de Trump é um sintoma do uso que fazemos da tecnologia, alimentando nosso narcisismo, nossa obsessão pelo próprio ego e nossa incapacidade de ouvir.

Outro comentário dele diz respeito à falsa sensação de transparência e democracia que as redes sociais alimentam. Ele explica que as redes sociais enfraquecem a credibilidade e a verdade (o que leva a essa onda de fake news), porque geram um fetiche em torno de comentadores amadores, que minam nossa confiança em especialistas, curadores, profissionais e críticos. É a natureza democrática da rede social que nos levou a uma crise de confiança porque a tecnologia prometia transparência, mas o mundo se tornou mais opaco, com as megacorporações como Google e Facebook fazendo o que querem com os dados das pessoas, por exemplo.

Mas como uma coisa pode ser essencialmente democrática e ao mesmo tempo ser usada de forma tão oposta à sua própria natureza? Talvez esse outro caso nos ajude a criar uma hipótese sobre isso: os jovens que nem estudam e nem trabalham.

Segundo pesquisa recente do IBGE e do Banco Mundial, 11 milhões de jovens (25% dos brasileiros entre 15 e 24 anos) não trabalham nem estudam. As pesquisas qualitativas, que investigam os motivos da falta de engajamento deles com seu futuro descortinam um quadro muito mais complexo do que o rótulo negativo de geração “nem-nem” que esses jovens receberam. Nessa pesquisa é possível identificar subgrupos que têm desmotivações diferentes. A falta de perspectiva, que é resultado da falta de referências (muitos pais e familiares desses jovens não completaram o ensino fundamental), os papéis de gênero que impõe padrões (o estereótipo feminino tradicional de “dona de casa” e mãe que é ainda mais forte longe dos centros urbanos), e a dificuldade de acesso à informação (seja por falta de meios para acessar a internet, por exemplo, até a dificuldade de compreender os passos para se matricular no ENEM ou se cadastrar no SISU).

Nesse exemplo, a rede social (democrática) não chega a todos (lembrando que menos da metade da população brasileira tem acesso a internet), e quando chega entra em choque com uma cultura tradicional muito arraigada (como no caso dos papéis de gênero), ou encontra um público que não está preparado para a complexidade que esse acesso traz.

De um lado, a paralisia da chamada geração “nem-nem” pode ser vista como um sintoma, resultado do choque entre um mundo tradicional, com pouca ou nenhuma mobilidade, e uma realidade de múltiplas possibilidades, que sem mediação, soa como uma cacofonia ininteligível e amedrontadora. É compreensível essa reação de imobilidade e resistência.

De outro, as corporações que controlam as tecnologias e impõem seus algoritmos, determinando o uso que fazemos das redes sociais, por exemplo, nos dão uma falsa sensação de autonomia e liberdade. A ideia da democracia como um sistema fechado e pronto é enganadora e portanto mais consonante com a manutenção de um contexto excludente e preconceituoso (fechamento), do que com o que seria sua essência – a participação ativa de todos (abertura).

Não podemos aceitar um rótulo negativo para a dita geração “nem-nem”, ou com uma política pública que olhe para esses 11 milhões de jovens como um único bloco. Da mesma maneira não podemos nos iludir com a aparente liberdade que as tecnologias nos dão. Liberdade e democracia não são condições fixas dadas. São sim um processo de construção constante, aquilo que chamamos de devir. E esse devir é mais dinâmico quando olhamos para o micro (por exemplo os subgrupos dos jovens) e entendemos seus contextos particulares, do que quando olhamos para o todo. Já o oposto desse devir (a paralisia, o conservadorismo), só pode ser visto quando olhamos o todo (no caso dos interesses das corporações que controlam as tecnologias), ao invés de focarmos apenas na nossa pretensa liberdade de opinar sobre tudo nas redes sociais.

Liberdade e democracia exigem nossa constante vigilância, capacidade de ampliar e aproximar o foco, pensamento crítico e disposição para o debate de ideias. A educação que se pretende democrática precisa incorporar esses conceitos, senão continuaremos presos à distopia de uma falsa liberdade recheada de rótulos vazios.

 

 

 

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