Cada um lê o mundo como lhe convém!

Justin1-696x357

Ou ainda sobre a dificuldade de olhar o outro sem julgamento e fazer autocrítica – o paradoxo da fila do caixa eletrônico. 

Imagine a seguinte situação – você precisa sacar um dinheiro, só tem um caixa eletrônico funcionando e várias pessoas formam uma fila. Você está com pressa (não estamos todos?). As pessoas avançam lentamente e de seu lugar na fila você olha fixamente para o homem idoso que está usando a máquina. Ele parece perdido, lento e confuso. Depois uma mãe que a todo momento se distrai e se irrita com seu filho pequeno que não pára de fazer perguntas. Na sequência, dois adolescentes que riem de tudo, e parecem não perceber que existem outras pessoas na fila. A cada novo usuário você vai ficando mais impaciente. Pela sua mente passam avaliações sobre o perfil de cada um – É muito burro, não sabe usar a máquina! Por que não fica em casa? Quanta irresponsabilidade! Tinha que ser mulher! Pelo amor do Cristo!

Então finalmente é a sua vez. Resoluto você saca o cartão e rapidamente, inicia o passo a passo. Mas o cartão trava, o touchscreen da tela não responde, a máquina não lê sua impressão digital, o sistema trava. Nesse momento você mentalmente pragueja contra a tecnologia, contra aquela máquina mal projetada, contra o destino, contra Deus que insiste em te castigar a cada oportunidade.

É essa metáfora sobre as diferentes opiniões que expressamos dependendo da posição que ocupamos em uma dada situação, que eu chamo de paradoxo. Veja esse mesmo paradoxo nas reações de diferentes pessoas (colhidas nas redes sociais) à mesma notícia – menino de 7 anos leva irmão a escola para não perder aula.

Leitura 1 – Olha que lindo o amor entre irmãos! Não se separam por nada, nem na hora de ir na escola! Nós brigamos, disputamos os brinquedos, a atenção dos pais, sentimos raiva um do outro, mas é nessa convivência que aprendemos a ser generosos, esquecemos de nós mesmos para ajudar o outro. Vamos aprendendo a amar! Se você se identificou, marque os seus irmãos aqui! Família é tudo!

Leitura 2 – Olha só a dedicação desse menino à educação! Como é emocionante ver alguém que supera todas as barreiras pelo amor aos livros e ao conhecimento! Eu também sofri muito pra completar meus estudos, trabalhava desde os 13 anos para ajudar meus pais. Tenho certeza de que esse menino vai ter um futuro próspero pela frente!  Todo o meu coração para ele e seu irmão que já tem um ótimo exemplo para seguir!

Leitura 3 – Tem que esfregar essa reportagem na cara dos estudantes que ficam ocupando escolas, fazendo assembléias e não querem nem saber de estudar. Isso sim é o que faz o futuro de alguém – esforço e sacrifício! Não tem cota, vitimismo, mimimi de esquerda. Tem que arregaçar as mangas e ir à luta! Meritocracia é isso! Parabéns pra esse menino que já tão novo entendeu que se ele quer sair da pobreza, vai ter que ralar! Vai ter um emprego digno, vai ter dinheiro pra sustentar sua família sem ficar pedindo esmola nem chorando pro governo!

Leitura 4 – Mais uma notícia rasa que a mídia golpista joga na rede pra anestesiar as pessoas que não pensam. Tá todo mundo elogiando o esforço do menino! Mas a avó dele teve que arranjar um trabalho pra conseguir dinheiro pra comer por causa da precarização do trabalho, da opressão daqueles que detêm os meios de produção e exploram os pobres, e o moleque tá tentando desesperadamente ficar na escola, mesmo que tenha que carregar o irmão por quilômetros! Só vejo isso nessa história – o desespero de uma criança diante de um mundo de hipocrisia capitalista. Até quando o povo vai aceitar calado!

A notícia que foi veiculada mais parece uma legenda para a foto de tão sucinta. Tem um curto depoimento do menino e um curtíssimo comentário da professora, além de vagas informações sobre o contexto familiar do menino e o lugar geográfico onde aquilo aconteceu. Qualquer tentativa de entender mais sobre o caso, para então fazer algum juízo sobre a cena, deveria passar por um aprofundamento dessas poucas informações iniciais.

Não sabemos nada sobre o contexto político do lugar onde o menino vive, sobre a dinâmica econômica (que oferece trabalho na colheita para a avó, por exemplo). Não conhecemos a história dos pais do menino, nem sabemos da escola, nem sobre o valor que aquelas pessoas dão para a educação, nem como se organizam as famílias. É uma outra cultura, bem distante da nossa, que pode ter costumes e conceitos distintos daqueles que nós aqui já internalizamos.

Todas as pessoas que externaram seus comentários sobre a história do menino reagem da mesma maneira – elas estão olhando não para a notícia, mas para si mesmas. Assim como no paradoxo do caixa eletrônico, o ponto de vista sempre é centrado no EU, tem uma forte carga emocional e considera que aquela visão de mundo é a visão correta, e que os outros ao redor estão errados.

Um vê a foto dos irmãos abraçados e passa a falar sobre os próprios irmãos, outro fala de  sua própria história de amor pela educação e sacrifício. Um usa a notícia como mote para defender seu ponto de vista sobre o mérito, e outro enxerga conspiração e alienação. Ninguém olha para o menino com curiosidade e abertura. Todos já sabem tudo e apenas pontificam as certezas que carregam.

E assim vamos viralizando notícias falsas, nos agredimos pelas redes sociais, repetimos discursos prontos sem nos questionarmos sobre a lógica desses discursos. E se nos questionam, nós gritamos, e se nos bloqueiam nos indignamos frente à censura. Só nos importamos com a nossa própria liberdade, nosso direito de expressão. Não fazemos perguntas, apenas afirmações.

E isso é conseqüência da educação que tivemos, da escola que apenas valoriza a competição, as provas, o vestibular e o diploma e não nos ensina a ler o mundo com profundidade. É conseqüência da sociedade que optou por essa escola para dar conta da sobrevivência e do consumo que são as bases do modelo econômico que hoje é hegemônico no mundo. Já passou da hora de mudarmos essa chave.

3 respostas para ‘Cada um lê o mundo como lhe convém!

  1. Boa reflexão. Assim entendemos melhor porque é tão difícil nos entendermos. Cada um focado no seu eu e o meio comum seria a cena. Mas esse mesma cena vira oportunidade de projeção de quem somos.
    De fato um paradoxo. Mas não é isso o Ser Humano?

    Curtir

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s