Utopias – o amor revolucionário de Valarie Kaur

No filme Ó Pai, Ó de Monique Gardenberg (2007), o personagem Roque (vivido por Lázaro Ramos) entra em choque com Boca (Wagner Moura), e faz um discurso afirmativo potente contra o racismo:

Essa fala de Roque é adaptada da peça de Shakespeare – O Mercador de Veneza. Na peça o vilão é o comerciante judeu Shylock, discriminado em função do estereótipo social que pesa sobre o seu povo. Ele diz: “Se nos derdes veneno, não morremos? E se nos ofenderdes, não devemos vingar-nos?”, buscando a complacência dos outros para justificar sua sede de vingança.

A heroína da peça do autor inglês, Porcia, se veste de homem para salvar a todos de si mesmos, fingindo ser um advogado que com inteligência desmonta a lógica de justiça punitiva/vingativa e encontra um equilíbrio entre a necessidade de regular as relações entre os homens e a consciência de que, em essência, somos todo iguais.

Entre Roque e Boca não existe amor ou empatia, ainda que a fala de Roque seja uma tentativa de fazer com que seu inimigo o veja como um igual e não como inferior. É a mesma coisa com Shylock que olha apenas para dentro de si mesmo e exige que os outros olhem para ele sem julgá-lo. Já Portia se coloca na pele de outra pessoa (literalmente inclusive) por amor, já que seu amado é uma das pessoas que ela defende da ira vingativa de Shylock.

Mas como podemos ser mais Porcia e menos Shylock? Quais os caminhos para desenvolvermos a empatia real da heroína que nos faz agir em favor dos outros, ao invés de ficarmos presos às nossas próprias dores e lamentações? A advogada, ativista e documentarista Valarie Kaur nos mostra um caminho com seu conceito de amor revolucionário.

Valarie Kaur imagina um mundo o onde o amor seja uma ética pública. Não um sentimento sobre o qual não temos controle, mas um valor e uma habilidade que pode ser ensinada e exercitada para que as sociedades humanas se construam sob um novo modelo de relação. Nesse TED ela fala de 3 lições desse amor revolucionário:

1 – A pessoa que age com violência, que me agride, que me despreza, diminui e ridiculariza, tem uma história é e preciso sermos capazes de ver isso quando estamos diante dela. Um exercício para despertar essa capacidade é conscientemente olhar para as pessoas desconhecidas que encontramos em nosso dia a dia e dizer para nós mesmos: essa é minha tia, esse é meu irmão, aquela é minha prima.

2 – A pessoa que comete um ato de violência quer / busca / precisa ser perdoada para poder reencontrar o caminho do amor. Mesmo que leve muito tempo (e o tempo é um fator importante nesse caso), precisamos fazer o esforço de nos mover (agir) para construir uma ponte entre nós e a pessoa que nos feriu (ou a pessoa que foi ferida por nós).

3 – Para termos a capacidade de diante do ato de violência enxergarmos a história daquele que nos agride, e diante das consequências dolorosas do ato de violência perdoarmos aquele que o praticou, temos que nos amar. É preciso preservar a alegria, porque é ela que nos faz olhar a dor e o sofrimento com outros olhos. A alegria é um ato de resistência moral.

Assim como Porcia, Valarie trabalha como advogada, buscando uma justiça que restaure as relações que foram dilaceradas pela violência. Porcia encontra um desfecho digno para Shylock, mesmo que o comerciante judeu seja o perseguidor de seu noivo. Valarie defende o perdão como um passo fundamental no exercício do amor revolucionário, para que aqueles que agem com violência possam ter a oportunidade de mudar seus destinos.

Diferente de Valarie, Porcia no final da história volta para seu papel submisso de mulher e esposa, e ainda que seu noivo saiba o que ela fez, o século XVII (quando a peça foi escrita e encenada) não permitia mais do que essa atuação ficcional episódica. Valarie Kaur, no século XXI, afirma sua identidade e vive plenamente seus ideais. As duas no entanto sabem que o amor revolucionário entende a escuridão como um útero onde o ciclo da vida se renova. Para que essa escuridão vire luz é preciso equilíbrio e ação, respiração e força para parir um mundo em que o amor seja sinônimo de justiça.

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