Distopias – o Ministério da Solidão e a lógica da exclusão

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Um estudo de 12 meses que envolveu diversas ONGs concluiu que 9 milhões de britânicos sentem solidão (14% da população). A porcentagem e o grau de solidão percebido é maior entre os mais velhos. Para especialistas em saúde da terceira idade, o isolamento social pode causar mais dano à saúde que fumar quinze cigarros por dia. Mas a solidão medida no estudo não se resume apenas ao isolamento social causado pela soma de fatores como doenças e idade avançada. Cuidar de crianças ou de doentes também leva a um certo grau de isolamento social, assim como o desemprego, o trabalho remoto ou por projeto (que não cria um vínculo entre a empresa e o empregado).

O Ministério da Solidão foi criado por causa do número alto de casos e pelo reconhecimento da solidão como uma condição que potencializa muitos problemas de saúde, o que gera custo para um Estado. A Inglaterra tem uma das coberturas sociais de saúde mais antigas do mundo, a NHS, que vive a crise financeira mais séria de sua história. O objetivo da nova pasta é propor ações de prevenção e combate à solidão seguindo as orientações desse estudo que indica programas que cultivem conversa, amizade e empatia capitaneados por organizações sociais e seus voluntários de bom coração.

O título de Ministério da Solidão parece tirado de um livro de ficção, embora se possa argumentar que trazer o assunto para os holofotes é uma forma concreta de fazer alguma coisa, especialmente em uma cultura que é conhecida por não falar abertamente de questões consideradas pessoais. Mas a história da pesquisa sobre solidão e o contexto político e econômico atual da Inglaterra reforçam a característica distópica da criação do Ministério.

A comissão que encomendou e publicou o estudo sobre a solidão leva o nome da parlamentar Jo Cox. Duas semanas antes do referendo que aprovou o Brexit (a saída do Reino Unido da União Europeia), Jo Cox foi brutalmente assassinada por um homem branco de mais de 50 anos, com histórico de doença mental, que vivia sozinho e tinha simpatia por grupos neonazistas. Segundo testemunha ele gritou “Britain first” (algo como o Reino Unido em primeiro lugar), enquanto esfaqueava e atirava em Cox. Ela deixou dois filhos.

I, Daniel BlakeAlgum tempo antes da divulgação do estudo e da criação do Ministério, o governo de Theresa May cortou a verba para a manutenção de bibliotecas (mais de 500 fecharam), cortou o financiamento de iniciativas como creches para mães solteiras, enxugou os benefícios da seguridade social e terceirizou a burocracia da assistência social. O filme Eu, Daniel Blake, de 2016, dirigido por Ken Loach (Netflix), mostra um carpinteiro de aproximadamente 60 anos, preso no limbo burocrático que resulta desse contexto de “saneamento da máquina pública”. Daniel Blake não quer depender da benevolência de voluntários de bom coração, e o resultado é inevitável – solidão.

O perfil de Thomas Mair, o assassino de Cox, também se encaixa no grupo que o estudo apontou como mais suscetível a solidão. Outro grupo que sofre especialmente com a sensação de não pertencimento são os imigrantes que inundaram os países europeus no últimos anos (segundo esse mesmo estudo, mais da metade dos imigrantes sentem solidão). A vitória do Brexit foi uma resposta à essa imigração e aos problemas econômicos que o mundo enfrenta mais acentuadamente desde a crise de 2008. A maioria dos eleitores que votaram pela saída do Reino Unido da União Europeia tinham mais de 50 anos.

Já falei aqui sobre como o extremismo usa a necessidade dos jovens de se sentirem parte de um grupo para recrutá-los. A solidão de Thomas Mair fez ele buscar esse pertencimento em ideias e opiniões de grupos neonazistas, que levaram ao extremo a visão de mundo que ele já tinha. As condições sociais que levam ao aumento da solidão, como o enfraquecimento de laços (com a família, com a pátria) e a sensação de abandono (como o limbo burocrático impessoal do Estado, o corte de direitos sociais em tempos de alta de desemprego), são as mesmas condições sociais que levam ao extremismo.

Não é possível combater a solidão e ao mesmo tempo fechar o país para quem vem de fora. Não faz sentido chamar as ONGs e os voluntários de bom coração para enfrentar o problema da solidão enquanto as condições políticas e sociais alimentam a sensação de abandono e de afrouxamento de laços. A mesma coisa em adotar tolerância zero com extremistas, sejam eles neonazistas ou islâmicos e ao mesmo tempo insistir nessa lógica da exclusão. Em ambos os casos é como apagar incêndio com gasolina.

 

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