O melhor e o pior do Brasil nas Olimpíadas

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Não gostaria de parecer chata, estraga prazeres, nesse artigo de hoje, para o blog da Universidade Livre Pampédia. Mas é do dever de quem exerce a função de pensar e de educar, tecer reflexões críticas a respeito do que se passa no país e no mundo. No espaço de pensamento livre e crítico que aqui criamos, não poderíamos deixar de tratar da abertura das Olimpíadas.

Abertura emocionante, bela, arrebatadora… sem nenhuma dúvida. Arrancou lágrimas de muita gente. Os comentários internacionais foram só elogios com a qualidade do espetáculo.

Entre os que ficaram emocionados, certamente havia os que gritavam “Fora Temer”e os que gritavam “Fora Dilma”.

Mas o que está aqui em questão é que numa nação, presentemente dividida, tivemos um momento de comunhão. No livro O Espírito do Ateísmo, de André Comte-Sponville, que hoje começamos a esmiuçar em nosso encontro on-line, da Universidade Livre Pampédia, o autor nos aponta que é impossível que uma sociedade viva sem alguma comunhão. Comunhão é algo que transcende leis, normas e estruturas econômicas. É um sentimento coletivo de pertencimento, de comungar com outros, sensações positivas, esperanças, ideias… Ora, a arte é uma forma profunda de comunhão. A espiritualidade também. E o esporte, igualmente. Desde os gregos, se sabia isso – eles que aliavam as três coisas. As Olimpíadas gregas tinham caráter sagrado, eram dedicadas aos deuses e, como tudo na Grécia, eram permeadas de beleza.

Ocorre que a comunhão é algo que fala ao coração, é uma sintonia de emoções sobretudo… Então, há que se chamar a chancela da razão, para analisar que espécie de comunhão estamos tendo.  Porque os nazistas, por exemplo, também poderiam supor estar em plena comunhão. Pontuemos aqui, portanto, a diferença entre comunhão – que seria algo saudável, elevado e promotor de sentimentos positivos – e uma hipnose coletiva, histérica, com sentimentos de ódio e destrutividade.

Mesmo na comunhão positiva, há que se zelar para que ela não se torne alienação.

Claro está que o sentimento daqueles que se emocionaram com a abertura das Olimpíadas foi positivo, aliás, até de alívio, por voltarmos por alguns momentos a sentir orgulho de sermos brasileiros. Mas o nosso juízo crítico não pode ficar suspenso por causa disso.

Pode-se dizer que bem nessas Olimpíadas, desde antes do seu início e agora durante o seu transcorrer, está presente o que há de melhor e o que há de pior no Brasil.
O melhor do Brasil é o brasileiro criativo, que tem uma arte na altura de Tom Jobim, Gil, Caetano e Fernando Meirelles… O melhor do Brasil é a capacidade de superação das condições desiguais em que muitos nascem, como é o caso da medalha de ouro Rafaela Silva. Já dizia Ary Barroso:

“…uma raça

Que não tem medo de fumaça ai, ai

E não se entrega não.”

O melhor do Brasil é esse sentimento de sermos brasileiros que toma conta de todas as classes sociais, de todos os Estados – quando ouvimos um hino nacional cantado com a simplicidade grandiosa de um Paulinho da Viola.

Mas o pior do Brasil é a desorganização e a falta de compromisso  – que se manifestaram nos alojamentos com tantos problemas, na narrativa que André Trigueiro fez em sua página do Facebook, sobre o caos que foi o primeiro dia, nas filas para alimentação.

O pior do Brasil é a desigualdade de condições em que as pessoas nascem, crescem e são educadas (ou não educadas), com privilégios para alguns e desfavorecimento da maioria.

O pior do Brasil é a cultura do machismo impregnada em toda parte – mesmo nas mais belas e dignas artes, como na música do Tom.

“Olha que ‘coisa’ mais linda, que vem e que passa”.

A mulher é sempre coisificada.

“Olha o jeito nas ‘cadeira’ que ela sabe dar

Olha só o remelexo que ela sabe dar”

Esta do querido Ary Barroso. A mulher brasileira como patrimônio sexual do país, para exibir ao mundo sua bunda, como parte da paisagem. Com isso, atraímos o turismo sexual.

(Aliás, daria para fazer uma tese só sobre o quanto de machismo está presente em obras primas do cancioneiro brasileiro – só como rápida menção, lembro da música Minha namorada de Vinicius de Morais, em que a tal namorada, amada é uma “coisinha toda linda” e tem que seguir o caminho dele, mesmo que esse caminho seja triste para ela!)

O pior do Brasil é que por trás de um evento grandioso como o das Olimpíadas, estão sempre injustiças sociais clamorosas, como a retirada violenta dos camelôs no Rio, como nessa triste narrativa de Ademar.

Então é isso, temos grandiosidade no bom e no ruim. O que é preciso é que recuperemos um sentimento de nação. Há sim divisões políticas, sociais, econômicas, estruturais… Mas acima de tudo temos que trabalhar na dimensão do ser brasileiro, do ser humano, dos anseios comuns de bem estar e felicidade.

Recuperar entusiasmo, sem perda de espírito crítico; manter o espírito combativo, sem entregar-se ao ódio; alargar o nosso horizonte em compaixão, solidariedade e comprometimento com o bem coletivo.

4 thoughts on “O melhor e o pior do Brasil nas Olimpíadas

  1. Enfim uma boa notícia, tenho andado só, sem ninguém para conversar, com tanto discursos de ódio, de revoltas e competições, se promovendo a culpa como o motivo do ódio, sendo que sabemos que ele caminha na alma de quem o edifica, como a um prédio tijolo por tijolo desde o princípio da vida. Esquecemos do Cristo em algum lugar isso sim.

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  2. Disseram que a Dora havia morrido, por isso insisti na sua caixinha para saber a verdade, mas ninguém respondeu nada. Porque certa madrugada acordei e fui ao face e encontrei sobre a pedagogia espírita, porque fui intuída, mas quando falei sobre isso para um grupo espírita, noticiaram a sua morte. Pensei fosse verdade e insisti na caixinha. Dizem que quando acontece isso a pessoa passa dos cem anos. Paz e saúde. Excelente comentário, muito me ajuda, porque penso estar enlouquecendo em ver tanto ódio nas pessoas. Fui embora do grupo que frequentava porque faziam orações contra certo partido, rezas do anjo Ismael, não aguentava mais. Fui embora. Somos todos amigos uns com os outros. No evangelho o próximo quer dizer a pessoa semelhante a nós, isto é aquele que respira, que se alimenta, que toma agua, porque está sujeito as mesmas coisas que nós, se está doente podemos ficar doentes, se está na sarjeta também podemos ficar na sarjeta, se estuda também podemos estudar e assim por diante. O próximo não é quem está mais próximo, o próximo são todos que se assemelham a nós que possuem vida aqui na terra, mesmo as plantas e os animais. Os políticos são os nossos próximos, os professores, os governantes etc… Todos precisam respirar e viver. agora, porque dizemos que o próximo é o que está mais próximo como a família? Por causa da bíblia talvez. Hoje em dia é a rede Globo, antigamente era a bíblia em desacertos e manipulações. Que vamos fazer? Ainda não chegou a hora do despertar da consciência?

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