Inovação na Educação e os caminhos para o Brasil

Na última semana, o jornal Folha de São Paulo em parceria com o Fundação Telefônica e a ONG Todos pela Educação promoveram um Fórum de Inovação Educativa. Outros jornais e revistas têm feito reportagens especiais sobre o tema Educação em função do momento pré-eleitoral, em que estamos mergulhados. Análises, diagnósticos, propostas e exemplos práticos com resultados positivos se apresentam. Mas ainda que saibamos que a educação é o único caminho para a transformação profunda que o país tanto precisa, que ideias estão pautando o assunto?

Segundo a ex-economista chefe da área de educação do Banco Mundial, Barbara Bruns, a queda da taxa de natalidade em toda a América Latina oferece uma oportunidade para o aumento de investimento na educação básica. Nos próximos 7 anos, o número de professores necessários será 15% menor, portanto com o mesmo orçamento de hoje o Estado poderá melhorar salários, carreira, treinamento, equipamentos, materiais e salas de aula.

O físico alemão Andreas Schleicher, responsável pelo PISA (exame internacional de avaliação do ensino), fala da necessidade de atrair os melhores alunos para a carreira de professor, da importância de uma base curricular (que o Brasil acabou de aprovar), mas aponta a multidisciplinaridade (professores trabalhando em conjunto), o ensino individualizado (no ritmo e estilo de cada aluno), como exemplo de escolhas feitas pelos países melhor avaliados. Infelizmente, os países com baixos índices no PISA tendem a concentrar o currículo nas matérias que resultarão num bom desempenho no exame, distorcendo o objetivo mais amplo da educação.

O Fundação Telefônica fez um levantamento com estudantes de 15 a 29 anos, sobre comportamento, educação, ativismo, participação social e empreendedorismo. A pesquisa destaca que os jovens, que no passado queriam sair de suas comunidades para buscar uma vida melhor, hoje querem cada vez mais ficar e trazer melhorias para o seu entorno, porque percebem que esse ambiente é essencial em sua identidade. A resposta da empresa é o empreendedorismo como ferramenta de transformação (tanto da condição sócio econômica do jovem, quanto de seu entorno), postura essa compreensível, vindo da iniciativa privada. Mas o engajamento na mudança social não passa só pelo dinamismo econômico.

O ex-ministro da Educação, Renato Janine Ribeiro, mostrou no Fórum que a igualdade de oportunidades no ponto de partida (que é conceitualmente uma bandeira do liberalismo), está longe de existir no Brasil. Ele compara essa ideia com a igualdade no ponto de chegada (que é conceitualmente uma bandeira do socialismo), mostrando que no caso da educação (e do trabalho), o pensamento conservador (da meritocracia rasa, por exemplo) passa longe do liberalismo, transformando muitas vezes a igualdade de oportunidades numa pauta à esquerda.

Ele critica a reforma do ensino médio, mostrando que a lógica da customização do currículo agrupou matérias que se destinariam a nichos de carreiras específicas no futuro. As matérias de humanas como filosofia, sociologia, antropologia e história são, segundo Janine, para educar a pessoa (o indivíduo diante dos desafios e contextos do mundo em que ele vive). A proposta dele de um currículo que trabalhe temas da filosofia como a ética e a política, ou da química que trabalhe a alimentação e a culinária vão de encontro a esse conceito de educar a pessoa para a vida.

Mas o que podemos concluir disso tudo? Se por um lado, o contexto (demografia) nos apresenta uma oportunidade rara de construirmos um ensino básico de qualidade para todos, de outro, os professores que temos agora são muito mal formados e já estão cristalizados em práticas autoritárias e conteudistas. As organizações da sociedade civil fazem levantamentos e mapeamentos que nos apresentam o perfil dos jovens, suas demandas e conjunturas, e esse dados são apropriados pela iniciativa privada que cria produtos tecnológicas, plataformas que funcionam como jogos, e outras ferramentas que prometem avançar os índices das avaliações. Só que plataformas que se propõem a fazer os alunos passarem no ENEM, ou sistemas de ensino que prometem o acesso via vestibular à universidade pública, não estão olhando para a  educação da pessoa (nos termos colocados Por Renato Janine Ribeiro). Transformação social via empreendedorismo é uma parte da ação possível do indivíduo na sociedade. Outras são a consciência e a participação política, o entendimento da organização das cidades, do estado e da federação, das leis, a construção e a valorização de uma comunidade, o cooperativismo.

Igualdade de oportunidades, protagonismo e criticidade, possibilidade de transformação do entorno e da sociedade, engajamento e conectividade, educação para a vida – essas são as ideias para uma nova educação. A transformação completa do ofício e da carreira do professor – essa é a condição básica para que as novas ideias tenham chance de serem implantadas. Educação da pessoa, através do conhecimento do mundo, do desenvolvimento da capacidade de pensar criticamente, de dialogar com o outro e de se ver como protagonista da construção do futuro – essas são as bases sólidas tanto para alunos quanto para professores, se quisermos transformar a educação do Brasil.

2 respostas para ‘Inovação na Educação e os caminhos para o Brasil

  1. E acredito também que o aluno deve ser amparado com suas peculiaridades e limitações. Sem imposições qualquer que sejam. Aliás acredito no ensino em que não houvesse nem provas. .. Como pensava Herculano Pires?
    “Ensinar tudo a todos”, acredito nisto também, Pampaedia.

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  2. Esse tipo de iniciativa deveria fazer parte de uma agenda ad-eterna, não só em momentos eleitorais, dada a riqueza de de idéias e as possibilidades do debate levar a uma forma consistente de organização e pressão, capazes de transformar a Educação.

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