Simplicidade voluntária: devaneio, possibilidade ou necessidade?

tolstoi

Mas, afinal, de quanto (ou do quê) precisa um homem para ser feliz?

Liev Tolstoi, grande expoente da literatura realista, crítico social e moral russo, certa vez escreveu a respeito deste tema, recriando uma narrativa dramática sobre um camponês fictício, chamado Pakhóm. No livro “De quanta terra precisa o homem?”, em determinado momento, o protagonista pensa em voz alta: “Se eu tivesse muita terra, não temeria nem mesmo o próprio diabo”.

O que ele não imaginava é que satanás estava escondido, escutando seus pensamentos, e decide instigá-lo a ter maior cobiça por bens materiais, principalmente propriedades. Depois de aumentar (e muito) suas terras, o camponês não se dá por satisfeito: continua querendo sempre mais. Em determinado momento, decide ir atrás de novas conquistas, nas terras dos bashquires e, estando lá, é desafiado pelo chefe da aldeia. Por um valor simbólico, Pakhóm poderia conquistar uma grande propriedade: ficaria com tudo o que conseguisse percorrer (a pé) ao longo de um dia, desde que, antes do sol se por, voltasse até o ponto de partida. Caso contrário, perderia tudo.

A trama se desenvolve mostrando conflitos intensos no campo mental de Pakhóm, que flutua entre a razão e o delírio, por fim cedendo ao ego e à sua fantasia de conquista material. No final de sua saga insana, o camponês morre por exaustão, precisando tão somente de um pequeno pedaço de chão para a própria cova. A morte foi seu prêmio. E, o que viveu de fato, além da ansiedade, da febre diuturna pela conquista e seus desdobramentos fatais?

Vale destacar que, na obra de Tolstoi, a morte sempre aparece para alertar os personagens dos perigos de se levar uma vida falsa e sem sentido. Ela, a morte, chega para todos, em tempo imprevisto, como sabemos. Portanto, pode ser ainda hoje. Se assim for, o que diremos sobre nós mesmos no final do percurso de uma existência? Eis a proposta.

Viver uma vida com significado está no centro da segunda fase de sua obra, quando em profunda crise de meia idade (pensando em dar cabo da existência), Tolstoi buscou a resposta para uma pergunta fundamental: Qual o sentido da minha vida? Com 50 anos, sendo já o escritor consagrado, rico, casado, possuidor de diversas propriedades, por que diabos estaria ele vivendo tamanha crise?

O escritor encontrou a resposta para sua pergunta observando a vida dos camponeses mais simples (os mujiques). Percebeu que aquelas pessoas não tinham medo da morte e, ao contrário da elite, sua religião não era etérea, porém, robusta. Não viviam uma religiosidade extrínseca (voltada aos rituais e convenções), mas intrínseca (como filosofia norteadora da existência). Para os camponeses, uma vida piedosa consistia em “trabalhar, resignar-se, suportar e ser misericordioso”.

Ao observar como as pessoas mais simples não se desesperavam diante da morte, Tolstoi encontrou um significado para a fé, que ultrapassava as definições oferecidas pela religião. Assim, os camponeses o ajudaram a recuperar a fé e encontrar o sentido da vida através das lições trazidas por Jesus, buscando sua vivência mais essencial. Aspirava colocar em prática os valores do cristianismo, mantendo distância dos rituais. Para o conde de Iasnaia-Poliana, a razão era uma aliada da fé na dura tarefa de separar as verdades espirituais dos enganos da religião… Portanto, não podemos encarar Tolstoi como um místico, mas sim como um homem racional, pois assim era!

E, por falar em racionalidade, o que nos diz a ciência moderna a respeito deste tema?

Diversos estudos da psicologia convergem para o mesmo ponto: Acúmulo de riquezas, exercício de poder ou imersão total no trabalho não são fontes de paz, saúde, tampouco de felicidade. Se o objetivo é bem viver, as questões de acúmulo estão na ponta oposta deste pêndulo, que deve empurrar a força para o lado qualitativo da existência (ser) e não quantitativo (ter).

Na tentativa de descobrir as bases deste comportamento “sovina” de muitos, a psicologia chegou à conclusão de que a ganância é a ambição nua (agressão), um medo paralisante de desenvolvimento (ansiedade) ou a combinação de ambos. “Enquanto não há muito a se dizer sobre a biologia da avareza, podemos falar sobre medo e ansiedade”, afirma o neurocientista John Medina no livro The Genetic Inferno, Inside the Seven Deadly Sins (Medina, 2000). Para o teórico, a cobiça, no sentido do desejo excessivo por mais e mais coisas, é uma forma primitiva do medo de que, de alguma forma, algo saia do controle –por isso o acúmulo insensato, com o intuito de se precaver contra essa suposta ameaça – que nem sempre realmente existe. Aliado a isso, as inúmeras propagandas que inculcam nos imprudentes a ideia de uma necessidade material muito além do real, acabam por entornar de vez o caldo do bom senso…

E, como resultado, o que se vê são os mais variados distúrbios (físicos e psíquicos), indo desde desarranjos simples do sistema imunológico, até o desenvolvimento de síndromes da ansiedade, tornando a vida da pessoa totalmente disfuncional.

No caminho oposto, a teoria da simplicidade voluntária de Duane Elgin entra como um parâmetro interessante, pois está baseada num modo de vida externamente simples e interiormente rico, no qual o objetivo seria “cumprir nosso maior potencial humano – psicológico e espiritual – em comunidade com os outros.” (Elgin e Mitchell, 1977)

Adotar uma vida simples é, então, um modo seguro de alcançar o equilíbrio pessoal e uma forma eficaz de contribuir para a salvação da Terra, que já não está dando conta de nos abrigar em nossa forma predatória de ser e existir no sistema capitalista.

Mas, devemos entender que, “vida simples não é sinônimo de pobreza ou carência, mas sim de um estilo de vida sem excessos e ganâncias — que pode até se utilizar da alta tecnologia, desde que se mantenha em equilíbrio com o meio ambiente —, no qual os valores éticos são mais valorizados do que os bens materiais. (Cunha, 2008)

E por qual (ou quais) motivos este tipo de vida menos ambicioso deveria ser colocado como o melhor para o homem do século XXI?

Parece-nos que a resposta para esta pergunta está visível dentro e fora de nós. Tudo o que é supérfluo e que a humanidade acumulou nos dois últimos séculos agora parece se voltar contra ela mesma. As produções em excesso acumularam material poluente, além de degradar o meio ambiente com as extrações nocivas, abusivas. “O lixo material aquece o planeta, enquanto a excrescência cultural confunde e paralisa o homem” – desabafa Odir Cunha jornalista e historiador – em seu livro “Viva Simples” (Cunha, 2008).

A solução, segundo ele, seria nos despirmos do desnecessário. “E a lista é longa: vai desde carros de luxo até dogmas religiosos ultrapassados, em um processo que pode ser penoso, pois exige a consciência do problema, a constatação dolorosa de que se estava seguindo o caminho errado.” (Cunha, 2008) Por vezes, é preciso uma grande crise existencial para esta tomada de consciência. Noutros casos, uma situação de quase-morte. Mas há, ainda, os que despertam para o essencial de maneira mais suave, após reflexões, leituras ou outras ‘afetações’.

Aqueles que se julgam corretos por obedecerem um caminho desenhado pelos pais e avós, no qual é preciso atingir o grande objetivo de poder e riqueza, certamente terão dificuldades para perceber o equívoco em que estão ancorados. A esses, a vida deverá se encarregar do despertar, como temos visto. E então, mais lúcidos, perceberão que, por fim, de bem pouca terra precisa um homem…

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS:

CUNHA, O. Viva Simples; São Paulo: Editora Novas Ideias, 2008.

D’ANGELO, A. C. Por Uma Vida Mais Simples – Histórias, Personagens e Trajetória da Simplicidade Voluntária no Brasil.  São Paulo: Editora Cultrix, 2015.

ELGIN, D. Simplicidade Voluntária: Em Busca De Um Estilo De Vida Exteriormente Simples, Mas Interiormente Rico. São Paulo: Editora Cultrix, 1993.

MEDINA, J; The Genetic Inferno, Inside the Seven Deadly Sins: Cambridge University Press, 2000.

TOLSTOI, L. De Quanta Terra Precisa o Homem?  São Paulo: Grupo Companhia das Letras. Editora Schwarcz, 2009.

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