Utopias – música como base para a educação escolar

Outro da série de artigos do The Guardian sobre UTOPIAS trata da importância da música na educação. Nele o escritor Stephen Moss nos conta sobre sua própria relação com a música na infância e cita a experiência educacional da Finlândia focada no ensino da música e no aprender a tocar um instrumento como base da educação infantil.

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O fluxo de músicos finlandeses extraordinários que despontaram no circuito da música clássica nos últimos 30 anos é conseqüência do sucesso dessa decisão curricular, mas não só. Stephen Moss aponta alguns dos conceitos do programa como a noção de que o jogo criativo, que é a essência da relação do aluno com seu instrumento musical, faz com que o aluno desenvolva uma relação mais saudável com todo o processo de aprendizagem. Mas a música, assim como a poesia, as artes dramáticas e a as artes plásticas, são vistas na maior parte do mundo como atividades opcionais, entendidas como um respiro para o cérebro em meio a coisas consideradas muito mais importantes como trigonometria e gramática.

Nos seis episódios de seu podcast Ways of Hearing, o baterista Damon Krukowsky fala sobre as diferenças entre música analógica e digital, e sobre como a qualidade do áudio afeta nossa percepção de espaço e nossa relação com a música e o mundo, além de outros apontamentos (recomendo!). Ele divide os episódios em temas e aqui eu empresto essa divisão e algumas de suas ideias para falar mais detalhadamente sobre a relação entre música e educação.

TEMPO – nossa relação com o tempo é flexível, não contamos o tempo como uma máquina, mas vivenciamos o tempo, e ele acelera ou se arrasta em função do nosso envolvimento. O tempo rubato da música clássica, o swing do jazz e o groove do funk e do rock são variações no tempo da música que comunicam a emoção do artista. Essa capacidade de comunicar emoções manejando um instrumento musical é um grau muito refinado de apropriação de uma linguagem. A música na escola nos ajuda a compreender e administrar melhor o tempo e a expressar melhor nossos sentimentos e intenções.

ESPAÇO – o espaço compartilhado de uma sala de aula, de uma cidade ou de um grupo de músicos que juntos vão executar uma partitura, são lugares de troca e interação. Nos dois primeiros é possível se isolar em seu próprio mundo interno, mantendo um mínimo de relação com o ambiente. Já num quarteto de cordas, por exemplo, é preciso estar presente, ouvir ativamente, interagir com protagonismo e ceder espaço para o protagonismo do outro. A diferença desse tipo de experiência para o esporte coletivo é que a ênfase não é a competição, mas sim a colaboração.

AMOR – a voz humana é o som que nos apresenta a linguagem, mas antes disso, é a voz humana que constrói nossas primeiras relações afetivas, a sensação de segurança, de pertencimento e de diferenciação. Conhecer o som da própria voz (da forma como ele é percebido pelas outras pessoas e não de como nós ouvimos nossa voz dentro de nossa caixa craniana), é um exercício de autoconhecimento. Estudar e aprimorar o uso da voz é tanto uma autodescoberta quanto um caminho para fortalecer a autoestima e melhorar as relações com os outros.

DINHEIRO e PODER – a música é imaterial. Apesar de ter um valor de mercado no mundo dos músicos profissionais e das músicas comerciais, assim como um objeto físico que tem uma função, ou um software que nos prove um determinado serviço, a música em essência é fruição. Mas para que ela aconteça, é preciso comprometer tempo para estudo, prática e ensaio. Portanto a música é um tipo de trabalho que não tem uma relação direta com uma recompensa financeira, mas sim com uma recompensa subjetiva, de expressão, de realização pessoal e coletiva. Ainda que possa ser gravada e distribuída, essa recompensa, tanto para quem faz quanto para quem recebe a música, é mais intensa no momento em que é executada. Por isso ela é efêmera. Dedicar tanto tempo e esforço para algo assim é uma metáfora perfeita para a vida humana e por isso é tão significativo.

A música e as artes em geral são caminhos para questões humanas profundas e por isso ajudam a dar significado para a busca pela educação. Um currículo que tem nas artes sua base, apresenta o mundo com novas lentes para crianças e jovens resignificando a vida e o futuro que eles poderão construir.

 

 

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