Inovação na superfície, Educação sem essência

Na década de 1990 a IDEO, uma empresa norte americana de design de produtos criou uma forma de trabalho que revolucionou a maneira como se conduzia o desenvolvimento de um projeto. Eles reuniam equipes multidisciplinares, sem hierarquia, sem especialização, sem penalizar ideias que não funcionavam. O conceito por trás da empresa é que a diversidade de visões e experiências em um espaço livre de críticas, que eles chamavam de caos criativo, maximizado por uma sucessão de tentativas e erro, levava inevitavelmente à melhor solução.

Nos anos seguintes, esse conceito  foi adotado por diferentes empresas para dar conta dos mais diversos processos e acabou virando uma fórmula. O Design Thinking, que poderia ser traduzido como uma forma de pensar a partir da lógica do design, hoje é a nova onda da gestão de projetos, e tem modelos de sucesso em empresas de ponta como o Google, a Pixar, o Facebook, entre outras. Desse movimento derivou outro – o Movimento Maker. Também baseado na desierarquização e no uso de tecnologias, esse movimento aposta na autonomia e no uso compartilhado de ferramentas e equipamentos para tirar projetos do papel. A ideia base é que qualquer pessoa pode fazer qualquer coisa usando aquilo que está disponível, a um custo muito baixo. As startups (empresas embrionárias que desenvolvem ideias inovadoras), que propõe soluções de serviços e produtos aliando tecnologia e inventividade, são um exemplo dessa filosofia.

Essas duas frentes vêm transformando o mercado de trabalho e, consequentemente, tiveram um impacto na educação. Nesse mesmo período, diversas escolas pelo mundo adotaram modelos de ensino que se baseavam em projetos de caráter interdisciplinar, apoiados em tecnologias cada vez mais acessíveis. Muitas experiências interessantes têm sido feitas, como a do educador Cesar Harada que eu comentei aqui. Essas novas abordagens dialogam com diferentes estilos de aprendizagem, encontram respaldo nas mais avançadas conclusões da neurociência e ainda por cima cativam a atenção de crianças e jovens para o processo educativo. Mas tanto a gestão dinâmica quanto o uso de tecnologia, não são a essência da educação, e confundir isso é muito perigoso.

Em um evento de startups que apresentavam seus projetos de soluções educacionais para financiadores, pude ver de perto essa confusão. Um dos projetos usava tecnologia para mapear a linguagem corporal dos melhores professores de cursinho, usando câmeras e softwares. Com essas dezenas de horas de vídeos e de compilação de dados, nasceria um curso de formação para professores que prometia mostrar qual a melhor maneira de escrever na lousa, o melhor tom de voz, o melhor intervalo entre pausas e piadas para quebrar o ritmo. Outro projeto que direcionava seus esforços para ajudar os educadores do ensino pré-escolar, propunha medições do nível de estresse dos profissionais que poderiam ser compensadas com massagens terapêuticas e meditação. Tudo para que o professor “aguente” a pressão (nas palavras dos idealizadores do projeto).

Nenhuma dessas “soluções educacionais” tem ligação com a essência do que é a Educação. São apenas maquiagens que tentam remendar as consequências de um sistema cheio de problemas. Apesar de serem tecnológicas e eficientes, de demonstrarem o ganho na performance, de já terem sido previamente testadas em grupos de controle, seguindo os parâmetros do Design Thinking, esses projetos não vão fazer nada pela Educação. Com diz a educadora Rita Pierson em sua participação no TED, Educação é conexão, relação. Não existe aplicativo para aprender a pedir desculpas para seus alunos, por exemplo. A tecnologia e a gestão podem ser aliadas dos educadores em seu esforço para inspirar crianças e jovens, mas as ferramentas precisam estar a serviço da alegria em estabelecer relações humanas profundas.

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