Brasil e Estados Unidos e os problemas da Educação

As questões raciais nos Estados Unidos têm suas especificidades que as diferenciam do racismo que existe no Brasil, apesar da herança de um passado escravagista ser comum a ambos os países. A miscigenação e o sincretismo que no Brasil são características essenciais na mediação entre diferentes culturas, lá tem pouco peso. Também o número de pessoas que se identificam como pretas e pardas por lá é numericamente minoritária, enquanto que aqui, mesmo descontando a influência da aparência e da condição sócio econômica que “branqueiam” nossa percepção sobre raça, pretos e pardos são a grande maioria da população. Ambas as situações têm impacto nas decisões sobre EDUCAÇÃO já que as pessoas dos dois países, que herdaram preconceito e rótulos a respeito daqueles que são diferentes, têm muitas dificuldades de estabelecer diálogos desarmados e profundos.

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Hoje, Brasil e Estados Unidos passam por mudanças profundas na esfera política, com novas lideranças tentando implementar uma ideologia diversa da que era dominante nos anos anteriores. No Brasil, uma dessas novas diretrizes é a mudança no ensino médio determinada e chancelada às pressas, sem uma discussão com a sociedade e com os educadores, que aumenta a quantidade de horas que os alunos vão passar na escola e cria diferentes formações possíveis, com uma das opções apontando para o ensino técnico. Nos Estados Unidos, há a escolha de uma secretária (o correspondente a Ministra da Educação) que tem como principal plataforma abrir a possibilidade para que as famílias decidam se querem colocar seus filhos em uma escola pública ou particular, oferecendo a essas famílias um subsídio (cupons) para ajudá-las a pagar a mensalidade da escola privada.

Independente do posicionamento ideológico que norteia essas novas leis e proposições, tanto lá quanto cá a busca é por soluções rápidas, que resolvam os sintomas de uma doença que está há muito tempo instalada, mas não atingem as causas. E por mais que muitas vozes se levantem com diagnósticos precisos e profundos sobre a doença, é mais fácil, mais estratégico politicamente (a curto prazo), e mais midiático, tratar do sintoma. A educadora norte americana Kandice Sumner é uma dessas vozes. Para ela, a educação pública nos Estados Unidos apenas serve para manter na pobreza crianças das famílias de baixa renda. Diz que a reação de espanto das pessoas diante dos baixos índices de desempenho escolar não se justifica:

“Se você negligencia uma criança por muito tempo, você não tem mais o direito de ficar surpreso quando as coisas não saem bem.”

No diagnóstico de Kandice, existem três pontos essenciais para mudarmos radicalmente esse cenário. A primeira é a forma como se arrecada e se distribui os dinheiro que financia a educação, que deveria seguir o princípio da equidade, ou seja, mais para a educação básica e fundamental, mais para as escolas que não têm recursos físicos e professores menos preparados. O segundo é a participação da sociedade civil no esforço pela educação, convidando escolas particulares a adotar escolas públicas e dividir seus recursos e experiências. E o terceiro é a participação dos indivíduos, com doações, voluntariado e outras ações. A responsabilidade pela educação das futuras gerações de um país é uma questão demasiadamente sensível e por isso todos devem ter consciência e se envolver.

Aqui no Brasil, nos últimos anos optamos por introduzir sucessivas avaliações para estabelecer nosso próprio diagnóstico e definir um tratamento, mas essa abordagem tem dois problemas principais. O primeiro problema é basear os indicadores em um conceito médio de acertos e erros em questões de múltipla escolha. Não se olha para o desenvolvimento individual de cada aluno (que pode ter sido grande, mesmo não atingindo a média, ou pode ter sido medíocre apesar de estar acima da média). Isso invalida a influência da diversidade de contextos pessoais, regionais, socioeconomicos, etc. O segundo problema é usar essas avaliações como a principal régua para medir resultados. A consequência disso é que as escolas canalizam seus esforços para que os alunos tenham um bom desempenho no teste (o que não significa que eles estejam aprendendo alguma coisa). E aí vale tudo, coagir professores para que eles impeçam os alunos baixo da média de fazer o teste, ou concentrar os melhores alunos em uma única sala (com CNPJ diferente) para ficar no ranking das melhores escolas. O resumo de tudo isso é que só as escolas que se destacam são recompensadas financeiramente, condenando as escolas com índices ruins a permanecerem assim.

Como nos lembra a educadora norte americana, a qualidade de nossa educação é diretamente proporcional ao acesso às universidades, ao acesso aos empregos, ao acesso ao futuro. Se a nossa visão a respeito do que será esse futuro for tacanha, limitada, amarrada a interesses do presente e do passado, condenaremos nossos filhos, e nosso país, ao obscurantismo.

Mauricio Zanolini

 

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