Só os homens podem por um fim no machismo.

Em rodas de conversas, mesas de bares, pátios de escolas, playground de condomínios, no escritório, no clube, homens se reúnem e repetem um mesmo ritual de autoafirmação. Falam alto, inflam o peito, batem na mesa. Qualquer coisa pode ser usada para questionar a masculinidade de outros homens, de preferência daqueles que não reagem, que são mais “fracos”. O time de futebol do outro é “pó de arroz”, a camiseta é cor de rosa, o rosto está muito bem barbeado, tem coisa estranha nisso. Se a voz afinar no meio da frase, se ainda não nasceram os pelos no corpo, se não gosta de futebol, se não gosta de cerveja… E para coroar tem o tamanho do pênis, o dado mais fundamental na afirmação da individualidade masculina, que as lentes míopes do machismo insistem em supervalorizar.

4052781_orig

E então as experiências sexuais? Peguei, estou pegando, se eu quiser, pego fácil. Essa está se fazendo de difícil, mas com a outra já fiz de tudo. É uma vagabunda, ela gosta. Se ela disser não, é só insistir, no fundo ela quer. Que piranha, já foi com todos. Essa é só para se divertir, já é muito rodada. Essa é fácil, até aquele fracote pegava.

O machismo é uma cultura feita de silêncio e conivência. As vantagens que se contam e as estratégias de diminuir o outro para que quem faz isso possa parecer maior e mais homem, vão criando um acordo tácito onde todos mentem, todos sabem das mentiras de todos, mas ninguém questiona já que é vantajoso fazer parte de um grupo que vai fingir que acredita nas minhas mentiras e isso dá uma falsa sensação de segurança. O machismo é uma construção muito frágil e é por isso que os que a defendem fazem isso de forma tão agressiva.

Quanto mais a velocidade e a abrangência da informação vão varrendo o passado, mais insustentável é a manutenção de culturas conservadoras baseadas em estruturas imutáveis. O século XXI é anti-machista e não é possível voltar atrás. Quanto mais as vítimas colaterais do machismo ganham voz, mais difícil é resistir e defender essa cultura. As mulheres e os homossexuais trazem esse debate à tona, seja de forma clara e dialogada, seja de forma agressiva e impondo condições.

Mas a vítima menos óbvia do machismo, que está presa e sem voz, sem perceber sua condição, é o próprio homem. As estatísticas de abuso sexual de menores, embora ainda muito longe de serem um retrato da realidade, já que a maior parte dos casos não é reportada para a polícia, já apontam para um número igual ou maior de casos de estupro de meninos comparados aos de meninas. O estupro, independente de quem é a vítima, é resultado de uma profunda necessidade de afirmação do ego através da submissão do outro pela força. Fazer isso com crianças mostra o grau de desequilíbrio interno que a cultura do machismo insufla. O silêncio decorrente do medo das consequências desses atos, a fantasia de que os meninos heterosexuais podem “virar” homossexuais, vão causar nessas crianças um desequilíbrio maior ainda, sem cura. A solução do machismo para questões emocionais é sempre o silencio. “Seja homem! Engole esse choro! Parece uma menininha!”

Ao macho não é permitido ser frágil, mas a fragilidade é uma condição humana das mais fundamentais. É na fragilidade que encontramos a empatia, quando sentimos com o outro a sua dor. Toda a pressão e as acusações que hoje são feitas ao machismo fazem com que os homens fiquem na defensiva e até radicalizem sua defesa do comportamento machista, mas já é tempo de dar um passo para trás e olhar para tudo isso com mais racionalidade. Se não tomarmos as rédeas desse problema e assumirmos a responsabilidade de sermos pais, irmãos e filhos de mulheres e de homens, entendendo que eles são livres e que essa liberdade deve ser protegida, esse conflito não vai acabar.

O antídoto do machismo é a hombridade, a capacidade de ajudar e proteger, sem sufocar ou dominar. A fraternidade é também uma característica humana bem marcada no comportamento masculino. Que ela guie a nós, homens, para o fim do machismo.

Mauricio Zanolini

2 respostas para ‘Só os homens podem por um fim no machismo.

Deixe uma resposta para Mariângela Freitas Cancelar resposta

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s