Só os homens podem por um fim no machismo.

Em rodas de conversas, mesas de bares, pátios de escolas, playground de condomínios, no escritório, no clube, homens se reúnem e repetem um mesmo ritual de autoafirmação. Falam alto, inflam o peito, batem na mesa. Qualquer coisa pode ser usada para questionar a masculinidade de outros homens, de preferência daqueles que não reagem, que são mais “fracos”. O time de futebol do outro é “pó de arroz”, a camiseta é cor de rosa, o rosto está muito bem barbeado, tem coisa estranha nisso. Se a voz afinar no meio da frase, se ainda não nasceram os pelos no corpo, se não gosta de futebol, se não gosta de cerveja… E para coroar tem o tamanho do pênis, o dado mais fundamental na afirmação da individualidade masculina, que as lentes míopes do machismo insistem em supervalorizar.

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E então as experiências sexuais? Peguei, estou pegando, se eu quiser, pego fácil. Essa está se fazendo de difícil, mas com a outra já fiz de tudo. É uma vagabunda, ela gosta. Se ela disser não, é só insistir, no fundo ela quer. Que piranha, já foi com todos. Essa é só para se divertir, já é muito rodada. Essa é fácil, até aquele fracote pegava.

O machismo é uma cultura feita de silêncio e conivência. As vantagens que se contam e as estratégias de diminuir o outro para que quem faz isso possa parecer maior e mais homem, vão criando um acordo tácito onde todos mentem, todos sabem das mentiras de todos, mas ninguém questiona já que é vantajoso fazer parte de um grupo que vai fingir que acredita nas minhas mentiras e isso dá uma falsa sensação de segurança. O machismo é uma construção muito frágil e é por isso que os que a defendem fazem isso de forma tão agressiva.

Quanto mais a velocidade e a abrangência da informação vão varrendo o passado, mais insustentável é a manutenção de culturas conservadoras baseadas em estruturas imutáveis. O século XXI é anti-machista e não é possível voltar atrás. Quanto mais as vítimas colaterais do machismo ganham voz, mais difícil é resistir e defender essa cultura. As mulheres e os homossexuais trazem esse debate à tona, seja de forma clara e dialogada, seja de forma agressiva e impondo condições.

Mas a vítima menos óbvia do machismo, que está presa e sem voz, sem perceber sua condição, é o próprio homem. As estatísticas de abuso sexual de menores, embora ainda muito longe de serem um retrato da realidade, já que a maior parte dos casos não é reportada para a polícia, já apontam para um número igual ou maior de casos de estupro de meninos comparados aos de meninas. O estupro, independente de quem é a vítima, é resultado de uma profunda necessidade de afirmação do ego através da submissão do outro pela força. Fazer isso com crianças mostra o grau de desequilíbrio interno que a cultura do machismo insufla. O silêncio decorrente do medo das consequências desses atos, a fantasia de que os meninos heterosexuais podem “virar” homossexuais, vão causar nessas crianças um desequilíbrio maior ainda, sem cura. A solução do machismo para questões emocionais é sempre o silencio. “Seja homem! Engole esse choro! Parece uma menininha!”

Ao macho não é permitido ser frágil, mas a fragilidade é uma condição humana das mais fundamentais. É na fragilidade que encontramos a empatia, quando sentimos com o outro a sua dor. Toda a pressão e as acusações que hoje são feitas ao machismo fazem com que os homens fiquem na defensiva e até radicalizem sua defesa do comportamento machista, mas já é tempo de dar um passo para trás e olhar para tudo isso com mais racionalidade. Se não tomarmos as rédeas desse problema e assumirmos a responsabilidade de sermos pais, irmãos e filhos de mulheres e de homens, entendendo que eles são livres e que essa liberdade deve ser protegida, esse conflito não vai acabar.

O antídoto do machismo é a hombridade, a capacidade de ajudar e proteger, sem sufocar ou dominar. A fraternidade é também uma característica humana bem marcada no comportamento masculino. Que ela guie a nós, homens, para o fim do machismo.

Mauricio Zanolini

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