Educação e discurso de ódio

O educador e poeta norte-americano Clint Smith falou recentemente num TED  sobre como criar um filho negro nos Estados Unidos. Ele cita Paulo Freire e a Pedagogia do Oprimido para explicar que os pais dele lutavam para mostrar para os filhos a realidade do mundo em que viviam, ao mesmo tempo em que reforçavam a ideia de que o status quo não era inevitável.

Ao citar Paulo Freire, ele ressalta a visão do brasileiro que entende a educação como ferramenta para o despertar do pensamento crítico e como ação para construção de uma humanidade compartilhada. Ao citar a Pedagogia do Oprimido, ele diz: “Ninguém pode ser autenticamente humano enquanto impede outros de serem também”.

Ao relatar sua experiência, ele declara que agora entende as difíceis escolhas que seus pais tiveram que fazer para criarem filhos numa realidade que os via/vê como um estereótipo, que os julgava/julga como se fossem unidimensionais e, portanto, como se não fossem humanos.

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Enquanto isso, aqui no Brasil, amarramos jovens em postes e os espancamos até a morte, defendemos a redução da maioridade penal, criticamos as cotas, maldizemos políticas de distribuição de renda direta. Queremos soluções simples para problemas complexos, queremos agora o que levará pelo menos uma geração para ser feito. Julgamos as vidas e escolhas dos outros o tempo todo, sem filtros.

Um comentário pinçado num compartilhamento da palestra de Clint Smith pela rede social dizia mais ou menos o seguinte – O que pensa a maioria branca ali naquele auditório? Um bando de hipócritas, acham que bater palma para um discurso forte de um negro, um discurso que veste a carapuça de todos os brancos ali presentes, os livrará de serem racistas e seguirem usufruindo de seus privilégios raciais!

E o discurso de ódio mais uma vez emerge, diante de alguém que conta sua experiência e desvela a realidade a partir de seu olhar como se o mundo e cada um de seus aspectos fosse uma partida de futebol entre o meu time e o resto.

Para o filósofo e professor da Universidade de  Princeton, Cornel West, o legado da cultura negra nos Estados Unidos é oferecer em contrapartida à catástrofe, a compaixão, a coragem e a visão. Diante da opressão da escravidão, a resposta é o fim da escravidão para todos os indivíduos e não a vingança e a punição para os que até então escravizavam.

E antes que essa conversa escorregue para os argumentos fáceis da polarização entre opressores e oprimidos, antes de escolhermos um lado e listarmos racionalizações rasas para explicar por que as coisas são como são, lembremos que nós somos todos opressores de nós mesmos. Nosso próprio discurso de ódio nos oprime, nos faz menos humanos do que podemos ser, nos limita.

Pensamento crítico também é pensamento autocrítico. É assim como amar ao próximo como a si mesmo, se você é cristão; endireitar a si mesmo para depois ensinar aos demais se você for budista; ou fazer parte desse imenso ecossistema cósmico de equilíbrio delicado onde todas as partes se influenciam mutuamente, se você é ateu.

Estimular esse estar no mundo, aguçando o olhar autocrítico, nutrindo a compaixão através da comunhão entre todas as visões espirituais, essa é a mais profunda educação, esse é o nosso mais profundo compromisso.

Mauricio Zanolini

One thought on “Educação e discurso de ódio

  1. Bravo… esse é o espírito necessário aos nosso tempo de transição: mais amor, compaixão… nas nossas ações imediatas e a longo prazo. Compartilhando em 1, 2.. e…

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