Moradores de rua: invisíveis, porém, concretos

Faz alguns anos, numa destas sagradas oportunidades que a vida nos oferece vez ou outra, fui convidada a distribuir materiais de primeira necessidade na cidade de São Paulo, para moradores de rua. No começo, surgiram dúvidas, medos diversos, até por posicionamentos de parentes e amigos, mas depois, seguindo o fluxo do meu momento, aceitei a ideia, seguindo com o grupo rumo a uma das mais significativas experiências por mim já experimentadas.

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Nas primeiras saídas, ajudei tão somente com mão-de-obra, carregando os alimentos, dobrando cobertores ou separando roupas. Entregava os materiais com alegria, embora certa angústia me acompanhasse, durante todo o percurso.

Porém, devido ao meu espírito curioso, em pouco tempo, passei a levantar algumas hipóteses sobre as particularidades da vida do morador de rua: Acreditava que o que mais os incomodava, naquele tipo de vida, devia ser o fato de não terem como tomar um bom banho ou por não conseguirem bons locais para dormir, estando expostos ao tempo, insetos, assim como a doenças variadas. Vê-los largados no tempo e no espaço, sem nenhuma perspectiva existencial, fazia com que meditasse bastante a respeito, chegando a pensar que, assim como ensinou Maslow, com sua famosa pirâmide de necessidades, as questões básicas, ligadas ao campo físico, seriam as fontes de maiores angústias em suas rotinas sem destino.

Acontece que não me contentei com hipóteses. Decidi ir ao encontro de alguns deles e saber sobre suas histórias de vida, vontades, alegrias e dores. Sem receios, fui até as praças e alguns viadutos, em busca de informações, carregando pequeno bloco de notas, uma caneta e muitas perguntas.

Fiquei espantada ao ouvir de muitos deles que o que mais lhes angustiava, na verdade, era o fato de se perceberem invisíveis, ou ainda, por serem tratados como animais, sendo escorraçados de determinados lugares, quando seu cheiro ou aparência incomodavam sobremaneira.

Tanto que um dos pontos levantados como sendo motivo de alegria foi o convívio com os voluntários da noite, pois eram as raras pessoas que os tratavam como seres humanos.

Dentre as várias conversas que tive, quero destacar uma, que aconteceu com certo jovem, pai de família (vivia com a esposa e um filho de três anos de idade nos jardins da Praça da Sé), pois ela traz pontos que foram assinalados por muitos outros que vivem na mesma situação. Durante o diálogo, contou-me que tiveram grandes problemas em família antes de optarem pelas ruas, sendo que a situação piorou muito quando se deram conta de que a cada dia ficava mais difícil conseguir trabalho. Até que desistiram, pois o linguajar, odor e aparência não lhes abriam nenhuma porta, muito ao contrário – retiravam-lhes o mínimo de chance possível de algum sucesso.

O jovem rapaz confessou, entristecido, que a maior dificuldade que encontravam era a de serem reconhecidos como seres humanos. Disse, ainda, que se sentia extremamente contrariado com o fato de se perceber invisível e, em outros momentos, ser tratado como animal ou até mesmo como bandido, até porque não roubava nada de ninguém. Dizia ele: “Se fôssemos ladrões não precisaríamos morar nas ruas, pois teríamos ao menos uma pequena casa para viver, lá no morro.”

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Assim como neste caso, muitos outros passam pelas mesmas humilhações. Então, a pergunta: – Por que nos esquecemos de que aquelas pessoas têm sentimentos, necessidades ou anseios? Ou ainda: Por que será que são invisíveis, para nós?

Ralph Ellison, um escritor negro, nascido nos EUA, escreveu, em 1965 a respeito de seu livro Invisible Man (de 1952): “Eu sou um homem invisível. Não, eu não sou um fantasma como os que espantaram Edgar Allan Poe; nem sou eu de vossos ectoplasmas dos cinemas de Hollywood. Eu sou um homem concreto, de carne e osso, fibra e líquidos e de mim pode-se até dizer que tenho inteligência. Eu sou invisível, entenda-se, simplesmente porque as pessoas recusam-se me ver.

Este triste fato, que não ocorre apenas com negros estadunidenses, parece ter como causa as representações sociais, onde somos educados a compreender como sendo válido e bom apenas o que faz parte da cultura dominante. Tudo o que vem do “branco rico” é melhor, portanto todo o restante deve ser apagado, negado, ou explorado. Negros, garis, moradores de rua, serventes escolares, empregadas domésticas, favelados, pessoas do campo, etc., – são alguns dos que participam dos números relatados no censo, avolumando aqueles dados estatísticos, porém, sem serem percebidos como seres vivos – pensantes – dentro da sociedade.

A verdade é que, o que menos preocupa um morador de rua é o alimento, mesmo porque são auxiliados por muitos destes abnegados trabalhadores das ONGs e outras entidades. Não sentem fome do pão, contudo têm fome de afeto, de consideração, de alguém que os escute. Não sofrem apenas pela ausência de casa ou de família, mas principalmente pela ausência de humanidade. Não lamentam somente o fato de estarem concretamente na miséria, mas principalmente a miserável forma de tratamento que recebem.

Recordemos que, mesmo compreendendo a realidade de outra forma, estes seres que vivem da mendicância são humanos como nós e isso implica em características humanas, ou seja, eles são dotados de capacidade de pensar e sentir.

Podemos inferir que, se vez ou outra alguém lhes dirigisse a atenção, desejando saber deles o que levam em seus corações, suas vidas seriam menos doloridas e, quem sabe, um pouco mais alegres, apesar das tremendas dificuldades materiais em que se encontram.

Porém, para nos darmos conta destes e outros desarranjos sociais, com suas representações, contradições e perversões, preciso é nos aprofundarmos em seus meandros, discutindo mecanismos essenciais do sistema.

A Universidade Livre Pampédia traz esta marca em suas raízes: propõe uma desconstrução, um novo olhar, um questionamento real que promova estranhamentos, a busca por novas possibilidades e possíveis mudanças. Porque entendemos que, para além do percebido, muitas vezes existe o verdadeiro. Embora nem sempre este verdadeiro seja bonito de se ver.

Claudia Mandato Gelernter

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