Eurípedes Barsanulfo, o Educador

Euripedes

Nessa semana, comemoramos no dia 1 de maio o nascimento de Eurípedes Barsanulfo, que aconteceu em 1880. Ele é qual uma árvore de fruta suculenta e preciosa: sua mensagem ainda permanece como um caminho para saciar a fome de muitos. O seu trabalho pode contribuir para o florescimento de uma rica transformação da educação nesse mundo. Ainda a imagem mais conhecida desse grande educador no movimento espírita é apenas um retrato de médium dedicado e capaz, mas isso não expressa toda a sua essência. É nesse contexto de crise na educação contemporânea e de busca de saídas alternativas, que surge a figura de Eurípedes como altamente significativa.

O que mais impressiona ao olhar para essa figura é o seu entusiasmo pela educação, sua ternura para com todas as pessoas, a capacidade de compaixão pelos pobres e doentes e o seu amor profundo pelas crianças e alunos. Um homem cheio de ternura nos relacionamentos humanos. Mas os testemunhos são unânimes em afirmar que sua característica principal era de educador. Em janeiro de 1907, ele funda o colégio Allan Kardec na cidade de Sacramento em Minas Gerais. Desde o início, fundamentou a sua proposta pedagógica em dois pontos essenciais: 1) no reconhecimento de que o ser humano é um ser imortal: A corporeidade é apenas uma instância existencial do homem, embora necessária, a ser valorizada e assumida. O ser existe além das dimensões físicas e visíveis porque é um espírito eterno que carrega em seu íntimo inúmeras capacidades. 2) a criança é o ser reencarnado, que recomeça a existir na Terra e está temporária e parcialmente adormecido, tornando-se receptível às sugestões de uma nova educação. Ser inteiro, livre, interexistente que se manifesta em corpo frágil de criança para retomar as experiências no mundo em moldes diversos dos que já experimentou no passado e poder integrar essa nova personalidade em formação às múltiplas personalidades já vividas, que constituem o seu eu integral. Por isso, a educação é exatamente um processo permanente de aperfeiçoamento do Espírito, é o despertar de suas potencialidades da alma, a realização gradativa de sua divindade e não apenas numa dada existência, mas eternidade afora. Renascemos múltiplas vezes, ascendemos de mundo em mundo, experimentamos ações, debruçamo-nos sobre a natureza do cosmos, para perscrutá-lo e decifrá-lo — e tudo isso faz parte do processo pedagógico em que estamos lançados como Espíritos em evolução. Assim, a educação é o sentido mesmo da existência. É meio e finalidade, é processo e meta.

Com Eurípedes, o espiritismo mostrou-se como obra de educação. O educador de Sacramento considerava que a educação escolar em seus objetivos e em seus métodos, em suas concepções e suas propostas nunca podia ser somente ajuste sociocultural, somente profissionalização, somente desenvolvimento cognitivo. A educação tem de ser tudo isso e mais ainda, pois deve colocar o indivíduo na trilha de seu desabrochar espiritual completo. Na escola, o educador deve entregar ao educando a responsabilidade de se autoeducar, despertando-lhe o ímpeto para isso. Durante a presente vida e depois, nas sucessivas vidas, é o próprio Espírito que terá de engajar-se em trabalhar pelo seu melhoramento. Assim, educar é, antes de tudo, conquistar a adesão do educando para sua própria educação.

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Para Eurípedes, o respeito à liberdade do ser é consequência do amor. O educando precisa de espaço e afeto para se desenvolver. Ao mesmo tempo, precisa de liberdade para pensar, para agir e para ser. Sendo assim, não adota métodos repressivos na educação do ser humano. No terreno educativo, ele se posiciona, contra as pedagogias em voga no seu tempo que assumiam um caráter meramente livresco, intelectualista e artificial. A educação deveria preparar os alunos para o desenvolvimento das capacidades humanas, para a vida. O objetivo da educação não seria formar o homem polido, letrado e de boas maneiras, mas educar para que desenvolvessem as potencialidades que se encontram dentro de si. Nesse sentido, nada escapava aos seus olhos atentos de educador, por isso, passava longo tempo observando e conversando com seus alunos. Eurípedes era um professor que estava sempre muito perto deles, ficava atento a tudo que faziam, estimulava-os, ajudava-os e transmitia-lhes seu idealismo.

Os ex-alunos narram que a dedicação de Eurípedes às crianças fazia os alunos terem uma enorme admiração por ele e nutrirem um sentimento contagiante de felicidade no colégio. Sabia como ninguém, encontrar os sinais, as tendências, as capacidades da personalidade espiritual que estava diante dele, fosse criança ou jovem. Germano, um dos seus ex–alunos, conta que estabelecia com eles laços profundamente amorosos, de cuidado, de estímulos e atenção, que todos se sentiam mobilizados a buscarem conhecimento, a se educarem, a buscarem ser seres humanos melhores. Educador e educando estavam sempre próximos um do outro, existindo um clima de camaradagem e amizade entre ambos. Eurípedes criou no colégio um ambiente vivo, de alegria. O ambiente de acolhimento contribuía para o desenvolvimento das capacidades mais belas dos alunos.

Eurípedes possuía uma afetividade poderosa, que contagiava e invadia o coração do educando, deixando-lhe marcas profundas; possuía, e não meramente aparentava, as virtudes fundamentais como fraternidade e justiça, integridade e generosidade, para poder impregnar o educando com o seu exemplo, para exercer sobre ele a única autoridade aceitável — a autoridade moral, que jamais é imposta ou coercitiva, mas reconhecida e respeitada espontaneamente. Entregava-se de forma delicada e cuidadosa. Eurípedes sabia que estava lidando com uma vontade livre e não se dispunha a dobrá-la, mas esforçava-se pela possibilidade de influenciá-la para o bem e no desenvolvimento de suas capacidades. Em última instância, o ato pedagógico é sempre uma oferta, um convite, uma possibilidade, que o educando tem a liberdade de aceitar ou recusar. Eurípedes entendeu genialmente, com uma percepção certeira que não basta educar, é necessário educar para a plenitude da alma. Para se chegar à plenitude da alma, precisa-se educar com ternura e amor. Nele, como em poucos educadores, eclode a essência da educação.

Alessandro Cesar Bigheto

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