O que a menina disse? Eis a resposta!

BLOG_Luisa_fev2015_2Há uns posts atrás, fizemos essa pergunta aqui no Blog a partir de uma foto de uma garotinha que observava a réplica de uma escola do século XIX (reveja aqui). Algumas pessoas nos enviaram suas sugestões, dizendo, em outras palavras, o que a menina falou naquele dia: “É igualzinha à minha escola”, ela gritou! Um dos comentários que tivemos, por exemplo, trouxe a reflexão: “Um professor do século XIX deve ser um dos raríssimos profissionais que se viesse dar aulas no nosso século, estaria perfeitamente ‘atualizado’ e enquadrado na realidade que encontraria”.

As mais incríveis e inimagináveis transformações e invenções aconteceram nos últimos cem anos, nas mais diferentes áreas do conhecimento. Descobertas essas que não ficaram restritas a um núcleo seleto de pensadores, mas que foram colocadas em prática e revolucionaram os meios de comunicação, o transporte, a telefonia, a internet e a tecnologia em geral. Novos mundos foram vislumbrados e outros tantos vão sendo sonhados e forjados dia a dia.

No entanto, por que uma criança do século XXI – que, por ironia, segura um celular – diz que um cenário que representa o ano de 1861 é “igualzinho” à sua realidade escolar?

Vamos olhar um pouco para a História.

A escola tal como a conhecemos e a pedagogia como ciência são frutos da Idade Moderna. Foram intensas as revoluções que marcaram esse momento de transição da Idade Média para a Modernidade, entre elas o fim do sistema feudal de economia e início dos ideais capitalistas de produtividade e de consumo; a descentralização política; o surgimento da classe burguesa, da sociedade urbana; a laicização e a racionalização do saber.

No entanto, uma das mais impactantes revoluções deste período registrou um profundo paradoxo que permanece atual: a percepção cada vez mais clara do sujeito como indivíduo singular, livre, pensante e ativo na sociedade, ou seja, capaz de transformar sua realidade – que até então era determinada pelo seu papel social. Ao mesmo tempo, o poder e o controle, que antes estavam nas mãos apenas da Igreja e do Estado, passam a ser exercidos de forma mais silenciosa, eficiente e penetrante, já que pulverizado em instituições educativas (ou formativas) – como os hospitais, os manicômios, as prisões, as escolas e o exército. É o que Michael Foucault chama de ‘microfísica do poder’: “Um poder que age em muitos espaços do social, de forma capilar, micrológica justamente, e que penetra nas consciências através dos corpos, através do controle minucioso de gestos, posições, atitudes físicas, estabelecendo a ordem de uma disciplina, tornando, assim, os sujeitos dóceis, possuídos e guiados pelas finalidades do poder”.

É por isso que neste momento histórico, segundo Franco Cambi (em seu livro ‘História da Pedagogia’), muda-se o fim da educação – agora voltada para um indivíduo mais racionalizado e ativo na sociedade –, mas também mudam-se o meios educativos, já que as instituições passam a ser formativas e com função de controle e conformação social. “Entre essas instituições, a escola ocupa um lugar cada vez mais central, cada vez mais orgânico e funcional para o desenvolvimento da sociedade moderna: da sua ideologia (da ordem e da produtividade) e do seu sistema econômico (criando figuras profissionais, competências das quais o sistema tem necessidade)”.

No livro “Vigiar e Punir”, Foucault analisa diferentes instituições formativas e de controle e identifica as estruturas que garantem a função produtiva do indivíduo e a sua obediência aos padrões determinados: o minucioso controle do corpo, a divisão produtiva do tempo, a ritualização do momento da avaliação. É o que vemos acontecer na escola!

Aparelho ideológico do Estado

A partir desse panorama histórico do “surgimento” do indivíduo e da “capilarização” das formas de poder e controle, não fica difícil entender porque após tantos avanços em outros setores, especialmente no último século, a estrutura escolar permanece praticamente intocável, pelo menos em grande escala. É descaso do poder público? Parece pouco provável. Talvez em algumas instâncias sim, mas apenas por uma questão de repetição de padrão.

Uma ideia de escola que valoriza a disciplina verticalizada, os horários rígidos, os corpos quietos e as mentes apáticas, as provas e exames como forma de competição e punição, a dependência a ordens de comando – não é obra do acaso. É fruto de uma proposta muito bem estruturada, que serve a interesses de um sistema específico. Continua Cambi: “à escola foram atribuídos um papel e um perfil decididamente ideológicos: ela se torna agente da reprodução social e, em particular, da ideologia dominante, do poder e seus objetivos, seus ideais e sua lógica. A escola se torna, como dirá Althusser, ‘aparato ideológico do Estado’ que molda, reproduzindo a força de trabalho, mas sobretudo a ideologia”.

Então qual é a escola que queremos?

Para Cambi, o paradoxo individualidade/liberdade x conformação social permanece absolutamente atual. Com uma diferença, porém: apesar das instâncias de controle estarem mais difusas e penetrantes do que nunca, a consciência desse mecanismo aumenta proporcionalmente, produzindo formas de “desmascaramento da lógica de domínio” e alternativas que permitem ações fora do sistema e que valorizam a liberdade do indivíduo, e o seu real poder transformador.

Por isso são muitas as propostas de educação – institucionalizadas ou não, certificadas ou não – que buscam outros caminhos diferentes daqueles que levam às reproduções de comportamento e a um abastecimento industrializado de profissionais para o mercado de trabalho.

Qual é o real texto, o real currículo das escolas? Essas são perguntas essenciais para evitarmos cair na armadilha da neutralidade de ideologia, para conseguirmos ler as entrelinhas e o que nos diz o entorno. As decisões de como disponibilizar o acesso ao conhecimento, de como estruturar o espaço físico, de como construir a relação entre todos os participantes do processo educacional já carregam em si mesmas um significado, atuando na formação daquele indivíduo.

alunos

E se perguntássemos para aquela mesma garotinha: “Se você pudesse sonhar a sua própria escola, como seria?” Foi o que buscaram responder e construir alguns adolescentes dos Estados Unidos, no Projeto Independente, um exemplo de como podemos fazer a partir daquilo que realmente somos.

Luísa Módena Dutra

 

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