A educação plural e inter-religiosa para a não-violência

Paz em caligrafia árabe contemporânea
Paz em caligrafia árabe contemporânea

A violência que ainda impera no mundo, praticada por impérios e povos, grupos e indivíduos, aborrece constantemente aqueles que desejam um planeta de paz, dilacera os corações sensíveis, porque mata crianças, pessoas inocentes – e qualquer um na verdade é inocente, porque ninguém merece ser exterminado em massacres, atentados, assassinatos. A violência atenta contra a dignidade humana. Mas é preciso considerar que ela faz parte de um ciclo sombrio, porque grupos e pessoas que a praticam muitas vezes também foram violentados, desrespeitados, feridos e reagem assim. Então o ciclo se perpetua indefinidamente. Há, porém, aqueles, que donos de poderio militar ou econômico – e isso ocorreu em todas as épocas da humanidade – impiedosamente se fazem agressores de outros povos, desrespeitando os direitos fundamentais da vida (e hoje podemos dizer, tanto da vida humana, quando da vida da natureza de nosso depredado planeta).

Frequentemente, na história da humanidade, e ainda hoje, violências são cometidas em nome das religiões, e também em nome de ideologias, por fanatismos de variados matizes – mas sobretudo pelo desejo de conquistar o outro, em seus territórios, em seus bens e também em suas crenças, em sua identidade…

Como sempre, não vejo outro recurso para mudar esse cenário que o da educação. O respeito ao outro começa no conhecimento que se tem dele. Quando consideramos o outro, totalmente outro, com quem não nos identificamos em nada, fácil é conquistá-lo, doutriná-lo, violentá-lo e… eliminá-lo.

O respeito à vida, à natureza, aos seres humanos, acima dos ganhos materiais (e não ao contrário, como se dá no capitalismo selvagem em que vivemos), nasce de sentimentos de fraternidade, amor ao próximo, empatia, que podemos desenvolver através da educação.

Eis porque se torna tão visceralmente importante uma educação plural e inter-religiosa. Quando falamos de uma educação assim e a praticamos – e é isso que temos feito no próprio curso de pós em Pedagogia Espírita há 10 anos e em muitos de nossos livros e em nossos congressos, e que será a tônica da Universidade Livre Pampédia – estamos propondo exatamente o quê?

Trata-se de não fazer da educação uma doutrinação, seja de que vertente for (religiosa, política, filosófica…), mas trazer para o conhecimento do discípulo (seja de que idade for), as diversas posições, mesmo que opostas, sobre um determinado assunto, fazendo-o ver que a verdade é multifacetada em diversas interpretações e que o mundo é tão complexo que não pode estar contido numa só visão, fechada e dogmática. Essa maneira de encarar a educação não é induzir o educando a um relativismo do tipo pós-moderno, em que todos os discursos se equivalem, como apenas narrativas, sem possibilidade de evidenciarem nenhuma verdade. Ao contrário, é conceber que cada visão de mundo pode ter alguma parcela de verdade ou pelo menos, haverá uma justificativa histórica, social, política ou mesmo espiritual, para que determinado grupo pense dessa ou daquela maneira.

Trata-se portanto de desenvolver um processo de empatia com o outro, no entendimento do por que o outro pensa ou age de uma determinada maneira, mas principalmente numa identificação sempre possível com a parte positiva, elevada, que todo ser humano tem e que as ideias, as filosofias, as religiões também podem ter.

Tudo isso só é possível, introduzindo-se a espiritualidade na educação, não de forma confessional, mas inter-religiosa.

Primeiro, porque a maioria das grandes religiões, como o Cristianismo, o Budismo, o Hinduísmo, o Islamismo, o Judaísmo e outras, trazem em sua essência (e não em seus abusos a serem criticados e nem em suas interpretações fundamentalistas), preceitos de dignidade, igualdade de todos os seres humanos e propostas de compaixão, de fraternidade, de perdão, de desprendimento dos bens terrenos. Ao recuperarmos a espiritualidade de forma inter-religiosa na Educação, já podemos colocar o educando em contato com o que há de mais belo e elevado nas religiões, munindo-o ao mesmo tempo de espírito crítico em relação aos desvios fanáticos e dogmáticos, que todas carregam.

É possível, por exemplo, independentemente da religião a que pertençamos, e mesmo se não tenhamos nenhuma, nos identificarmos com a grandeza espiritual, de um Rumi, de um Francisco de Assis, de um Gandhi, de um Dalai Lama, de um Janusz Korczak, de um Martin Luther King, de um Eurípedes Barsanulfo, e, através dessas grandes almas, criarmos uma vinculação afetiva com a própria religião a que pertencem, pois foi seguindo a essência divina de seus preceitos é que alcançaram a estatura espiritual que pode nos inspirar a todos.

Também nos ateus podemos encontrar exemplos dignos e, portanto, criarmos empatia igualmente com pessoas, cujos ideais não passam por uma visão teísta da vida.

Essa maneira de estimular identificação positiva com expoentes morais de diversas correntes de pensamento leva a um pluralismo real e pode imunizar as novas gerações contra intolerâncias e discriminações. Alguém que se comoveu com a história de Janusz Korczak jamais poderá ser antissemita; quem admirou o trabalho de Eurípedes Barsanulfo não terá preconceitos contra os espíritas; quem vibrou com a atuação de Martin Luther King não será racista e assim por diante.

É claro que essa empatia não é algo que se dá apenas pela razão, mas sobretudo por uma identificação do coração. E um coração empático com pessoas de tenham outras culturas, outras ideias, outras crenças, esse coração jamais será violento contra o próximo.

Novas gerações, embebidas desses valores que emanam dos verdadeiros líderes morais da humanidade – e não dos líderes políticos, militares, econômicos, que apenas desejam açambarcar para si os bens da Terra – serão pessoas mais conscientes da necessidade de mudar os valores que estruturam a sociedade. Se a sociedade humana for mais justa, mais igualitária e a maioria, consciente do valor intrínseco de cada ser humano, passar a não colaborar mais com aqueles 1% que detém 50% dos bens do planeta, a violência desaparecerá do mundo e teremos finalmente o Reino de Deus na Terra.

Nota:  Quem quiser saber mais sobre o tema, pode assistir a uma entrevista que dei recentemente para a TV NUPES  (Núcleo de Pesquisas em Espiritualidade e Saúde da Faculdade de Medicina da UFJF). Esse núcleo, liderado pelo Prof. Dr. Alexander Moreira-Almeida, já firmou parceria com a Universidade Livre Pampédia.

https://www.youtube.com/watch?v=2wFT7lse46A

Dora Incontri

One thought on “A educação plural e inter-religiosa para a não-violência

  1. Admiro mto esse Ser ‘Dora Incontri’ minha irmã maior. Tenho ouvido sua fala em alguns vídeos na net. Ela com sua visão de vida e de espírita, também fez uma enorme diferença no meu caminhar e na visão, no norte de minha caminhada. O espirismo traçou um novo caminho em minha vida, mas parecia que estava tapada, amarrada condicionada.
    Saiba, você é meu norte, houve em mim, uma grande mudança após ouvir suas palestras que tenho gravadas no meu PC.
    Obrigada Dora, muita Luz e Paz nos seus objetivos. Futuramente poderão também ser os meus.

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